"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 7 — Eu Não Preciso do Seu Sobrenome
Helena chegou ao estúdio às oito da manhã.
Augusto já estava esperando.
"Hoje sem parar."
"Eu sei."
"Mesmo se errar."
"Eu sei."
"Mesmo se ficar nervosa."
"Augusto."
Ele sorriu.
"Agora você parece pianista."
Helena sentou.
Faltavam três dias para a seleção.
Ela tinha voltado a sentir algo que acreditava perdido.
Ansiedade.
Mas era uma ansiedade diferente.
Não vinha de contas.
Hospitais.
Marcelo.
Ricardo.
Vinha da possibilidade de querer alguma coisa novamente.
Ela começou.
Quarenta minutos depois, Augusto bateu uma palma.
"Melhor."
"Só melhor?"
"Quer elogio ou carreira?"
"Os dois."
"Ganhe primeiro."
Helena riu.
O telefone vibrou.
Um e-mail.
Ela abriu.
O sorriso desapareceu.
**INSCRIÇÃO CANCELADA.**
Helena leu novamente.
"Não."
Augusto aproximou-se.
"O que houve?"
Ela abriu o documento anexado.
A solicitação informava que a participação fora retirada por representante autorizado.
Na parte inferior:
**Solicitação da Família Montenegro.**
Helena ficou imóvel.
Augusto pegou o telefone.
"Espere."
Mas ela já estava de pé.
Vinte e cinco minutos depois, Helena entrou no escritório de Dante na Faria Lima.
A secretária tentou detê-la.
"Senhora, ele está em reunião."
Helena abriu a porta.
Dante estava com seis executivos.
"Helena?"
Ela jogou o documento sobre a mesa.
"Todo mundo para fora."
Um dos executivos quase engasgou.
Dante olhou para Helena.
Depois para os outros.
"Saiam."
Em menos de um minuto, ficaram sozinhos.
"O que aconteceu?"
"Você me diga."
Dante leu.
Sua expressão endureceu.
"Eu não fiz isso."
"Claro."
"Helena."
"Não."
Ela andava pelo escritório.
"Primeiro aparece sua assinatura no dinheiro do meu pai."
"Falsa."
"Depois descubro que sua mãe sabia."
"Eu não sabia."
"Agora minha inscrição é cancelada pela sua família."
"Não fui eu."
Helena riu.
"É sempre alguém da sua família."
Dante se levantou.
"Vou resolver."
"Esse é o problema."
"O quê?"
"Você sempre vai resolver."
Ela apontou para ele.
"Um telefonema. Um segurança. Um advogado. Um carro esperando."
"Estou tentando ajudar."
"Eu não quero que você controle minha vida!"
Dante ficou em silêncio.
Helena sentiu lágrimas surgirem.
"Passei quatro anos vivendo com as consequências da escolha de Marcelo."
"Eu não sou Marcelo."
"Pare de dizer isso!"
Dante fechou a boca.
Helena respirou.
"Eu sei que você não é ele."
Sua voz ficou mais baixa.
"Mas perto de você, tudo fica enorme."
"Diga o que quer."
"Quero descobrir quem sou sem Montenegro escrito ao lado."
Dante entendeu antes que ela dissesse.
"Vai sair da mansão."
"Sim."
"Helena..."
"Não tente impedir."
"Não vou."
A resposta a surpreendeu.
Dante caminhou até a mesa.
"Se precisa sair, saia."
"É só isso?"
"O que esperava?"
"Não sei."
Dante olhou diretamente para ela.
"Que eu trancasse a porta?"
Helena não respondeu.
"Se eu fizer isso, você nunca vai saber se ficou porque quis."
Ela sentiu o peito apertar.
Dante continuou:
"Então vá."
Naquela tarde, Helena voltou à mansão.
Dobrou o uniforme.
Colocou-o sobre a cama.
Teresa apareceu na porta.
"Você não precisa fazer isso."
"Preciso."
Helena tocou o tecido preto.
"Esse uniforme pagou minhas contas quando eu não tinha nada."
"Não há vergonha nele."
"Eu sei."
"Então por que está chorando?"
Helena sorriu.
"Porque talvez eu esteja finalmente pronta para descobrir quem sou sem ele."
Antes de sair, levou apenas suas coisas.
O cartão de Augusto.
A fotografia do pai.
E o caderno preto.
No dia seguinte, Augusto ligou.
"Vista-se."
"Para quê?"
"Sua inscrição voltou."
Helena sentou na cama.
"O quê?"
"Você toca em quinze minutos."
"Quinze?"
"Estou exagerando. Tem quarenta."
"Augusto!"
"Trinta e nove."
Helena correu.
Chegou à Sala São Paulo com o coração quase saindo pela boca.
"Quem resolveu?"
Augusto ajeitou o próprio paletó.
"Não importa."
"Foi Dante?"
"Helena."
"Foi?"
Augusto suspirou.
"Ele encontrou a pessoa que cancelou. Fez a organização restaurar sua inscrição."
"Ele ligou para os jurados?"
"Não."
"Falou com alguém sobre minha avaliação?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Ele exigiu apenas que você recebesse exatamente a oportunidade que tinha antes."
Helena ficou quieta.
"Agora entre."
Ela subiu ao palco.
As luzes eram fortes.
O salão parecia infinito.
Helena sentou.
Respirou.
"Conte o silêncio antes de contar as notas."
Começou.
Dessa vez, não tocou para calar Valentina.
Não tocou por Antônio.
Nem por Dante.
Tocou por si mesma.
Quando chegou à metade da peça, olhou involuntariamente para o fundo.
Na última fileira estava Dante.
Sozinho.
Sem Bruno.
Sem Ricardo.
Sem sobrenome.
Apenas um homem ouvindo.
Helena terminou.
Os avaliadores fizeram anotações.
Augusto esperava nos bastidores.
"Você errou três notas."
Helena empalideceu.
"Três?"
"Sim."
"Acabou."
"Também fez vinte coisas que ninguém ensinou."
"Isso é bom?"
Augusto sorriu.
"É você."
Um funcionário aproximou-se.
"Senhorita Helena Duarte?"
"Sim?"
"Deixaram isto."
Era um envelope antigo.
Helena reconheceu a letra.
**Para minha filha.**
Seu coração parou.
"Quem trouxe?"
"Uma senhora."
"Que senhora?"
"Não disse."
Helena abriu.
A primeira linha dizia:
"Helena, se você está lendo esta carta, Ricardo Montenegro descobriu o que eu sei."
Ela parou de respirar.
No fim do corredor, uma mulher desapareceu atrás da porta.
Helena só conseguiu ver por um segundo.
Mas reconheceu o cabelo.
Teresa Montenegro.
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