"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 6 — A Verdade Que Marcelo Escondeu
Marcelo não tentou se defender.
Talvez porque não houvesse defesa.
Helena estava diante dele no jardim lateral da mansão, segurando a declaração de Antônio.
"Conte tudo."
"Você vai me odiar."
"Isso já aconteceu."
Marcelo respirou fundo.
"Quando começamos a namorar, eu queria sair da Vila Mariana."
"Eu sei."
"Não. Você achava que eu queria construir uma vida com você."
Helena sentiu a crueldade da frase.
Marcelo continuou:
"Eu queria dinheiro. Contatos. Um cargo importante."
"E encontrou Ricardo."
"Ele me encontrou."
Marcelo contou que conhecera Ricardo em um evento empresarial.
O Montenegro percebeu rapidamente sua ambição.
Ofereceu emprego.
Depois dinheiro.
Depois acesso a pessoas que Marcelo jamais teria conhecido sozinho.
"Qual era o preço?"
"Informação."
"Sobre meu pai?"
"No começo, não."
Marcelo explicou que Ricardo fazia perguntas aparentemente inocentes.
Antônio ainda trabalhava para algumas famílias.
Ricardo queria saber com quem ele conversava.
Que documentos guardava.
Onde trabalhava.
"Eu respondi."
Helena sentiu o estômago revirar.
"Você espionou meu pai."
"Sim."
"E dormia ao meu lado."
Marcelo baixou a cabeça.
"Sim."
Helena quis bater nele novamente.
Não bateu.
"Continue."
"Quando Ricardo descobriu que Antônio estava reunindo provas, mandou que eu encontrasse o caderno."
"O caderno que estava no piano."
"Eu não sabia onde estava."
"Então ele ofereceu dinheiro."
Marcelo assentiu.
"Eu aceitei."
Helena fechou os olhos.
A dor já não parecia nova.
Era apenas mais profunda.
"E o dinheiro do tratamento?"
"Ricardo sabia que estava na nossa conta."
Marcelo engoliu em seco.
"Mandou que eu transferisse."
"Por quê?"
"Para pressionar Antônio."
Helena ficou sem ar.
"Meu pai estava doente."
"Eu sei."
"Vocês usaram o tratamento dele como chantagem?"
"Sim."
Helena recuou.
Marcelo estendeu a mão.
Ela apontou o dedo.
"Não toque em mim."
Ele parou.
"Ricardo disse que devolveria o dinheiro se Antônio entregasse os documentos."
"E meu pai recusou."
"Recusou."
Helena começou a chorar.
Não havia vergonha nas lágrimas.
Só raiva.
"Ele preferiu morrer?"
"Ele acreditava que Ricardo continuaria fazendo aquilo com outras pessoas."
Marcelo enxugou os próprios olhos.
"Antônio me chamou ao hospital."
"Por quê?"
"Para me dizer que sabia."
Helena congelou.
"Sabia que você tinha roubado?"
"Sabia tudo."
"E o que fez?"
Marcelo demorou.
"Ele me perdoou."
Helena soltou uma risada quebrada.
"Claro."
"Helena..."
"Claro que ele perdoou."
Ela chorava agora.
"Meu pai passou a vida consertando coisas quebradas."
Marcelo não conseguiu responder.
"Mas eu não sou ele."
Helena encarou-o.
"Eu não perdoo você."
Marcelo assentiu lentamente.
"Eu sei."
"E nunca mais diga que fez alguma coisa para me proteger."
"Não vou."
"Você escolheu você mesmo."
"Escolhi."
Pela primeira vez, Marcelo não tentou transformar a própria covardia em sacrifício.
Helena guardou a declaração.
"Por que está falando agora?"
"Porque Ricardo percebeu que Dante está investigando."
"E?"
"Ele vai destruir qualquer prova."
"Está com medo?"
"Sim."
Helena aproximou-se.
"Ótimo."
Deixou Marcelo sozinho.
No dia seguinte, Augusto Valença telefonou.
Helena quase não atendeu.
"Senhor Augusto?"
"Finalmente."
"Desculpe."
