"Seu Abraço Era Frio Como o Mar" Capítulo 1 — A Vida Que Eu Não Aceitaria de Novo
Capítulo 1 — A Vida Que Eu Não Aceitaria de Novo
No meu último dia, a luz da sala de cirurgia era branca demais.
Tão branca que apagava os rostos das enfermeiras, o sangue nos lençóis e até o medo que eu tentava esconder. Meu corpo já não parecia meu. Cada contração vinha como uma onda escura, puxando-me para baixo.
Do lado de fora, alguém falou alto demais.
"Ela está com hemorragia. Precisamos da assinatura do marido agora."
"Já ligamos muitas vezes. Ele não atende."
Eu fechei os olhos.
Não atendia porque, naquela mesma tarde, Isadora Oliveira tinha mandado uma mensagem para ele.
"Você ainda tem coragem de correr na pista velha de Jaraguá? Ou casamento transformou Henrique Vasconcelos num homem comportado?"
Depois veio outra mensagem, cheia de risadas.
"Aposto que você não aparece."
Henrique nem olhou para mim quando pegou a chave do carro.
Eu estava na sala, com a barriga pesada e uma dor estranha apertando minha lombar.
"Henrique", eu chamei. "Acho que está começando."
Ele se abaixou para calçar o tênis, impaciente.
"Seu parto é só na semana que vem, Elisa. Não entra em pânico por qualquer coisa. Eu volto logo."
E saiu.
Três anos de casamento cabiam perfeitamente naquela porta fechada.
Ele voltava para jantar, elogiava a comida, segurava minha mão diante dos amigos. Mas, quando ficávamos sozinhos, parecia sempre haver uma distância calculada entre nós. Henrique dormia no escritório. Nunca perguntava sobre meus exames. Nunca percebia quando eu ficava quieta demais.
Eu tinha confundido ausência de crueldade com amor.
Até aquele dia.
O monitor ao meu lado começou a apitar mais rápido. Uma enfermeira apertou minha mão, tentando me manter acordada.
Então o telefone tocou.
Uma residente colocou o aparelho perto do meu rosto.
"Senhor Vasconcelos, sua esposa está em estado grave. Precisamos que o senhor..."
Ela não conseguiu terminar.
Do outro lado, Henrique riu, ofegante e feliz.
"Elisa, você não vai acreditar. Eu ganhei. A Isadora ficou sem fala quando me viu completar a volta."
Minha visão escureceu pelas bordas.
Ele tinha vencido uma corrida.
Eu estava perdendo a vida.
Mexi os lábios uma última vez.
"Na próxima vida... eu não caso com você."
O som contínuo do monitor engoliu todo o resto.
...
"Elisa?"
Abri os olhos de repente.
Não havia cheiro de antisséptico. Não havia dor, nem vozes apressadas, nem uma máscara sobre meu rosto.
Havia sol atravessando as cortinas da sala da casa dos meus pais, no bairro de Alto de Pinheiros. Sobre a mesa de centro, minha mãe tinha colocado uma bandeja com café, pão de queijo e fatias de bolo de fubá. Meu pai estava sentado numa poltrona. Na frente dele, os Vasconcelos sorriam como se aquela tarde fosse uma festa.
E Henrique estava ali.
Mais jovem. Mais inteiro. A camisa azul clara sem uma ruga. O relógio caro no pulso. A mesma expressão segura de quem nunca tinha ouvido um não na vida.
Meu coração parou por um segundo.
Depois disparou.
"Então", disse dona Sônia Vasconcelos, com uma delicadeza estudada, "o Henrique conversou conosco. Ele acredita que se entende melhor com a Elisa. Como as famílias sempre foram próximas, pensamos em ajustar aquele compromisso antigo."
Minha mãe olhou para mim, emocionada.
Meu pai endireitou as costas.
Isadora, largada no sofá com as pernas cruzadas, não tirou os olhos do celular. Ela tinha acabado de fazer vinte e seis anos e parecia nascer todos os dias como se o mundo fosse uma plateia pronta para aplaudi-la.
Henrique sorriu para mim.
Na outra vida, eu tinha baixado a cabeça. Tinha sentido o rosto queimar de alegria. Achei que ele me escolhera porque via alguma coisa especial em mim.
Mas não era escolha.
Era castigo.
Isadora o ignorara numa festa. Henrique, ferido no orgulho, tinha decidido que casar comigo seria uma forma elegante de provar que não precisava dela.
E eu aceitei ser a segunda opção de um homem que passaria anos olhando para a primeira.
"Elisa?" Minha mãe chamou outra vez. "O que você acha?"
Olhei para Henrique.
No futuro, ele não tinha aparecido quando eu precisei dele. Naquele presente, porém, ele ainda esperava que eu fosse grata.
Minha voz saiu baixa, mas firme.
"Não quero."
O silêncio caiu sobre a sala.
