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"A Rádio Que Me Devolveu Minha Mãe" Capítulo 6 — Antes da Estrada Escurecer

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Capítulo 6 — Antes da Estrada Escurecer

Luana desaparecera menos de três horas antes.

Essa diferença parecia pequena nos relatórios. Para mim, parecia uma porta se fechando.

Helena conseguiu imagens de uma câmera de posto de gasolina: uma van branca seguindo para o interior. No vidro traseiro havia uma faixa de fita cinza, igual à que meu pai encontrara perto da saída escondida da Casa Aurora.

"Ela está viva", minha mãe disse, com firmeza. "Eles não gastariam tempo apagando rastros se não pretendessem levá-la adiante."

Meu pai traçou a rota sobre um mapa.

"A Estrada Municipal 14 é ruim. Se a van for para Santa Luzia, vai precisar diminuir aqui, perto da ponte velha."

Helena olhou para ele.

"Podemos montar uma barreira discreta, mas não podemos agir sem confirmar o veículo."

"Então confirmem", ele respondeu. "Eu vi o corredor. Eu sei onde procurar o resto da rota."

Minha mãe pediu para falar a sós com a investigadora. Quando voltou, seus olhos estavam molhados, porém determinados.

"Há uma mulher dentro dessa van que pode estar me ouvindo do mesmo jeito que eu ouvi a Clara", ela disse. "Eu preciso acreditar que alguém vai chegar a tempo."

Os agentes partiram antes do anoitecer. Meu pai não foi autorizado a acompanhá-los, mas ficou na delegacia com minha mãe, analisando vídeos e registros de pedágio.

Eu deveria estar em casa com meus avós. Em vez disso, sentei entre meus pais numa cadeira grande demais, abraçada ao meu ursinho.

Uma ligação chegou às oito e vinte.

"Localizamos a van", disse uma voz no viva-voz. "Está desviando da ponte."

Meu pai apontou para o mapa.

"Se desviou, vai usar a estrada de terra atrás do silo. Ela leva a Santa Luzia por uma entrada escondida."

Helena transmitiu a informação para as equipes.

Por alguns minutos, ninguém falou.

Depois veio outra chamada, mais curta.

"A van foi abandonada. Não há ninguém dentro."

Minha mãe levou a mão à boca.

No banco traseiro, os policiais encontraram uma presilha vermelha e uma fotografia instantânea de Luana, desacordada.

No verso, havia uma frase escrita à caneta:

A fazenda não está vazia.

Helena pediu reforços e preparou o pedido de busca urgente. As mensagens dos celulares apreendidos, a etiqueta da carga, a van e a foto formavam uma linha forte demais para ignorar.

Meu pai colocou a mão sobre o mapa.

"Há um galpão ao norte da casa principal. As paredes são grossas. Quem está lá dentro não vai ouvir os carros chegando."

Minha mãe o fitou.

"Você vai tentar ir com eles?"

Ele não respondeu de imediato.

Eu soube que queria. Vi o mesmo impulso que o teria levado sozinho para qualquer estrada na outra vida.

Então minha mãe segurou o rosto dele.

"Não me deixe encontrar você no escuro também."

Ele fechou os olhos e encostou a testa na dela.

"Eu fico. Mas vou dar tudo o que puder para eles chegarem até lá."

Pela primeira vez, entendi que salvar alguém não significava correr sem pensar. Às vezes significava confiar no plano, mesmo quando o medo implorava para que você fugisse dele.

Às onze e quarenta, Helena voltou para a sala com uma ordem judicial assinada.

"Vamos entrar ao amanhecer", ela disse.

Meu pai levantou de uma vez.

"Luana pode não ter até o amanhecer."

Antes que Helena respondesse, o celular de minha mãe vibrou.

Era um áudio enviado de um número desconhecido.

Ela apertou o play.

Houve chiado. Depois, uma respiração masculina.

"Você fugiu uma vez, Marina."

Minha mãe ficou imóvel.

"Mas não vai fugir da segunda."

O áudio terminou.

Na tela apareceu uma única fotografia.

Era a entrada da Fazenda Santa Luzia.

E, presa ao portão enferrujado, estava a metade que faltava da pulseira de jasmim de minha mãe.

Minha mãe tocou a tela com a ponta dos dedos.

"Eles querem que eu vá", ela disse.

"Eles querem que a gente erre", respondeu Helena. "Vão usar a sua dor para nos fazer entrar sem apoio."

Meu pai recolheu os mapas e separou as cópias das plantas antigas da fazenda.

"Então não vamos entrar do jeito que eles esperam."

Do lado de fora, a noite começou a clarear devagar. No rádio da viatura estacionada na rua, uma frequência falhou por um segundo.

Eu prendi a respiração.

Mas não era a voz da minha mãe.

Era apenas chiado.

E, ainda assim, ele parecia dizer que alguém estava esperando numa casa sem luz, tentando acreditar que seria encontrada antes do amanhecer.

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