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"A Rádio Que Me Devolveu Minha Mãe" Capítulo 9 — O Ursinho na Vitrine

正文开头

Capítulo 9 — O Ursinho na Vitrine

Helena não permitiu que Clara entrasse na sala secreta.

Mesmo assim, ninguém conseguiu impedir que ela visse o ursinho quando um agente o trouxe em um saco transparente.

Era pequeno, bege, com uma orelha costurada por linha vermelha. Seu nome era Tito. Clara dormia com ele desde os três anos. Na semana anterior, ela o deixara sobre a cama.

"Como ele foi parar lá?" Rafael perguntou, a voz baixa e perigosa.

Clara sentiu as pernas bambas. Augusto estivera em sua casa, ou alguém estivera. A ideia tornou o ar da viatura muito apertado.

Helena se abaixou à altura dela. "Você está segura agora. Vamos revisar as câmeras da rua, falar com os vizinhos e colocar proteção na casa."

"Não foi para me levar", Clara disse.

"Como sabe?"

Ela olhou para Tito. "Ele quer que eu ache que pode."

Marina se virou para a vitrine da Casa Aurora, tentando esconder o choro. Rafael a segurou pelos ombros. Pela primeira vez desde a fazenda, ela não se afastou.

Na delegacia, uma técnica encontrou algo dentro da orelha remendada do ursinho: um cartão de memória embrulhado em plástico. O arquivo de vídeo mostrava um corredor de azulejos e, no fim, Augusto Brandão sentado diante de uma mesa.

Ele não olhava para a câmera. Falava com alguém fora do enquadramento.

"Famílias desesperadas assinam qualquer papel. A criança é só a chave. A mãe é a mercadoria mais fácil de controlar."

O vídeo parava antes de mostrar o rosto da outra pessoa.

"Isso prova a voz, não o crime inteiro", Helena explicou. "Mas vai ajudar a derrubar a imagem de empresário respeitável que ele está vendendo."

"Ele vai aparecer", Clara disse.

"Por que acha isso?"

"Porque ele deixou Tito onde a polícia ia encontrar. Ele queria que a gente escutasse. E queria que eu ficasse com medo." Clara cruzou os braços. "Ele ainda não sabe que eu fico mais brava que assustada."

Rafael quase sorriu, mas os olhos continuavam molhados.

Helena colocou o vídeo em pausa num reflexo de metal atrás de Augusto. Era pouco mais que uma faixa prateada, mas a técnica ampliou a imagem até revelar parte de uma placa na parede: ‘A. Brandão — Diretoria’. A sala ficava no escritório da transportadora, no segundo andar.

"Com o caderno da Dona Cida e isso, posso pedir busca lá também", Helena disse. "Só que ele terá alguém observando a polícia."

"Então ele vai tirar os papéis de lá", Rafael concluiu.

"Ou vai tentar recuperar o que acha que nós temos." Helena olhou para Tito. "O ursinho foi uma mensagem e uma confirmação. Ele sabe que a família não recuou."

Clara apertou o brinquedo contra o peito. "Ele também sabe que eu reconheço as portas."

Marina tomou o ursinho das mãos dela apenas para costurar de novo a orelha aberta. Não escondia as lágrimas, mas seus pontos eram seguros e retos. Quando devolveu Tito, a linha vermelha parecia mais forte do que antes.

正文1

Naquela noite, a casa dos Almeida recebeu dois policiais na calçada. Helena instalou uma câmera no portão e pediu que ninguém abrisse a porta, mesmo para conhecidos. Marina levou Clara para o quarto e começou a arrumar uma mochila.

"Vamos passar uns dias na casa da sua tia", anunciou.

"Não quero ir."

"Clara..."

"Se a gente sai correndo, ele escolhe a próxima criança. A Luana ainda tem medo de dormir. E a Joana pode estar escondida em algum lugar." Clara engoliu o choro. "Eu também tenho medo. Só não quero que ele use isso como coleira."

Marina sentou na cama. "Eu passei vinte anos imaginando o que faria se tivesse uma segunda chance de proteger você." Ela tocou a franja da filha. "Eu queria que fosse fácil. Que bastasse te esconder."

"Mas não basta?"

"Não. Porque você não é uma coisa para eu esconder. Você é minha filha." Marina respirou fundo. "E sua coragem não significa que você precise carregar isso sozinha."

Na manhã seguinte, Dona Cida foi encontrada em uma pensão na estrada para Campinas. Ela tinha setenta anos, mãos firmes e uma sacola cheia de papéis guardados havia anos.

"Eu sabia que um dia alguém viria", ela disse a Helena. "Mas não pensei que seria uma menina que fez o homem grande tremer."

O caderno preto estava dentro de uma capa de Bíblia. Trazia pagamentos, nomes de intermediários e códigos de entrega. Ao lado de alguns nomes, havia notas pessoais de Augusto: dívidas, brigas de família, doenças, segredos que ele explorava.

Rafael leu uma página e empalideceu.

"Ele sabia que Marina havia recusado trabalhar para a rede dele."

Marina pegou o caderno. Em uma linha datada de meses antes do desaparecimento que Clara lembrava do futuro, estava escrito: ‘M. Almeida: orgulho alto. Usar marido ausente em viagem. Criança será distração.’

Ela fechou o livro de uma vez.

"Ele planejou tudo por anos."

"E falhou", Clara disse.

Helena recebeu uma mensagem no celular e pediu silêncio. Era uma foto enviada de número desconhecido. Mostrava a fachada da Casa Aurora naquela mesma tarde. Sobre a porta, alguém tinha pendurado um vestido azul-claro — o vestido que Marina usava na foto da postagem anônima.

Embaixo, uma legenda: ‘Tragam o caderno. Sozinhos. Às dezenove.’

Rafael falou primeiro. "Não vamos."

"Vamos", Marina respondeu.

Ele se voltou para ela, assustado. "Marina, não."

"Não sozinhos. Não do jeito que ele quer."

Clara olhou para Helena. A investigadora já examinava a foto, ampliando a vitrine.

"Ele deixou a luz do estoque acesa", Clara apontou. "Augusto acha que conhece a loja. Mas ele não sabe que agora a gente conhece também."

Helena encarou a menina por um longo instante.

"Ninguém vai usar Clara como isca", ela disse, firme. "Mas podemos usar a certeza dele de que controla todos os movimentos."

Rafael puxou uma cadeira para perto da mesa. Marina colocou o caderno preto no centro. Os quatro se reuniram ao redor dele, e pela primeira vez Clara não se sentiu uma criança que precisava convencer adultos a acreditar.

Ela era parte do plano.

Às seis e cinquenta, enquanto a cidade acendia as luzes da noite, Marina vestiu uma jaqueta escura. Rafael conferiu o ponto eletrônico que Helena prendera sob a gola dele. Do lado de fora, viaturas sem identificação se espalharam pelas ruas laterais.

Clara ficou na sala de monitoramento improvisada da delegacia, com uma agente e a tela do celular de Helena diante dela.

Antes de sair, Marina beijou a testa da filha.

"Nós vamos voltar."

Clara segurou a metade da pulseira de jasmim na mão.

"Voltem juntos", pediu.

Na imagem tremida da câmera, Marina e Rafael atravessaram a rua em direção à Casa Aurora. A porta da loja estava entreaberta. O vestido azul os esperava na vitrine, balançando sem vento.

Então uma voz masculina saiu do escuro, nítida pelo ponto eletrônico.

"Entrem. Eu trouxe a criança que vocês perderam."

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