"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 8 — O Nome Por Trás da Vitrine
Capítulo 8 — O Nome Por Trás da Vitrine
Vila das Flores acordou com as sirenes, mas antes do almoço já havia outra história correndo pelas ruas.
Uma página anônima publicou uma foto antiga de Marina saindo da Casa Aurora. A legenda dizia que a estilista fora vista discutindo com Bianca Duarte dias antes do desaparecimento de Luana. Em menos de uma hora, os comentários tinham transformado uma imagem sem contexto em sentença.
‘E se ela souber mais do que diz?’
‘Essa família só apareceu porque ficou famosa.’
‘Quem garante que a menina não inventou tudo?’
Rafael desligou o computador com força.
"Não mostrem isso para a Clara."
"Eu sei ler", Clara respondeu da mesa da cozinha.
Ele se ajoelhou diante dela, arrependido na mesma hora. "Eu sei que sabe. Eu só queria que você não tivesse de ler crueldade tão cedo."
"Mas ela já está aqui", Clara disse. "Se a gente finge que não está, ela cresce."
Marina não falou nada. Desde a fazenda, ela parecia andar dentro de um lugar muito distante. Continuava fazendo café, dobrando roupas, perguntando se Clara tinha escovado os dentes. Só que seus olhos se fixavam no vazio sempre que ouvia uma moto passar na rua.
Helena chegou no fim da tarde com uma pasta grossa e uma expressão cansada.
"A operação libertou nove vítimas", informou. "Duas foram levadas ao hospital. Luana está com a avó e uma psicóloga. Bianca concordou em falar, mas só se tiver proteção."
"Ela vai dizer onde Augusto está?" Rafael perguntou.
"Talvez. Primeiro precisamos desmontar a mentira que ele plantou." Helena abriu a pasta. "A postagem saiu de um computador registrado para a empresa de transportes Brandão. Mas ele usa laranjas. Juridicamente, ainda não é suficiente."
Marina levantou a cabeça ao ouvir o nome.
"Eu tenho uma coisa", disse ela.
Foi até o quarto e voltou com uma caixa de sapatos coberta por papel florido. Dentro havia amostras de renda, recibos desbotados e um caderno fino, preso por elástico.
"Esta era da Joana. A costureira que trabalhava comigo antes da Casa Aurora. Ela desapareceu da cidade de repente. Eu achava que tinha ido morar com a irmã em Campinas." Marina virou páginas marcadas por medidas de vestidos. "Na época, ela dizia que Augusto fazia perguntas estranhas: quem tinha filhos, quem trabalhava sem família por perto, quais clientes estavam endividadas."
Helena pegou o caderno com cuidado.
Entre números de tecido e desenhos de mangas havia datas, placas de caminhão e abreviações. Uma anotação aparecia três vezes: ‘entregar na Aurora — usar espelho’.
"O espelho do provador", Clara disse.
Rafael virou para ela. "Você viu alguma coisa lá?"
Clara lembrou da porta secreta, da parede fria atrás das araras, do medo de Marina quando Bianca mencionara ‘o corredor’. Ela apontou para um desenho no caderno: uma planta simples da loja, com um quadrado marcado atrás do espelho maior.
"A passagem não termina na rua. Tem uma sala entre a loja e o prédio ao lado."
Helena fechou a pasta. "Vamos pedir mandado."
"Ele vai apagar tudo antes", Clara insistiu.
"E se entrarmos sem mandado, ele transforma a defesa dele em espetáculo." Helena respirou fundo. "Eu não vou entregar a Augusto um erro para usar contra vocês."
Clara ficou quieta, mas não desistiu. No caminho de volta, ela pediu ao pai uma folha de papel e desenhou a fachada da Casa Aurora do jeito que conseguia lembrar. Fez a vitrine, o balcão, as araras, o provador e o espelho. Depois marcou com bolinhas os lugares onde vira pequenas câmeras. Rafael observou por cima do ombro dela.
"O que é isso?"
"As câmeras dele." Clara marcou uma cruz no corredor escondido. "Aqui não tinha. Ele queria que as pessoas passassem sem ser vistas."
Rafael levou o desenho a Helena. A investigadora não prometeu nada, mas o comparou com a planta encontrada no caderno de Joana. A parede sem câmera coincidiu com uma saída de serviço que não aparecia no registro municipal. Esse detalhe permitiu pedir também a busca no prédio vizinho, fechado havia meses em nome de uma empresa de fachada.
