"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — A Chave Dentro do Piano
Helena releu a frase três vezes.
"Se um Montenegro encontrou isto, significa que finalmente chegou a hora de você saber por que eu tive tanto medo."
A letra era de Antônio.
Ela reconheceria aqueles traços em qualquer lugar.
Durante anos, o pai escrevia pequenos recados e os deixava sobre a geladeira.
"Compre leite."
"Não esqueça o guarda-chuva."
"Treine o compasso 47."
Agora, a mesma caligrafia parecia pertencer a outro homem.
Helena virou o papel.
Nada.
Apenas o nome de Ricardo Montenegro.
"Por que meu pai tinha medo dele?"
Dante ainda segurava a fotografia.
"Vamos descobrir."
Helena apontou para Teresa.
"Primeiro quero saber por que sua mãe estava aqui."
Dante não respondeu.
Não porque estivesse escondendo algo.
Porque realmente não sabia.
Seu Joaquim aproximou-se.
"Eu lembro desse dia."
Helena virou imediatamente.
"Então fale."
O velho suspirou.
"Seu pai afinava os instrumentos de famílias ricas. Os Montenegro eram clientes importantes."
"Minha mãe vinha aqui?", Dante perguntou.
"Algumas vezes."
"Por quê?"
Joaquim olhou para Helena.
"Por causa dela."
Helena sentiu o corpo gelar.
"De mim?"
"Você tinha uns oito anos quando dona Teresa ouviu você tocar."
Helena tentou lembrar.
Havia imagens vagas.
Uma mulher elegante.
Perfume suave.
Uma pulseira dourada.
"Ela voltou várias vezes", Joaquim continuou. "Pagou partituras. Aulas. Até ofereceu uma bolsa."
Helena balançou a cabeça.
"Meu pai nunca falou isso."
"Antônio tinha orgulho."
"Orgulho?"
"Medo também."
Dante colocou a fotografia sobre o piano.
"Medo de quê?"
Joaquim apontou para o caderno preto.
"Talvez esteja aí."
Helena abriu.
As primeiras páginas eram comuns.
Datas.
Nomes de clientes.
Modelos de piano.
Valores.
Depois, as anotações mudavam.
**Mansão Montenegro — Jardim Europa.**
**Escritório lateral.**
**Ricardo.**
**Transferências.**
Helena folheou mais rápido.
Dante aproximou-se.
Havia números de empresas.
Datas.
Iniciais.
Algumas coincidiam com documentos encontrados por Bruno.
RM Participações aparecia repetidamente.
"Meu pai estava investigando Ricardo?"
"Não exatamente", Joaquim respondeu. "Ele ouviu uma conversa enquanto consertava um piano."
"Que conversa?"
"Antônio nunca contou tudo."
Joaquim passou a mão pelo rosto.
"Mas depois daquele dia ele começou a copiar nomes."
Dante pegou o caderno.
"Isso pode provar muita coisa."
Helena arrancou-o da mão dele.
"É do meu pai."
Dante recuou.
"Tem razão."
Ela percebeu imediatamente que reagira com dureza.
Mas não pediu desculpas.
Quatro anos atrás, confiara em um homem com acesso ao dinheiro do pai.
Não faria isso novamente.
Nem mesmo com Dante.
"Vou levar comigo."
"Helena, se Ricardo descobrir que você tem isso..."
"Ele já sabe que meu pai sabia alguma coisa."
"Não sabe o que encontramos."
"Então não conte."
Dante a encarou.
"Você está me dando uma ordem?"
"Estou."
Um canto da boca dele quase se moveu.
"Está ficando corajosa."
"Estou ficando cansada."
Joaquim tossiu discretamente.
Helena fechou o caderno.
Quando se preparava para sair, percebeu uma folha solta presa à contracapa.
Retirou.
Era uma lista.
No alto, Antônio escrevera:
**Se acontecer alguma coisa comigo.**
Abaixo havia três nomes.
**Teresa Montenegro.**
**Augusto Valença.**
**Marcelo Ferraz.**
Helena sentiu o coração bater mais forte.
"Augusto?"
Dante leu por cima de seu ombro.
"O pianista."
"Por que meu pai escreveria o nome dele?"
Seu Joaquim pareceu surpreso.
"Antônio conhecia Augusto."
Helena virou.
"O quê?"
"Pouco. Muitos anos atrás."
"Por que ninguém me contou nada?"
Joaquim abaixou os olhos.
"Talvez porque Antônio estivesse tentando proteger você."
Helena riu sem humor.
"Todo mundo continua dizendo isso."
Guardou a folha.
"Engraçado como as pessoas conseguem destruir sua vida enquanto juram que estão protegendo você."
Dante não tentou contestar.
Naquela noite, Helena voltou à mansão.
Não como empregada.
