"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — O Convite do Chefe da Máfia
Helena não dormiu.
Às cinco da manhã, ainda estava sentada à mesa de seu pequeno apartamento na Vila Mariana.
O cartão de Augusto Valença estava de um lado.
Do outro, uma fotografia de Antônio.
"Uma coisa sobre os Montenegro."
A frase de Marcelo não saía de sua cabeça.
Quando Helena exigira detalhes, ele recuara.
Dissera que precisava encontrar documentos.
Ela quase o odiou mais por isso.
Às sete, Helena voltou à mansão.
Dante estava na sala de jantar.
Sozinho.
Uma xícara de café diante dele.
Helena entrou para organizar a mesa.
"Bom dia."
"Bom dia."
Ela evitou olhar para ele.
Dante deixou passar alguns segundos.
"Marcelo falou com você ontem."
Helena parou.
"Seus seguranças contam tudo?"
"Quase tudo."
"Isso deveria me tranquilizar?"
"Provavelmente não."
Ela continuou trabalhando.
Dante observou.
"Ele falou sobre seu pai?"
A mão de Helena parou sobre um prato.
"Como sabe?"
"Porque ele falou comigo também."
Helena virou imediatamente.
"O quê?"
Dante colocou o extrato bancário sobre a mesa.
"Reconhece?"
Ela pegou.
Os olhos correram pelos números.
Seu rosto perdeu a cor.
"Essa é..."
"A transferência."
"Como conseguiu?"
"Procurei."
Helena viu o nome da empresa.
RM Participações.
"Quem é?"
"Uma empresa ligada ao meu primo."
"Ricardo?"
"Sim."
Helena largou o papel.
"Então o dinheiro do meu pai veio parar na família Montenegro."
"Passou por uma empresa ligada a Ricardo."
"Qual é a diferença?"
"Uma diferença grande o bastante para eu não mentir para você."
Helena riu, amarga.
"Homens ricos adoram diferenças técnicas."
Dante levantou-se.
"Eu não sabia dessa transferência."
"Mas sua família sabia."
"É o que vou descobrir."
Helena tentou sair.
"Espere."
"Para quê?"
Dante olhou para ela.
"Você ainda não respondeu."
Helena franziu a testa.
"O jantar."
Ela quase não acreditou.
"Depois de me mostrar que o dinheiro que poderia ter salvado meu pai passou pela sua família, você quer jantar comigo?"
"Quero."
"Você é louco."
"Já disseram."
Helena respirou fundo.
"Por quê?"
"Porque quero conhecer a mulher que existia antes desse uniforme."
Ela ficou imóvel.
"Ela morreu."
"Não."
Dante apontou discretamente para a sala onde ficava o piano.
"Eu a vi ontem."
Helena não encontrou resposta.
Naquela noite, ela aceitou.
Não por romance.
Disse isso três vezes a si mesma.
O restaurante ficava nos Jardins.
Helena chegou usando um vestido azul-marinho simples.
Dante já esperava.
Sem os homens de terno preto à mesa.
Sem reuniões.
Sem telefone na mão.
"Você está diferente."
Helena sentou.
"Sem avental?"
"Sem medo."
"Não tenha certeza."
Dante sorriu discretamente.
Durante quase uma hora, eles falaram.
Sobre Antônio.
Sobre música.
Sobre a infância de Dante.
Helena descobriu que ele odiava piano quando criança.
"Minha mãe me obrigava a estudar."
"Você toca?"
"Mal."
"Quão mal?"
"Minha professora pediu demissão."
Helena riu.
Foi a primeira risada verdadeira que Dante ouviu dela.
Ele ficou olhando.
"O quê?"
"Nada."
"Está olhando."
"Estou."
Helena ficou desconfortável.
"Você sempre consegue o que quer?"
"Quase sempre."
"E quando não consegue?"
"Fico interessado."
"Então eu sou um desafio?"
Dante perdeu o sorriso.
"Não."
A resposta veio rápida.
"Você é a primeira pessoa em muito tempo que me fez esquecer que eu estava procurando alguma coisa."
Helena baixou os olhos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Ao sair do restaurante, Dante não tentou beijá-la.
Isso surpreendeu Helena mais do que teria surpreendido um beijo.
Ele apenas abriu a porta do carro.
"Boa noite, Helena."
"Boa noite."
No dia seguinte, Valentina apareceu na mansão.
Sem Marcelo.
Helena estava organizando flores quando ela entrou.
"Precisamos conversar."
"Não temos nada para conversar."
"Temos."
Valentina colocou uma pasta sobre a mesa.
"Eu não gosto de você."
"Percebi."
"Mas gosto ainda menos de descobrir que meu noivo mentiu durante quatro anos."
Helena olhou para ela.
Valentina abriu a pasta.
"Contratei alguém."
"Para investigar Marcelo?"
"Para investigar você."
Helena quase riu.
"Que surpresa."
"Encontraram isso."
Valentina entregou os documentos.
Helena começou a ler.
Extratos.
Transferências.
Empresas.
Datas.
Então viu.
O dinheiro retirado por Marcelo não apenas passara pela RM Participações.
Havia um destinatário intermediário.
**Montenegro Administração Patrimonial.**
Helena levantou os olhos.
"De onde conseguiu isso?"
"Isso importa?"
"Importa."
Valentina se aproximou.
"Você está jantando com Dante Montenegro enquanto o dinheiro que seu pai precisava passou por empresas da família dele."
"Ele me mostrou parte disso."
"Parte."
Helena congelou.
Valentina sorriu.
"Pergunte por que ele não mostrou o resto."
Helena fechou a pasta.
Dante entrou na sala naquele momento.
Olhou primeiro para Valentina.
Depois para Helena.
Viu os documentos.
Sua expressão mudou.
"Quem deu isso a você?"
Valentina respondeu:
"Então é verdadeiro."
Dante ignorou.
Helena ergueu uma das folhas.
"Você sabia?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Sim."
"Então por que seu nome aparece aqui?"
Dante pegou o documento.
Leu.
Pela primeira vez desde que Helena o conhecia, pareceu genuinamente surpreso.
Na parte inferior da página havia uma autorização.
Uma assinatura.
**Dante Vasconcelos Montenegro.**
Helena deu um passo para trás.
Dante continuou olhando para o papel.
"Eu nunca assinei isso."
Valentina sorriu.
"Claro."
Helena sentiu o estômago apertar.
Dante ergueu os olhos.
"Essa assinatura é falsa."
Helena queria acreditar.
Mas quatro anos antes também acreditara em Marcelo.
E aquela escolha custara caro demais.
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