"Você não está indo para lá", Helena avisou Clara, devolvendo-lhe o lápis. "Mas essa informação pode fazer diferença."
Clara olhou para o desenho. "Então não deixa ele mudar a loja antes de vocês chegarem."
Naquela noite, Marina recebeu uma ligação da vizinha. A mulher falava baixo, constrangida: duas clientes tinham cancelado encomendas porque não queriam ‘se envolver em problema’. Marina agradeceu e desligou. Depois ficou olhando para a própria mão, para a pulseira de jasmim agora quebrada ao meio.
Clara puxou uma cadeira até ela.
"Você vai parar de fazer vestidos?"
"Eu não sei", Marina admitiu. "Hoje eu entrei no ateliê e não consegui tocar em nada."
"Mas você fez meu vestido de festa quando eu tinha febre. Você fez o da professora Nádia quando ela estava triste. Você não fez roupas para ele."
Marina sorriu, mínimo e dolorido. "Você fala como uma senhora de oitenta anos."
"Eu treino bastante", Clara disse, e a mãe a abraçou antes que ela pudesse explicar.
No dia seguinte, Helena levou Bianca a uma sala protegida da delegacia. Marina hesitou à porta, mas entrou. A jovem estava pálida, com o cabelo preso e uma marca roxa no braço.
"Você me escolheu", Marina falou.
Bianca baixou os olhos. "Eu escolhi obedecer. Não é a mesma coisa, mas eu sei que não melhora." Ela respirou de modo irregular. "Augusto me encontrou quando eu devia aluguel. Disse que eu só precisava observar. Depois, quando eu quis sair, mostrou fotos da minha irmã."
"Onde está Joana?" Helena perguntou.
Bianca fechou os olhos. "Ela fugiu. Eu não sei se vive. Mas deixou cópias de tudo numa conta de depósito. Augusto nunca achou porque ela registrou no nome de uma mulher que ele desprezava: Dona Cida, a faxineira da Casa Aurora."
Helena pediu o endereço. Bianca acrescentou, quase sem voz:
"Ele não vai fugir da cidade. Ele quer recuperar alguma coisa na loja. Um caderno preto. Chamava de livro das promessas."
O mandado saiu no fim da tarde.
Quando a polícia entrou na Casa Aurora, o lugar parecia limpo demais. Manequins vestidos de noiva encaravam a rua pela vitrine. O espelho grande refletia Helena, Rafael e Marina como uma família partida em quatro pedaços.
Clara ficou do lado de fora, dentro da viatura, como tinha sido mandada. Mesmo assim, viu Marina tocar a moldura do espelho.
Ela não empurrou.
Esperou Helena encontrar o mecanismo escondido na parte de baixo. O painel girou e revelou uma sala estreita, com caixas vazias, celulares queimados e uma parede coberta por fotografias. Nomes. Horários. Rotas.
No centro, preso por um alfinete, estava um retrato recente de Clara saindo da escola.
E, por cima da foto, uma frase escrita em tinta azul:
‘A próxima porta será aberta por ela.’
Helena mandou fotografar cada parede antes que alguém tocasse em qualquer coisa. Uma das imagens mostrava Marina atravessando a praça com Clara pela mão, tirada de longe; outra registrava Rafael saindo da faculdade. Havia bilhetes sobre horários, cores de roupa, até o nome do padeiro de quem Clara comprava pão de queijo aos sábados.
Marina ficou pálida, mas não deixou que a polícia a afastasse imediatamente. Aproximou-se da própria fotografia e disse, num fio de voz: "Ele queria que eu acreditasse que a cidade inteira era dele."
Rafael segurou a mão dela. "Não é."
Do lado de fora, uma mulher que passava na calçada viu as viaturas e reconheceu Marina. Em vez de desviar, ela entrou na loja. Era a professora Nádia, usando o vestido que Marina fizera para sua formatura. "Eu vi as mentiras na internet", ela disse. "E eu vim dizer à polícia que Bianca tentou levar uma aluna minha para o provador três semanas atrás. Eu achei que era só grosseria."
Helena anotou o depoimento. Era pequeno, mas mudava a história que Augusto tentava vender. Pela primeira vez naquele dia, Marina ergueu a cabeça.
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