"A Empregada Que Destruiu a Cama do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — Quarto 17
Às seis e quatro da manhã, Marina Duarte estava parada diante da porta número 17 de um hotel antigo no centro de São Paulo.
O corredor cheirava a madeira úmida e café velho.
A lâmpada acima de sua cabeça piscava.
Marina apertou a pequena chave encontrada no avental de Rosa Ferreira.
Tudo nela dizia para ir embora.
Mesmo assim, colocou a chave na fechadura.
Girou.
Clique.
A porta abriu.
"Rosa?"
Nenhuma resposta.
Marina entrou.
O quarto parecia abandonado havia anos.
Cortinas fechadas.
Uma cama coberta por um lençol branco.
Uma cômoda antiga.
Uma cadeira.
Nenhuma pessoa.
Marina fechou a porta atrás de si.
"Rosa?"
Silêncio.
Então viu a mala.
Estava debaixo da cama.
Pequena.
Marrom.
Marina puxou.
Não havia cadeado.
Ao abrir, encontrou uma pilha de documentos.
O primeiro trazia o nome:
DANTE VASCONCELOS MONTENEGRO.
Marina sentiu o estômago apertar.
Eram relatórios médicos.
Exames de sangue.
Eletrocardiogramas.
Avaliações neurológicas.
Receitas.
Todos pertenciam a Dante.
"Meu Deus..."
Debaixo dos exames havia plantas arquitetônicas da mansão.
Passagens estavam marcadas em vermelho.
Inclusive o corredor escondido atrás do guarda-roupa.
Rosa sabia.
Marina continuou.
Encontrou fotografias.
Dante entrando no carro.
Dante no escritório.
Dante sentado sozinho na sala.
Dante dormindo no sofá.
Outra fotografia mostrava o quarto principal.
A cabeceira ainda intacta.
No verso havia uma data.
Quatro meses antes.
Marina virou outra.
Dante dormindo na cama.
Mais antiga.
Cinco meses antes.
Ela comparou as duas.
Antes dos dispositivos, Dante dormia normalmente naquele quarto.
Depois deles, abandonara a cama.
"Rosa, o que você descobriu?"
Um ruído veio do corredor.
Marina congelou.
Passos.
Ela fechou a mala.
Os passos pararam diante da porta.
Marina procurou qualquer coisa que pudesse usar para se defender.
Pegou o abajur.
A maçaneta girou.
A porta abriu.
Marina levantou o abajur.
Dante entrou.
"Você perdeu completamente o juízo?"
Marina quase deixou o objeto cair.
"Dante!"
Ele fechou a porta.
Bruno apareceu logo atrás.
Marina colocou o abajur sobre a mesa.
"Como me encontraram?"
Dante olhou para ela como se aquela fosse a pergunta mais absurda possível.
"Você realmente achou que sairia da minha casa às cinco da manhã e ninguém perceberia?"
"Você estava dormindo."
"Estava."
A palavra saiu dura.
"Depois de quatro meses, eu estava dormindo."
Marina baixou os olhos.
"Eu não queria acordar você."
Dante se aproximou.
"E decidiu vir sozinha para um lugar indicado por alguém que está observando você dentro da minha casa?"
"Era a única pista sobre Rosa."
"Podia ser uma armadilha."
"Eu sabia."
"Isso melhora?"
"Não."
"Então por que veio?"
Marina encarou Dante.
"Porque se Rosa estiver viva, ela está sozinha há quatorze semanas."
Dante ficou em silêncio.
"Ela tentou avisar você", Marina continuou. "Ninguém ouviu."
"Isso não significa que você precise desaparecer junto."
"Eu não desapareci."
Dante deu outro passo.
"Por quase uma hora ninguém sabia onde você estava."
A voz dele baixou.
"Não faça isso de novo."
Marina percebeu algo que não esperava.
Ele estava com medo.
Não por si mesmo.
Por ela.
"Você veio atrás de mim."
Dante pareceu irritado com a observação.
"Não confunda responsabilidade com preocupação."
Marina ergueu uma sobrancelha.
"Claro."
Bruno interrompeu.
"O que encontrou?"
Marina mostrou a mala.