"Seu pai também demorava para atender."
Helena ficou em silêncio.
"Então vocês se conheciam."
Augusto suspirou.
"Antônio afinou meu piano durante quinze anos."
"Por que nunca falou?"
"Porque achei que você soubesse."
Helena sentou.
"Não sei quase nada."
Augusto ficou mais gentil.
"Venha me encontrar."
Naquela tarde, Helena entrou numa sala de ensaio próxima à Praça Júlio Prestes.
Augusto estava diante de um piano.
"Seu pai falava de você o tempo todo."
Helena sorriu com tristeza.
"Ele dizia que eu era teimosa?"
"Principalmente."
Ela riu.
Augusto apontou para o banco.
"Sente."
"Não vim tocar."
"Eu sei."
"Então por quê?"
"Porque você está usando a música como túmulo."
Helena ficou séria.
Augusto continuou:
"Seu pai não ensinou você para que enterrasse tudo junto com ele."
"Você não sabe o que aconteceu."
"Sei que Antônio morreu."
"Por causa de dinheiro que roubaram dele."
"Então vai deixar que também roubem isso?"
Augusto tocou uma tecla.
O som ecoou.
"Essa parte ainda é sua."
Helena olhou para o teclado.
Sentou.
As primeiras notas saíram hesitantes.
Depois ganharam corpo.
Uma hora passou.
Depois duas.
Quando Helena saiu, Dante estava esperando do lado de fora.
"Você me seguiu?"
"Não."
"Então como sabia?"
"Augusto me ligou."
Helena cruzou os braços.
"Homens ricos têm uma rede irritante."
"Concordo."
Dante abriu a porta do carro.
"Não vou entrar."
"Não pedi."
Ele fechou.
Helena quase sorriu.
Dante entregou um papel.
"Encontrei mais três empresas ligadas a Ricardo."
"Vai fazer o quê?"
"Tirar cada uma das mãos dele."
Helena percebeu a frieza.
"Não quero guerra por minha causa."
"Não é por sua causa."
"Então por quê?"
"Porque alguém usou meu nome para destruir seu pai."
Dante aproximou-se.
"E porque Ricardo acha que pode decidir quem merece ser esmagado."
Helena sustentou o olhar dele.
"Dante..."
"Não vou pedir nada."
"Ótimo."
"Mas quero dizer uma coisa."
Ela esperou.
"Você tocou hoje?"
"Toquei."
"Como foi?"
Helena olhou para a janela do estúdio.
"Pela primeira vez, não parecia que meu pai estava morrendo."
Dante sorriu.
"Então volte amanhã."
Ela voltou.
E no dia seguinte.
Durante três semanas, Helena dividiu sua vida entre a mansão e as aulas com Augusto.
Até que uma fotografia dela ao lado de Dante apareceu num portal de fofocas.
O título dizia:
**EMPREGADA SEDUZ CHEFE DO CLÃ MONTENEGRO E GANHA CARREIRA DE PIANISTA**
Helena sentiu vergonha.
Depois raiva.
Valentina dera uma entrevista anônima.
Helena reconheceu cada insinuação.
Augusto encontrou-a olhando a matéria.
"Vai desistir?"
"Não."
"Bom."
Ele colocou um formulário diante dela.
"Seleção para novos solistas."
Helena leu.
**Sala São Paulo.**
Seu coração acelerou.
"Eu não estou pronta."
"Está."
"E se perder?"
Augusto sorriu.
"Então perde como pianista."
Ele apontou para a matéria.
"Não como empregada de Dante Montenegro."
Helena assinou.
Naquela noite, contou a Dante.
Ele não ofereceu dinheiro.
Não ofereceu influência.
Apenas perguntou:
"Quando?"
"Dia vinte e três."
"Vou estar lá."
"Não quero tratamento especial."
"Não ofereci."
Helena sorriu.
Mas no outro lado da cidade, Ricardo Montenegro recebeu uma cópia da inscrição.
Olhou para o nome.
**Helena Duarte.**
Depois pegou o telefone.
"Quero que essa mulher seja lembrada de onde veio."
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