"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 9 — O Traidor
Helena não tirava os olhos da imagem congelada.
Marcelo Ferraz aparecia claramente na tela da central de segurança.
Às 21h09, ele entrara no escritório de Dante.
Às 21h16, saíra carregando uma pasta.
Sete minutos.
Sete minutos tinham sido suficientes para levar o caderno de Antônio Duarte e as principais provas contra Ricardo Montenegro.
Helena sentiu uma dor antiga voltar.
Era quase igual àquela manhã de quatro anos antes, quando abrira a conta bancária e descobrira que o dinheiro do tratamento do pai havia desaparecido.
Naquela ocasião, Marcelo também desaparecera.
"Eu fui idiota."
Dante virou para ela.
"Não."
"Fui."
"Você não confiava nele."
"Mas comecei a acreditar que pelo menos estava dizendo a verdade."
Helena apontou para a tela.
"Ele fez de novo."
Bruno se aproximou.
"Já estamos procurando."
"Telefone?"
"Desligado."
"Carro?"
"Encontramos saindo da região do Jardim Europa às 21h22."
Dante perguntou:
"Para onde?"
Bruno consultou o tablet.
"Marginal Pinheiros."
Helena virou imediatamente.
"Ricardo."
Dante pensou por alguns segundos.
"Talvez."
"Talvez?"
"Se Marcelo estivesse simplesmente roubando os documentos para Ricardo, não precisaria entrar pessoalmente aqui."
"Então o que está dizendo?"
"Que ainda não sabemos o que ele está fazendo."
Helena riu com amargura.
"Eu sei."
Dante olhou para ela.
"Ele escolheu a si mesmo."
Dessa vez, Dante não tentou convencê-la do contrário.
O telefone de Bruno tocou.
Ele atendeu.
"Encontraram o carro."
"Onde?"
"Num estacionamento perto da Avenida Paulista."
"E Marcelo?"
"Não estava lá."
Dante pegou o paletó.
"Vamos."
Helena segurou seu braço.
"Eu vou."
"Não."
"Esses documentos eram do meu pai."
"Exatamente por isso."
"Não me deixe de fora."
Dante ficou alguns segundos olhando para ela.
Depois assentiu.
"Fica perto de mim."
Helena pegou a bolsa.
"Não exagere."
"Helena."
"Está bem."
Quarenta minutos depois, chegaram ao estacionamento.
O carro de Marcelo estava vazio.
No banco traseiro havia apenas um celular quebrado.
Bruno colocou luvas antes de pegá-lo.
"Nada."
Helena caminhou ao redor do veículo.
Foi então que percebeu um pedaço de papel preso sob o limpador de para-brisa.
"Dante."
Ele se aproximou.
No papel havia apenas um endereço.
**Rua Conselheiro Ramalho, Bela Vista.**
E um horário.
**23h30.**
Dante olhou o relógio.
23h12.
"Armadilha", Bruno disse.
"Provavelmente", Dante respondeu.
Helena pegou o papel.
"Então Marcelo queria que encontrássemos."
Dante olhou para ela.
"Sim."
"Por quê?"
"Vamos descobrir."
O endereço correspondia a um prédio comercial antigo.
Quase todas as salas estavam vazias.
Dante entrou primeiro com Bruno.
Helena veio atrás.
No terceiro andar, uma porta estava aberta.
Marcelo estava sentado diante de uma mesa.
Sozinho.
Helena parou.
"Seu desgraçado."
Marcelo levantou.
"Você veio."
Ela atravessou a sala e deu um tapa nele.
Marcelo aceitou sem reagir.
"Isso está virando hábito."
"Posso continuar."
"Provavelmente mereço."
Dante fechou a porta.
"Onde estão os documentos?"
Marcelo apontou para uma pasta sobre a mesa.
Helena olhou.
"O quê?"
"São cópias."
"E os originais?"
"Com Ricardo."
Helena perdeu a paciência.
"Então você entregou!"
"Sim."
Ela avançou.
Dante segurou seu braço.
"Deixa ele terminar."
Marcelo respirou fundo.
"Ricardo não confiava mais em ninguém. Depois que percebeu que vocês tinham o caderno, sumiu."
"E você achou uma ótima ideia devolver tudo para ele?", Helena perguntou.
"Eu disse que queria dinheiro."
Helena riu.
"Claro."
"Disse que estava cansado de tentar corrigir o passado. Que queria sair do país."
Dante entendeu.
"Você fez ele acreditar que ainda era o mesmo homem de quatro anos atrás."
Marcelo assentiu.
"Não foi difícil."