Nem Isadora conseguiu fingir que não tinha ouvido.
Henrique foi o primeiro a se mover. Seu sorriso desapareceu sem pressa, como se alguém tivesse apagado uma luz atrás dele.
"Como é?"
"Eu disse que não quero esse compromisso." Mantive as mãos unidas no colo para que ninguém visse meus dedos tremendo. "Não quero me casar com você."
Minha mãe quase deixou a xícara cair.
"Elisa, querida, talvez você esteja nervosa..."
"Não estou nervosa."
Meu pai me lançou um olhar duro. Era o tipo de olhar que, desde criança, me fazia pedir desculpas antes mesmo de entender o que tinha feito de errado.
Dessa vez, não pedi.
Henrique se inclinou para frente.
"Nós mal conversamos. Você vai recusar assim, na frente de todo mundo?"
"Sim."
Ele ficou vermelho nas orelhas.
Isadora soltou uma risadinha e finalmente ergueu os olhos do celular.
"Talvez a minha irmã só tenha bom gosto", ela comentou.
"Isadora", minha mãe repreendeu, mas sem convicção.
Henrique lançou para ela um olhar rápido, cheio de irritação. Foi rápido demais para qualquer outra pessoa notar.
Eu notei.
Sempre tinha notado.
Dona Sônia tentou salvar a situação.
"Não precisamos decidir nada hoje. Os jovens podem sair, conversar, conhecer melhor um ao outro."
"Não vejo necessidade", falei.
Henrique se levantou de uma vez.
"Se ela acha que isso é uma brincadeira, problema dela."
"Não é brincadeira", respondi. "É a minha vida."
Ele me encarou. Pela primeira vez, não havia charme em seu rosto, só incredulidade.
Depois pegou as chaves do carro sobre a mesa lateral.
"Vamos embora, mãe."
Quando a porta se fechou atrás dos Vasconcelos, o ar pareceu voltar à sala de uma vez.
Minha mãe foi a primeira a explodir.
"Você perdeu o juízo? Você sabe o que acabou de fazer?"
"Sei."
"A família Vasconcelos é uma das melhores conexões que esta casa pode ter. Henrique é educado, bem-sucedido, vem de uma família excelente..."
"Ele não é para mim."
"E o que você sabe sobre isso?" meu pai perguntou, a voz baixa. Essa voz sempre era pior do que um grito. "Você pretende jogar fora uma oportunidade dessas porque acordou de mau humor?"
Eu queria dizer que sabia como era morrer abandonada por ele.
Queria dizer que sabia que um marido pode sorrir em fotos e ainda assim deixar uma mulher sangrando sozinha.
Mas ninguém acreditaria.
Então apenas me levantei.
"Não vou discutir isso."
"Você vai, sim", minha mãe disse. "Enquanto morar nesta casa..."
"Enquanto eu morar nesta casa, eu ainda sou uma pessoa." Minha garganta fechou, mas não deixei a voz falhar. "E uma pessoa pode dizer não."
Subi as escadas antes que ela respondesse.
No corredor, ouvi Isadora atrás de mim.
"Elisa."
Parei, mas não me virei.
"Você está estranha hoje." Havia curiosidade verdadeira na voz dela. "Você sempre quis que alguém escolhesse você."
Aquilo doeu mais do que deveria.
Porque era verdade.
Eu sempre quis ser escolhida. Por meus pais. Por Henrique. Até por Isadora, que recebia tudo com tanta facilidade que nem percebia o que deixava cair pelo caminho.
"Eu não quero mais ser escolhida por alguém", respondi. "Quero escolher por mim."
Entrei no quarto e fechei a porta.
Meu quarto de antes era pequeno, voltado para o fundo do terreno, onde a luz chegava fraca. A cama tinha a mesma colcha bege. A estante ainda guardava livros da faculdade. Na parede, uma foto antiga mostrava Isadora no centro, sorrindo, enquanto eu aparecia quase escondida atrás dela.
Fiquei olhando para aquela menina por muito tempo.
Depois fui até a penteadeira, abri a gaveta e peguei uma tesoura.
Meu cabelo descia até a cintura. Na outra vida, Henrique uma vez comentou que gostava dele comprido. Eu mantivera aquele cabelo por três anos, como se pudesse me tornar desejável obedecendo a uma frase solta.
Segurei uma mecha.
O primeiro corte fez um som seco.
Depois veio outro.
Quando terminei, o cabelo tocava meus ombros. Meu rosto parecia diferente no espelho: mais exposto, mais assustado, mas também mais meu.
"Prazer, Elisa Oliveira", sussurrei para o reflexo.
Lá embaixo, meus pais ainda discutiam.
Pela primeira vez, eu não desci para tornar tudo mais fácil para eles.
Naquela noite, dormi sem esperar uma mensagem de Henrique.
E, pela primeira vez em muito tempo, não sonhei com a sala de cirurgia.
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