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"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 4 — A Foto da Nossa Casa

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Capítulo 4 — A Foto da Nossa Casa

A mensagem ficou aberta na tela do celular.

A família inteira foi identificada. Não deixem testemunhas.

Meu pai leu uma vez. Depois outra.

O sangue que escorria da testa dele pingou sobre a capinha rachada, mas Rafael não pareceu notar.

"Isso é uma ameaça", disse a policial, pegando o aparelho. "Senhor Almeida, sua família vai receber proteção."

Minha mãe tremia nos braços dele. O rosto dela ainda estava pálido por causa do pano que haviam usado para deixá-la tonta.

"Clara se machucou", ela murmurou. "Eu vi ela cair."

"Eu estou bem, mamãe." Minha barriga doía, mas eu me agarrei à blusa dela. "Você está aqui."

Ela fechou os olhos e encostou a boca no meu cabelo.

"Eu ouvi você me chamando", confessou. "Quando acordei no escuro, ouvi sua voz. Achei que estava sonhando."

Uma ambulância nos levou ao hospital de Campinas. No caminho, dois investigadores da Polícia Civil fizeram perguntas. Meu pai respondia tudo: a loja, o espelho, Bianca, o beco, a carroça.

Eu respondi apenas o necessário.

"Por que você achou que sua mãe estava em perigo?" perguntou a investigadora Helena Prado, de voz calma.

Olhei para meu pai e para minha mãe.

"Eu tive um pesadelo", falei. "No sonho, ela entrava no provador e ninguém conseguia achar ela."

Helena não sorriu. Só anotou.

No hospital, meu pai ficou sentado entre as duas camas. Segurava minha mão esquerda e a de minha mãe com a direita, como se soltar uma delas pudesse mudar o que acontecera.

Quando a enfermeira saiu, minha mãe abriu os olhos.

"Eu conhecia a Bianca", ela disse. "Não bem. Mas ela insistiu em me mostrar um vestido que ainda não estava na vitrine."

Meu pai ficou rígido.

"Ela vai responder por isso."

"Não é só ela", falei.

Os dois olharam para mim.

Apontar para o celular era mais seguro do que explicar o impossível.

"Tinha muitos homens. E eles sabiam onde a gente mora."

Meu pai engoliu em seco.

Helena voltou pouco depois com uma expressão fechada. Tinham encontrado mensagens apagadas no telefone do homem da cicatriz e imagens da nossa rua. Também havia fotos de outras mulheres, tiradas sem que elas percebessem.

"Não foi uma oportunidade isolada", ela disse. "É uma rede. A loja era só um ponto de captura."

Minha mãe apertou o lençol.

"Eles vão atrás de outras mulheres?"

"Estamos tentando impedir isso", respondeu Helena. "Mas precisamos descobrir quem coordena o transporte."

Meu pai se levantou.

"Eu quero ver Bianca."

"Não hoje", a investigadora cortou. "Ela está sendo ouvida. E vocês precisam de segurança."

Naquela noite, uma viatura ficou estacionada diante de nossa casa. Meu pai verificou portas e janelas três vezes. Minha mãe recusou-se a dormir sem a luz acesa.

Eu acordei com ela chorando baixinho no corredor.

Encontrei-a sentada no chão da cozinha, abraçada aos joelhos. A pulseira quebrada estava sobre a mesa.

"Mamãe?"

Ela me pegou depressa no colo.

"Desculpa. Eu não queria te acordar."

"Você não fez nada errado", eu disse, repetindo uma frase que ela precisaria ouvir muitas vezes.

Ela chorou em silêncio.

Meu pai apareceu logo depois e se ajoelhou diante de nós.

"Marina, escuta: eles tentaram tirar você da gente. Não conseguiram."

Ela encostou a testa na dele.

Na manhã seguinte, Helena trouxe uma notícia ruim. Um dos homens presos tinha usado outro telefone antes da prisão. Ele enviara um aviso para alguém chamado apenas de

Doutor

.

E uma das imagens recebidas era de uma jovem chamada Luana Farias, dezenove anos, com data e horário para uma sessão de fotos em Vila das Flores.

Era dali a dois dias.

"Eles vão tentar de novo", falei.

Helena me fitou, surpresa.

Meu pai se aproximou da janela, o maxilar travado.

"Então desta vez nós chegamos antes deles."

Naquela mesma tarde, os policiais voltaram à Casa Aurora com peritos. Encontraram resquícios do sedativo no tecido do provador e marcas recentes de rodas no corredor traseiro. A dona da loja insistiu que não sabia de nada, mas câmeras de uma farmácia vizinha mostravam Bianca abrindo a porta dos fundos antes de minha mãe entrar.

Meu pai assistiu ao vídeo sem piscar. Minha mãe, ao lado dele, apertou a pulseira partida.

"Ela estava esperando por mim", disse Marina.

"Não", respondeu meu pai. "Ela estava esperando por alguém. E agora sabemos que não era você a primeira."

Eu entendi, então, que resgatar minha mãe não acabaria com o medo. Só nos dava a chance de impedir que ele chegasse a outras casas.

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