"Porque talvez você seja", Helena disse.
Marcelo a encarou.
"Talvez."
A resposta desarmou parte da raiva dela.
Marcelo colocou um pequeno aparelho sobre a mesa.
"Ele marcou um encontro comigo."
Dante pegou o dispositivo.
"Gravador?"
"Sim."
"Gravou o quê?"
Marcelo apertou um botão.
A voz de Ricardo encheu a sala.
"Antônio deveria ter entregado aquele caderno quando teve oportunidade."
Depois, a voz de Marcelo:
"E se ele tivesse entregado?"
"Estaria vivo?"
Houve silêncio na gravação.
Então Ricardo riu.
"Antônio morreu doente. Não tente transformar isso em assassinato."
"Você tirou o dinheiro do tratamento."
"Eu pressionei um homem teimoso."
Helena fechou os olhos.
A gravação continuou.
"Você mandou falsificar a assinatura de Dante?"
"Mais de uma vez."
"Quantas empresas?"
"Você está fazendo perguntas demais."
"Quero saber quanto vou receber."
Ricardo riu novamente.
"Você não mudou nada, Marcelo."
A gravação terminou.
Helena olhou para ele.
"Você conseguiu."
"Ainda não."
Marcelo apontou para Dante.
"Ele está movendo dinheiro para fora do país."
"Tem os dados?"
"Na pasta."
Dante abriu.
Contas.
Empresas.
Transferências.
Nomes.
Tudo.
"Isso basta", Dante disse.
Marcelo balançou a cabeça.
"Para as empresas, talvez."
"E para Ricardo?"
"Precisamos dos originais."
Helena entendeu.
"Você colocou alguma coisa neles."
Marcelo assentiu.
"Um rastreador."
Bruno imediatamente pegou o telefone.
Poucos segundos depois, encontrou o sinal.
"Galpão na Mooca."
Dante virou para Marcelo.
"Você vem."
Marcelo empalideceu.
"Ricardo vai saber."
"Essa era a ideia."
Helena percebeu.
"Você sabia que ele poderia descobrir."
Marcelo não respondeu.
Ela se aproximou.
"Por quê?"
"Porque seu pai me deu uma chance de fazer a coisa certa."
"Quatro anos tarde demais."
"Eu sei."
"Isso não vai fazer eu perdoar você."
"Eu sei."
"Não vai me fazer amar você de novo."
A voz de Marcelo ficou baixa.
"Eu sei."
Helena ficou em silêncio.
Marcelo sorriu tristemente.
"Mas talvez me faça conseguir olhar para o túmulo dele sem sentir vergonha."
Naquela madrugada, a polícia recebeu as provas reunidas pelos advogados de Dante.
Ricardo foi localizado antes de conseguir sair de São Paulo.
Não houve confronto glorioso.
Nenhum acerto de contas secreto.
Dante fez algo que Ricardo jamais esperava.
Entregou tudo.
Documentos empresariais.
Contas.
Gravações.
Assinaturas falsificadas.
E o testemunho escrito de Antônio Duarte.
Ricardo Montenegro perdeu o controle das empresas antes do amanhecer.
Marcelo também prestou depoimento.
Não pediu imunidade.
Não pediu que Helena o defendesse.
Dias depois, encontrou-a diante da antiga loja de Antônio.
"Vou embora de São Paulo."
Helena assentiu.
"Talvez seja melhor."
Marcelo respirou fundo.
"Eu ainda amo você."
Helena não se surpreendeu.
Talvez porque já não importasse.
"Eu também amei você."
"Eu sei."
"Mas aquela mulher não existe mais."
Marcelo abaixou os olhos.
Helena continuou:
"Você não perdeu a Helena de hoje."
"Perdeu a mulher que confiava em você quatro anos atrás."
Ele assentiu.
"Eu sei."
"Espero que um dia consiga ser alguém melhor."
Marcelo sorriu tristemente.
"Isso é perdão?"
"Não."
Helena respondeu sem crueldade.
"É despedida."
Ela virou.
Dante estava do outro lado da rua.
Esperando.
Helena atravessou.
"Você ouviu?"
"Tudo."
"E não vai perguntar se ainda amo Marcelo?"
"Não."
Helena ergueu uma sobrancelha.
"Por quê?"
Dante aproximou-se.
"Porque tenho uma pergunta mais importante."
"Qual?"
Ele olhou diretamente para ela.
"Você ama a mim?"
Helena ficou em silêncio.
Dessa vez, não porque não soubesse a resposta.
Mas porque sabia.
E isso a assustava muito mais.
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