Dante havia lhe dado o dia de folga, embora ela não tivesse pedido.
Teresa estava na biblioteca.
Helena colocou a fotografia diante dela.
A xícara nas mãos da mulher parou no ar.
"De onde tirou isso?"
"Do piano do meu pai."
Teresa fechou os olhos.
"Então Antônio guardou."
"Você conhecia meu pai."
"Sim."
"Quanto?"
Teresa demorou.
"Durante muitos anos."
Helena permaneceu de pé.
"Ele trabalhava para vocês?"
"Sim."
"Só isso?"
Teresa olhou para a fotografia.
"Não."
Dante entrou naquele momento.
"Mãe."
Teresa percebeu que não havia mais como fugir.
"Quando Helena era criança, Antônio me deixou ouvi-la tocar."
Helena não se moveu.
"Você pagou minhas aulas?"
"Algumas."
"Por quê?"
"Porque você tinha talento."
"Não é resposta."
Teresa levantou.
"Seu pai não tinha dinheiro. Eu tinha."
"E ele aceitou?"
"No começo."
"No começo?"
"Até descobrir o que Ricardo estava fazendo."
Dante fechou a porta.
"Finalmente."
Teresa olhou para o filho.
"Você não entende."
"Então explique."
"Ricardo era jovem. Seu pai ainda estava vivo. O grupo tinha dezenas de empresas. Ninguém verificava cada transferência."
"Que transferências?"
Teresa ficou em silêncio.
Helena colocou o caderno sobre a mesa.
A cor desapareceu do rosto dela.
"Antônio guardou isso?"
"Guardou."
Teresa abriu as primeiras páginas.
"Meu Deus."
Dante aproximou-se.
"Você sabia."
"Eu suspeitava."
"Durante quase trinta anos?"
"Não sabia até onde ia."
Helena perdeu a paciência.
"Meu pai morreu."
Teresa levantou os olhos.
"Eu sei."
"Então pare de proteger sua família."
Teresa respirou fundo.
"Antônio descobriu que Ricardo estava usando pequenas empresas para desviar dinheiro do grupo."
"Por que meu pai se envolveu?"
"Porque encontrou documentos escondidos dentro de um banco de piano."
Dante franziu a testa.
"Documentos?"
"Ricardo usava uma sala que quase ninguém frequentava. Antônio estava restaurando o instrumento."
Teresa continuou:
"Ele viu nomes. Contas. Pagamentos."
"E contou a você."
"Sim."
"Por que não denunciou?"
A culpa atravessou o rosto dela.
"Eu pedi tempo."
Helena entendeu.
"Você pediu para meu pai ficar calado."
"Eu queria falar com meu marido."
"E enquanto esperava, Ricardo descobriu."
Teresa não respondeu.
Não precisava.
Helena pegou o caderno.
"Você deixou meu pai sozinho."
"Helena..."
"Não."
Ela se afastou.
Dante tentou acompanhá-la.
"Preciso ficar sozinha."
"Vou levar você."
"Não."
Ela saiu.
No corredor externo, encontrou Marcelo.
Helena parou imediatamente.
"O que está fazendo aqui?"
"Esperando você."
"Saia."
"Encontrei uma coisa."
"Não quero nada seu."
Marcelo tirou um envelope do paletó.
"Vai querer isso."
Helena não pegou.
"É a última coisa que Antônio me entregou."
Ela congelou.
"Meu pai encontrou você depois que roubou o dinheiro?"
"Sim."
"Quando?"
"Uma semana antes de morrer."
Helena sentiu náusea.
"Você olhou para ele?"
Marcelo abaixou os olhos.
"Olhei."
"E mesmo assim não devolveu?"
"Não."
Helena deu um tapa nele.
Marcelo não reagiu.
"Isso foi pelo dinheiro."
Ela deu outro.
"Isso foi por não ter ido ao funeral."
Marcelo permaneceu imóvel.
Os olhos estavam úmidos.
Helena arrancou o envelope da mão dele.
Dentro havia uma cópia de um documento.
No topo:
**DECLARAÇÃO TESTEMUNHAL**
O nome abaixo era:
**Antônio Duarte.**
E no primeiro parágrafo aparecia:
**Ricardo Montenegro.**
Helena levantou os olhos.
Marcelo falou:
"Seu pai estava pronto para testemunhar."
"Contra Ricardo?"
"Sim."
"Então por que não testemunhou?"
Marcelo fechou os olhos.
"Porque morreu antes."
Helena apertou o documento.
"Você sabia."
"Sim."
"Durante quatro anos."
"Sim."
A voz dela quase não saiu.
"Então você não roubou apenas o dinheiro do meu pai."
Marcelo olhou para ela.
Helena sentiu lágrimas escorrerem.
"Você roubou a verdade também."
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