"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 3 — O Corredor Escondido
Capítulo 3 — O Corredor Escondido
Meu pai me colocou no colo e atravessou a porta correndo.
O segundo beco desembocava em uma praça lateral, tomada pelo desfile de carnaval fora de época. Havia músicos, pessoas fantasiadas, turistas filmando tudo e carros alegóricos pequenos sendo empurrados lentamente pela rua.
Ninguém prestava atenção em ninguém.
Era exatamente por isso que eles tinham escolhido aquele dia.
As flores de cerâmica terminavam perto de uma carroça coberta por lona preta. Um pedaço de tecido azul escapava por baixo dela.
O vestido da minha mãe.
Três homens de roupas cinzentas andavam junto da carroça, fingindo fazer parte da equipe do desfile. Um empurrava. Os outros dois caminhavam ao lado, bloqueando a visão.
"Ali!" Apontei. "Papai, é ela!"
Ele olhou para a lona e seu rosto endureceu.
"Fique aqui perto do muro."
"Não." Agarrei o pescoço dele. "Não me deixa."
Por um segundo, a dor passou pelos olhos dele. Talvez porque meu medo fosse grande demais para uma menina de cinco anos.
"Eu volto em um minuto", ele prometeu.
Na outra vida, ele também tinha prometido voltar.
Mas naquela vida eu não era mais apenas uma criança perdida.
Meu pai seguiu os homens, abrindo caminho entre pessoas que dançavam e riam sem perceber que alguém estava sendo levado sob uma lona a poucos metros delas.
Eu fiquei junto ao muro por dois segundos.
No terceiro, ouvi o homem da cicatriz dizer: "A van está esperando. Se eles chegarem à rodovia, ninguém acha mais."
O sangue sumiu do meu rosto.
Na vida que eu conhecera, minha mãe desaparecera antes de a polícia entender que havia crime. Meu pai perdera anos buscando placas, estradas e boatos. Não podia deixar que aquela carroça virasse outra van, outra estrada, outra década.
Baixei os olhos para o relógio no meu pulso. Era rosa, com um pato amarelo no mostrador. Minha mãe o comprara para que eu pudesse chamá-la se me perdesse numa loja.
Desta vez, era ela quem estava perdida.
Quando ele me colocou no chão e avançou pela multidão, eu apertei o botão de emergência do meu reloginho.
"Polícia, qual é a emergência?" perguntou uma voz distante.
Eu corri atrás dele, escondendo o relógio junto ao peito.
"Minha mãe foi levada", falei ofegante. "Tem uma carroça preta. Perto da praça do coreto, em Vila das Flores."
"Querida, você está com algum adulto?"
"Meu pai está seguindo os homens. Eles vão machucar ele."
O desfile ficou para trás quando os três homens entraram em outro beco. Meu pai os alcançou primeiro.
"Parem essa carroça!" ele gritou. "Minha esposa está aí!"
Um dos homens se virou. Era grande, com uma cicatriz perto da boca.
"Está maluco, doutor? Isso é material de cenário."
Meu pai puxou a lona.
Dois homens o agarraram antes que ele conseguisse levantá-la.
Ele caiu de joelhos. Bateu a testa na parede. Sangue escorreu perto de sua sobrancelha.
"Rafael!" Gritei, esquecendo de sussurrar para a ligação.
O homem da cicatriz olhou para mim.
"A filha dele?"
Meu pai tentou se soltar.
"Não encostem nela!"
O homem que empurrava a carroça se aproximou. A lona se moveu de leve.
Minha mãe estava viva.
Eu me joguei contra a perna dele e mordi com toda a força.
Ele berrou, me chutou no abdômen e eu fui parar contra a parede.
Por alguns instantes, o mundo ficou torto. Um gosto de ferro encheu minha boca.
Meu pai gritou meu nome de um jeito que eu nunca tinha ouvido. Não era só medo. Era desespero, como se toda a dor de vinte anos estivesse tentando voltar para ele de uma vez.
"Olha para mim! Clara, fica comigo!"
Eu quis responder, mas vi a lona se mexer outra vez.
Uma mão saiu debaixo dela, procurando ar.
No pulso, a metade quebrada da pulseira de jasmim ainda brilhava.
"Mamãe", eu disse, quase sem voz. "Eu estou aqui."
Ela não podia me ouvir. Ou talvez pudesse. Os dedos dela se fecharam uma vez, devagar, como se tentassem alcançar a minha voz.
O relógio escapou do meu pulso e caiu no chão.
"Alô? Alô?" A voz da atendente ainda saía do aparelho.
O homem ergueu o pé para esmagá-lo.
"Vila das Flores", eu consegui gritar. "Praça do coreto!"
O relógio se partiu sob o sapato dele.
Minha barriga doía tanto que eu mal respirava. Vi meu pai lutando no chão, o rosto coberto de sangue, enquanto o homem da cicatriz puxava um pano com cheiro forte do bolso.
"Essa menina é esperta demais", ele disse. "Levem os dois."
O pano veio em direção ao meu rosto.
Eu fechei os olhos.
Então ouvi uma sirene.
Uma.
Depois outra.
"Polícia! Ninguém se mexe!"
O homem da cicatriz tentou correr. Dois agentes surgiram da entrada do beco e o derrubaram antes que ele chegasse à esquina. Outro homem tentou pular o muro, mas um segurança municipal o alcançou.
Meu pai foi solto.
Ele não correu para os policiais.
Correu para mim.
"Clara. Olha para o papai."
Seu rosto apareceu sobre o meu, tremendo. Ele me pegou com tanto cuidado que comecei a chorar de verdade.
"Eu estou aqui", ele repetia. "Eu estou aqui."
Uma policial abriu a lona da carroça.
Minha mãe estava deitada sobre caixas de madeira. Seus pulsos estavam amarrados. Havia fita sobre sua boca. Ela tinha o rosto pálido, mas seus olhos abriram quando a policial a chamou.
"Senhora, somos da polícia. A senhora está segura agora."
Minha mãe olhou para meu pai.
Depois para mim.
"Clara..."
Meu pai se ajoelhou ao lado dela, ainda me segurando.
"Marina, eu te encontrei."
Quando tiraram a fita de sua boca, ela não perguntou o que tinha acontecido. Só estendeu a mão para nós dois.
Nós nos apertamos no chão frio daquele beco: meu pai sangrando, minha mãe tremendo, eu chorando entre os dois.
Mas ela estava ali.
Ela não tinha sido levada para longe.
Por alguns segundos, achei que tínhamos vencido.
Então uma policial entregou ao meu pai o celular apreendido de um dos homens.
Na tela havia uma fotografia tirada de longe.
Era nossa casa em Campinas.
E, abaixo dela, uma mensagem recém-enviada:
A família inteira foi identificada. Não deixem testemunhas.
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