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"A Rádio Que Me Devolveu Minha Mãe" Capítulo 5 — A Lista das Mulheres

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Capítulo 5 — A Lista das Mulheres

Meu pai não conseguiu voltar à universidade.

Quando o telefone tocava, ele atendia no primeiro toque. Quando alguém passava devagar pela rua, ele puxava a cortina. Mas, em vez de se fechar dentro de casa, passou horas à mesa com plantas antigas de Vila das Flores, tentando desenhar todos os acessos da Casa Aurora.

"O corredor escondido não foi feito de uma hora para outra", ele disse a Helena. "A construção é antiga. Devem existir outras saídas. Depósitos. Passagens para prédios vizinhos."

Minha mãe colocou uma xícara de café diante dele.

"Você não precisa fazer isso sozinho."

Ele levantou os olhos.

"Eu quase perdi você."

"Mas não perdeu." Ela tocou a mão dele. "E eu não vou fingir que não aconteceu. Quero ajudar a impedir que aconteça com outra pessoa."

Era a primeira vez que eu via minha mãe dizer aquilo sem tremer.

Na delegacia, Bianca finalmente falou.

Não contou tudo. Chorou, disse que só trabalhava na loja, que não sabia para onde levavam as mulheres. Mas o celular dela tinha conversas demais para sustentar aquela mentira.

Ela conhecia meu pai da universidade. Sabia o nome de minha mãe. Sabia onde eu estudava.

"Ela selecionava vítimas", explicou Helena. "E avisava quando havia uma família que demoraria a perceber o sumiço."

Meu pai apertou os punhos.

"Por quê?"

Helena colocou diante dele uma impressão de mensagens.

Bianca escrevera:

Ele fala de casas como se amor bastasse para proteger alguém. Quero que ele veja uma casa vazia.

Meu pai leu sem dizer nada.

Minha mãe foi quem respondeu.

"Isso não é inveja. É escolha."

Na tarde seguinte, Helena trouxe a lista encontrada no computador da loja: quatro mulheres marcadas com horários, rotas e referências de roupa. Luana era uma delas.

Outra se chamava Camila Nunes e trabalhava em uma floricultura. A terceira era mãe solo e voltava do turno da noite por ônibus. A quarta não tinha nome, apenas a descrição:

vestido amarelo, chega sozinha

.

Minha mãe ficou branca ao ver aquilo.

"Não podemos esperar a próxima tentativa."

Helena concordou. A polícia colocou vigilância perto de Luana e das outras mulheres identificadas. Mas, no fim do dia, uma das câmeras de rua mostrou dois carros suspeitos deixando Vila das Flores mais cedo que o previsto.

"Eles mudaram o plano", disse Helena.

Meu coração bateu depressa.

Eu lembrava de palavras do rádio, de um lugar sem nome, de um homem velho, de uma estrada de terra. Lembrava também de minha mãe gritando durante o sono na vida que não existia mais.

"Eles usam fazenda", falei.

Meu pai se virou para mim.

"O quê?"

Minha mãe levou a mão ao pescoço.

"Quando eu acordei dentro da carroça... antes de desmaiar de novo... ouvi um homem dizendo que a entrega iria para Santa Luzia. Achei que era uma rua."

Helena anotou o nome.

"Fazenda Santa Luzia", eu disse, sem conseguir esconder o pavor.

正文1

O silêncio tomou a sala.

Minha mãe olhou para mim como se eu tivesse acendido uma luz em um quarto escuro.

Helena fez buscas rápidas e encontrou uma antiga propriedade rural com esse nome, a algumas horas dali. Oficialmente, estava abandonada. Mas os registros indicavam frequentes compras de combustível e mantimentos.

"Não é prova suficiente para uma operação", ela avisou. "Ainda precisamos ligar o local aos presos."

Meu pai apontou para as plantas que havia levado.

"Um dos corredores laterais sai perto da antiga garagem do prédio. Há marcas de pneus e caixas de transporte. Talvez tenham usado uma empresa de entregas."

Helena encarou as folhas.

"Se encontrarmos a rota, conseguimos pedir mandados e montar vigilância."

Minha mãe respirou fundo.

"Eu vou com vocês à loja."

Meu pai negou na mesma hora.

"Não. Você acabou de sair de um hospital."

"E eu reconheço detalhes que ninguém mais reconhece." Ela ergueu o pulso com a pulseira remendada provisoriamente. "Eu não vou deixar que eles transformem o meu medo em silêncio."

Não era uma discussão fácil. Meu pai queria protegê-la. Minha mãe queria recuperar a própria voz.

No fim, eles foram juntos.

Eu fiquei com meus avós, mas ouvi tudo quando Helena ligou no viva-voz: minha mãe descrevendo o perfume forte do pano, a marca de uma caixa no depósito, o som de um portão de metal abrindo atrás da loja.

Depois, uma pausa longa.

"Encontrei algo", disse ela.

Era uma etiqueta de carga com o nome de uma transportadora e um destino rasurado.

Rafael conseguiu ler o que restava sob a tinta.

Estrada Municipal 14 — Santa Luzia.

Na mesma hora, um agente entrou na sala de Helena com uma fotografia impressa.

Luana Farias não aparecera na sessão de fotos.

Sua mãe dissera que ela tinha saído de casa usando uma blusa vermelha.

E ninguém conseguia mais falar com ela.

Naquela noite, a mãe de Luana chegou à delegacia com a mochila da filha. Dentro havia um cartão de memória e um bilhete:

Se eu atrasar, me liga. Não vou voltar sozinha.

As fotos mostravam Luana sendo observada por um homem perto de uma praça. Era o mesmo homem que ajudara a empurrar a carroça.

Helena fechou os olhos por um instante.

"Eles sabiam que estávamos protegendo os nomes da lista", ela disse. "Escolheram alguém antes que chegássemos."

Minha mãe não chorou. Sentou-se diante da mãe de Luana e segurou sua mão.

"Nós vamos trazer sua filha de volta", prometeu. "Eu sei que ainda dá tempo."

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