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"A Rádio Que Me Devolveu Minha Mãe" Capítulo 2 — A Flor Branca no Chão

正文开头

Capítulo 2 — A Flor Branca no Chão

Bianca continuava entre nós e o corredor de provadores.

"O senhor está tirando conclusões precipitadas", ela disse. "A flor pode ter caído antes."

Meu pai a encarou.

"A pulseira dela nunca cai. Eu mesmo fiz o fecho."

Outras duas funcionárias se aproximaram. Uma delas lançou um olhar incômodo para a mão dele fechada e para mim, chorando em seu colo.

"Senhor, há mulheres se trocando", disse ela. "Por favor, espere a sua esposa sair."

Era isso que tinham dito na outra vida. Esperar. Ser educado. Não causar confusão.

Enquanto todos esperavam, minha mãe tinha sido arrancada do mundo.

Desci do colo dele e sentei no chão com força.

"Socorro!" Minha voz cortou a música da loja. "Minha mãe desmaiou! Ela não fala comigo!"

As pessoas se voltaram.

"Ela me mandou uma mensagem", inventei, sentindo culpa e medo ao mesmo tempo. "Ela disse que está passando mal!"

Uma senhora perto da arara de vestidos levou a mão à boca.

"Se alguém desmaiou, vocês têm de abrir o provador", ela disse.

Outra mulher concordou:

"Chamem uma ambulância, então."

Meu pai entendeu o que eu estava fazendo. Pegou o celular e o mostrou às funcionárias.

"Se minha esposa estiver em risco e vocês impedirem o acesso, eu vou registrar isso agora. Abram caminho."

Bianca perdeu o sorriso por meio segundo.

Foi pouco. Mas eu vi.

"Tudo bem", ela respondeu. "Eu mesma vou verificar."

"Não." Eu agarrei a mão do meu pai. "Ela não pode ir sozinha."

Meu pai não pediu permissão outra vez.

Entramos no corredor.

Havia quatro portas de madeira pintadas de branco. Das três primeiras saíram clientes assustadas, com roupas penduradas nos ombros e cabides nas mãos.

"O que aconteceu?"

"Uma criança disse que alguém passou mal."

Só a última porta permanecia fechada.

Corri até ela e bati com as duas mãos.

"Mamãe! Sou eu! Abre a porta!"

Nenhuma resposta.

Meu pai tentou a maçaneta.

Trancada.

"Marina!" Ele bateu uma vez. "Amor, fala comigo."

Silêncio.

Bianca se aproximou por trás dele.

"Talvez ela tenha saído pela porta lateral. Às vezes as clientes usam o banheiro nos fundos."

Meu pai olhou para ela.

"Você acabou de dizer que ela estava nesse provador."

Bianca abriu a boca, mas não respondeu.

Ele me puxou para trás.

"Fica perto da parede, Clara."

Então chutou a porta.

Na primeira vez, a madeira rachou.

Na segunda, a tranca cedeu.

Na terceira, a porta abriu de uma vez e bateu na parede.

O provador estava vazio.

No chão havia apenas o vestido azul que minha mãe queria experimentar.

Meu pai ficou parado na entrada, como se seu cérebro se recusasse a aceitar o que via.

"Não", eu falei.

Não era possível. Eu tinha voltado. Eu tinha avisado. Não podia falhar de novo.

Bianca cruzou os braços.

"Está vendo? Talvez sua esposa tenha ido embora."

"Sem bolsa? Sem celular?" Meu pai se virou, a voz baixa e perigosa. "E sem responder à filha?"

正文1

Eu me abaixei. Algo brilhava embaixo de uma prateleira estreita.

Enfiei o braço no vão e puxei uma metade de cordão com duas flores de cerâmica quebradas.

"Papai."

Ele se ajoelhou diante de mim.

"É dela", eu disse. "Ela estava aqui."

Ele pegou o cordão e passou os dedos por ele. Depois, em vez de olhar para o chão, observou as paredes.

Meu pai era professor de arquitetura. Ele enxergava espaços onde todo mundo via apenas tinta e madeira.

Tocou o espelho do fundo.

Depois bateu levemente na parede ao lado.

O som veio oco.

Sua expressão mudou.

"Esta parede não deveria estar aqui."

Uma cliente perguntou o que ele queria dizer.

Meu pai apontou para o espelho.

"O corredor externo tem quase dois metros a mais do que este conjunto de provadores. Existe um vão atrás disso."

Bianca empalideceu.

"O senhor está imaginando coisas."

"Não." Ele se levantou. "Estão usando um compartimento escondido."

Uma das funcionárias correu para a frente da loja, talvez para chamar alguém. Bianca ficou imóvel por um instante e depois baixou os olhos para o celular.

Seus dedos começaram a digitar.

Eu puxei a manga de meu pai.

"Ela está falando com eles."

Ele viu a tela antes que Bianca pudesse escondê-la.

Não dava para ler tudo, mas eu vi as palavras:

Eles descobriram. Saíram pelos fundos.

Meu pai tirou o celular da mão dela.

"Quem saiu pelos fundos?"

Bianca tentou recuperar o aparelho.

"O senhor não tem direito!"

"Minha esposa desapareceu dentro desta loja!"

Aquela frase fez o corredor inteiro se calar.

Meu pai não esperou mais respostas. Pegou minha mão e me levou para fora, atravessando a loja sem olhar para ninguém.

"A fachada termina no beco", ele murmurou. "Se há uma passagem, ela sai atrás do prédio."

Enquanto corríamos, ouvi Bianca gritar atrás de nós que chamaria a polícia por causa do "escândalo".

Meu pai parou só o tempo suficiente para olhar por cima do ombro.

"Chame", respondeu. "E diga que minha esposa desapareceu dentro da sua loja."

Não era uma frase que eu conhecia do meu pai. Rafael sempre tentava explicar antes de acusar. Sempre encontrava uma forma educada de pedir espaço.

Naquele instante, porém, ele parecia ter entendido uma coisa que eu passara a vida inteira tentando entender: pessoas ruins contavam com a educação dos outros.

Na rua lateral, ele ligou para minha mãe uma vez. Depois outra. O telefone continuava tocando sem resposta.

"Papai..." Minha garganta ardia. "Ela está acordada?"

Ele apertou minha mão.

"Não sei. Mas ela deixou a pulseira para nós. Isso quer dizer que ela lutou."

Olhei para a flor branca na palma dele e forcei minhas pernas pequenas a acompanharem as dele.

Eu me lembrava de minha mãe como uma ausência: um retrato na estante, uma voz nas poucas gravações que meu pai não conseguia apagar, o perfume de jasmim que ele nunca mais comprou.

Agora ela era uma mulher viva, assustada, a poucos metros de mim.

Eu não deixaria a memória virar destino.

Corremos pela rua lateral.

O barulho do desfile ficou distante quando dobramos a esquina. O beco era estreito, úmido, com muros altos e caixas vazias empilhadas perto de uma porta de serviço.

Meu pai chutou a porta.

Do outro lado havia um corredor escuro.

No chão, uma flor branca.

Depois outra.

E outra.

Minha mãe tinha acordado.

Ela estava deixando um caminho para nós.

"Ela sabe que estamos vindo", eu sussurrei.

Meu pai pegou uma flor e a fechou na palma da mão.

"Então nós vamos encontrá-la."

No fim do corredor, uma porta balançava aberta para um segundo beco.

Do lado de fora, ouvi o som pesado de rodas passando depressa sobre pedras antigas.

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