Os dois se aproximaram.
Dante pegou seus próprios relatórios.
"Como Rosa conseguiu isso?"
"Não sei."
Bruno examinou as plantas.
"Estas são anteriores à última reforma."
"Ela sabia das passagens", Marina disse.
Dante encontrou as fotografias.
Seu rosto fechou.
"Estavam me seguindo."
"Há meses."
Marina retirou o último envelope.
Dentro havia um pequeno gravador digital.
Bruno verificou antes de ligar.
"Sem transmissor."
Marina apertou o botão.
Estática.
Depois uma voz feminina.
Cansada.
Assustada.
"Meu nome é Rosa Ferreira."
Marina prendeu a respiração.
"Se alguém encontrou esta gravação, significa que eu não consegui terminar."
Dante se aproximou.
"Eu pensei que o problema fosse a casa. Depois pensei que fosse a cama."
A voz de Rosa tremia.
"Mas não é só isso."
Silêncio.
"Os exames dele estão errados."
Dante olhou para os relatórios.
"Eu vi os originais."
Bruno ficou imóvel.
"Alguns números foram alterados antes de chegarem ao senhor Dante."
Rosa respirou fundo na gravação.
"Eu não sei por quê."
Outro ruído.
"Se eu desaparecer..."
A voz falhou.
Depois voltou.
"Procurem o médico."
A gravação terminou.
Ninguém falou.
Dante apertou o aparelho na mão.
"Henrique."
Bruno pegou o telefone.
"Posso trazer ele agora."
"Não."
Dante olhou para os documentos.
"Se Rosa descobriu isso, Henrique pode não estar sozinho."
Marina percebeu uma pequena etiqueta dentro da mala.
Havia um nome escrito.
H.S.
Henrique Sampaio.
Debaixo:
R.M.
Ela mostrou a Dante.
O rosto dele ficou imóvel.
Bruno viu.
"Ricardo Montenegro."
Dante fechou a mala.
"Não."
"Senhor..."
"Não."
Bruno não insistiu.
Marina percebeu que aquele nome era diferente.
Henrique era médico.
Ricardo era família.
Antes que alguém dissesse outra coisa, um ruído metálico veio da porta.
Bruno virou.
A maçaneta não se mexeu.
Ele tentou abrir.
Nada.
"Trancaram por fora."
Dante puxou Marina para trás.
Bruno bateu na porta.
"Segurança!"
Nenhuma resposta.
Então Marina sentiu cheiro de fumaça.
Olhou para baixo.
Uma linha fina entrava por debaixo da porta.
"Dante."
Ele viu.
Bruno chutou a madeira.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, a fechadura cedeu.
O corredor estava cheio de fumaça.
Um pequeno incêndio começara junto ao quadro elétrico.
Eles correram.
Bruno cobriu o rosto de Marina com o próprio paletó.
Dante segurou sua mão.
Desceram dois andares pelas escadas.
Só soltaram um ao outro quando chegaram à rua.
Marina respirava rápido.
Dante ainda segurava sua mão.
Ela olhou.
Ele percebeu.
Mas não soltou imediatamente.
Bruno apareceu com a mala.
"Consegui trazer."
Dante finalmente afastou a mão.
Marina olhou para as janelas do hotel.
Uma figura estava parada atrás de uma cortina no terceiro andar.
"Ali!"
Bruno virou.
A figura desapareceu.
Ele correu de volta.
Dante segurou Marina pelo braço.
"Você fica."
"Mas..."
"Chega."
Ela olhou para ele.
Dante estava furioso.
"Você não vai desaparecer como Rosa."
Marina ficou imóvel.
Ele também percebeu o que acabara de dizer.
Por alguns segundos, nenhum dos dois desviou o olhar.
Então o telefone de Dante tocou.
Era Bruno.
"Sumiu."
"Quem?"
"Não sei."
Dante olhou para o hotel.
Bruno continuou:
"Mas encontrei uma coisa."
"O quê?"
"Uma seringa descartada no corredor."
Dante ficou tenso.
"E?"
"A embalagem tem o logotipo do Hospital São Gabriel."
O hospital onde Henrique Sampaio trabalhava.
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