"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 7 — A Fazenda Santa Luzia
Capítulo 7 — A Fazenda Santa Luzia
Às cinco e dezessete da manhã, o portão enferrujado da Fazenda Santa Luzia caiu para dentro com um estrondo que fez Clara acordar de uma vez.
Ela estava no banco de trás da viatura, entre a mãe e o pai. Marina apertava a mão dela tão forte que seus dedos doíam. Rafael mantinha o olhar preso à casa grande, escura contra o céu ainda azul-cinzento.
"Fique abaixada", ordenou a investigadora Helena Prado. "Ninguém desce sem que eu mande."
Clara assentiu, embora cada parte do corpo quisesse correr. A noite anterior continuava martelando em sua cabeça: o áudio anônimo, a voz masculina dizendo que havia crianças demais para uma polícia tão lenta, e a fotografia enviada logo depois. Nela, Luana aparecia diante de um curral, com o cabelo preso por uma fita vermelha e os olhos vazios.
No canto da foto, Clara tinha visto o pedaço da pulseira de jasmim preso ao portão.
O mesmo jasmim branco que Rafael modelara para Marina quando ainda namoravam.
"É ali", Clara sussurrou.
Helena a ouviu. "Eu sei."
Os agentes atravessaram o terreiro em duas equipes. Uma seguiu para a casa grande; outra, guiada pelo caseiro algemado no caminho, correu para os antigos alojamentos atrás do galpão. Um cachorro latiu furioso. Depois veio um grito de mulher, abafado e interrompido por uma voz de policial.
Marina levou a mão à boca.
"Mãe", Clara disse baixo. "Olha para mim. A gente chegou."
Marina piscou depressa. "E se chegamos tarde?"
Clara não tinha resposta. No futuro que ela lembrava, sua mãe desaparecera numa manhã comum, deixando apenas o cheiro de tecido novo e um silêncio que nunca terminava. Aquela lembrança era grande demais para caber dentro de uma menina de cinco anos, mas agora ela a usou como força.
"Então a gente vai ser quem chegou", respondeu.
Helena recebeu uma chamada no rádio. Seu rosto mudou.
"Encontraram um porão sob o galpão. Três adultas e quatro crianças." Ela se voltou para Rafael. "Senhor Almeida, fique com as duas aqui."
"Minha filha identificou o lugar", Rafael retrucou. "Nós não vamos embora."
"Não pedi que fossem embora. Pedi que ficassem vivos."
Clara viu um movimento pela janela quebrada do galpão: uma fita vermelha, muito rápida, desaparecendo atrás de uma pilha de sacos. Ela empurrou a porta antes que o pai pudesse segurá-la.
"Clara!"
O chão tinha lama, palha e marcas profundas de pneu. O cheiro era de diesel, mofo e medo. Helena a alcançou em três passos, mas Clara apontou para uma pequena porta lateral, quase escondida por uma lona.
"Ali. Luana usa fita vermelha."
Helena hesitou apenas um segundo. Fez sinal para dois agentes.
Quando a porta abriu, uma menina magra se encolheu no canto de um depósito. A fita vermelha estava amarrada no pulso dela, não no cabelo. Ao lado, havia uma garrafa de água vazia e uma caixa de costura onde alguém guardara documentos.
"Luana", Clara chamou.
A menina levantou os olhos. Demorou a reconhecer o nome, como se ele estivesse muito longe.
"Eu sou Clara. Da escola. Sua avó fez bolo de fubá para a festa de junho."
Luana começou a chorar sem fazer barulho.
Clara deu um passo, depois parou. Sabia, mesmo sem saber como, que ninguém devia ser puxado de volta para o mundo à força.
"Posso sentar perto de você?"
Luana assentiu.
Clara se sentou no chão. Tirou do bolso o pequeno rádio de plástico que carregava desde a noite em que a voz adulta a trouxera de volta. A antena torta mal alcançava sinal ali, mas ela girou o botão até achar uma música infantil cheia de chiados.
"Quando eu fico com medo, eu escuto isso", confessou. "Não faz o medo ir embora. Só lembra que ele não manda em tudo."
Luana esticou a mão. Clara colocou o rádio na palma dela.
Atrás delas, um dos agentes abriu a caixa de costura. Havia cópias de certidões, bilhetes de ônibus, fotos de crianças e uma lista escrita à mão. Helena pegou a folha usando luvas.
"Rotas. Datas. Apelidos", ela murmurou. "Isso é maior do que Bianca."
Na última coluna, havia uma inicial repetida: A.B.
Rafael, que chegara ofegante à porta, leu por cima do ombro dela. "Augusto Brandão."
Marina apareceu logo atrás e ficou imóvel. A cor sumiu de seu rosto.
"Você conhece esse nome?" Helena perguntou.
Marina demorou demais para responder.
"Ele comprava tecidos da minha oficina", ela disse. "Anos atrás. Quando eu ainda fazia vestidos sob encomenda."
"Ele esteve na Casa Aurora?"
"Esteve. E conhecia Bianca." Marina fechou os olhos. "Eu achei que ela era apenas uma funcionária assustada."
Do lado de fora, uma sirene soou. Helena recebeu outra chamada. Encontraram mais duas mulheres trancadas numa despensa da casa grande. Uma delas repetia que Augusto visitava a fazenda aos domingos, mas saíra antes do amanhecer.
"Ele fugiu", Rafael disse.
"Ele se antecipou", corrigiu Helena. "Mas deixou um rastro."
Clara olhou para a lista de nomes. No meio deles estava o de sua mãe: Marina Almeida. Ao lado, uma anotação em letras pequenas: ‘mãe protege filha; usar a criança para dobrar’.
Ela sentiu o ar desaparecer.
Marina viu antes que Helena conseguisse esconder a folha. A mão dela tremeu, mas não soltou Clara.
"Não", Marina disse. Não era uma súplica. Era uma decisão. "Desta vez, não."
O celular de Rafael vibrou. Número desconhecido.
Helena fez sinal para que ninguém falasse. Rafael atendeu no viva-voz.
Uma voz de homem, calma demais, encheu o depósito.
"Que belo passeio em família. Espero que a menina tenha gostado da fazenda."
Clara reconheceu a mesma voz do áudio.
"Augusto", Helena disse. "Você está sendo procurado por sequestro, associação criminosa e tráfico de pessoas."
Ele riu baixo. "Vocês ainda acham que sabem do que estão procurando."
"Onde você está?"
"Perto o suficiente para ver como o senhor Almeida fica bravo quando não consegue proteger a esposa." Houve uma pausa. "Diga à Marina que a Casa Aurora continua cheia de portas. Nem todas levam a provadores."
A ligação caiu.
Rafael socou a parede de madeira. Marina se abaixou diante de Clara e segurou o rosto dela com as duas mãos.
"Escuta. Você não fez nada errado. Você foi corajosa."
"Ele vai voltar para a loja", Clara disse.
Helena a encarou. "Por quê?"
"Porque foi lá que ele começou. E porque ele quer que a gente tenha medo de entrar de novo."
Do lado de fora, o sol enfim apareceu atrás das árvores. A luz atingiu o portão quebrado e fez a meia pulseira de jasmim brilhar sobre o ferro.
Clara não desviou os olhos.
"Então vamos voltar", ela disse.
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