"O Chefe da Máfia Provou Minha Comida… E Mandou Trancar o Restaurante" Capítulo 10 — O Último Jantar
Isabela passou treze anos acreditando que a irmã tinha abandonado Sofia.
Agora descobria que Camila estivera no carro em que Rafael morreu.
E sobrevivera.
"Por que ela nunca voltou?"
A pergunta saiu como um sussurro.
Dante estava diante dela.
"Vamos descobrir."
"Treze anos."
"Eu sei."
"Ela deixou uma criança de meses comigo."
"Talvez não tenha conseguido voltar."
"Ou não quis."
"Isabela."
"Não defende ela."
"Não estou defendendo."
"Você sempre faz isso."
"O quê?"
"Tenta transformar tudo em uma resposta que doa menos."
Dante ficou quieto.
Ela percebeu.
"Desculpa."
"Não precisa."
"Preciso."
Ele se aproximou.
Dessa vez não tocou.
Esperou.
Isabela segurou a mão dele.
Foi ela quem escolheu.
Dante olhou para os dedos unidos.
"Bruno encontrou alguma coisa?", perguntou.
"Um registro."
"Qual?"
"Camila foi internada com outro nome em uma clínica de reabilitação no interior de Minas Gerais."
Isabela fechou os olhos.
A irmã lutara contra dependência química durante anos.
Aquilo fazia sentido.
E ao mesmo tempo destruía tudo que Isabela acreditara.
"Ela está viva?"
"Não sabemos."
"Encontra."
"Bruno já está procurando."
Isabela soltou a mão dele.
"Obrigada."
Marcelo pediu para falar com Isabela.
Dante foi contra.
Não tentou proibir.
Apenas disse:
"Não gosto."
"Nem eu."
"Então por que vai?"
"Porque ele trabalhou comigo oito anos."
"Isso parece motivo para não ir."
"Ele conhece minha família."
Dante respirou.
"Bruno fica do lado de fora."
Isabela sorriu.
"Isso foi uma pergunta?"
"Foi minha melhor tentativa."
"Pode ficar."
Marcelo estava numa sala de depoimentos.
Sem dólmã.
Sem a arrogância da cozinha.
Parecia menor.
Isabela sentou-se.
"Você usou minha mãe."
"Ela me usou primeiro."
"Não compara."
Marcelo sorriu amargamente.
"Rosa é muito mais perigosa do que você pensa."
"Minha mãe tem setenta e um anos e problema cardíaco."
"E enganou Augusto Montenegro por vinte e cinco anos."
Isabela não respondeu.
"Por que você queria falar comigo?"
Marcelo inclinou-se.
"Porque Augusto vai tentar uma última coisa."
"O quê?"
"O jantar."
"Que jantar?"
"Casa Rosália."
Isabela ficou séria.
"Ele quer encontrar Dante lá."
"Por quê?"
"Porque existe uma cópia do livro."
"Onde?"
Marcelo sorriu.
"Na cozinha."
Às nove e dezessete da noite, Dante Montenegro entrou novamente no Restaurante Casa Rosália.
A mesma mesa.
O mesmo salão.
Dessa vez, não havia clientes.
Apenas Augusto.
Sentado na mesa 17.
Isabela entrou pela cozinha.
Augusto sorriu.
"Voltamos ao começo."
Dante puxou a cadeira.
"Você queria jantar."
"Queria conversar."
"Então conversa."
Augusto olhou para Isabela.
"Você também."
"Eu trabalho aqui."
"Trabalhava."
"Detalhe."
Sobre a mesa havia três pratos.
Carne cozida.
Polenta.
Alecrim.
A receita de Rosa.
Augusto olhou para Dante.
"Engraçado."
"O quê?"
"Uma cozinheira fez em dois dias o que sua família não conseguiu em quarenta anos."
Dante não respondeu.
"Fez você ouvir."
Isabela colocou um prato diante dele.
"Ele ainda está aprendendo."
Augusto sorriu.
"Você realmente gosta dela."
Dante olhou para Isabela.
"Sim."
Ela congelou.
Não era hora.
Não era lugar.
Mesmo assim, o coração bateu mais rápido.
Augusto riu.
"Que bonito."
Dante virou-se.
"Você matou Rafael?"
Augusto pegou o garfo.
"Não."
"Mandou matar?"
"Também não."
"Então quem?"
Augusto provou a carne.
"Seu pai."
Dante não se moveu.
Isabela observou.
"Antônio descobriu que Rafael pretendia entregar documentos à polícia."
"Meu pai estava morto quando Rafael morreu."
Augusto sorriu.
"Oficialmente."
Dante ficou pálido.
Isabela sentiu um arrepio.
"Quantas pessoas nessa família fingiram a própria morte?", perguntou.
"Número surpreendente", respondeu Augusto.
Dante bateu a mão na mesa.
"Chega."
Augusto pousou o garfo.
"Seu pai morreu três meses depois de Rafael."
"Prova."
"Armário 17."
"Já abrimos."
"Não todo."
Dante franziu a testa.
Augusto apontou para Isabela.
"Pergunta à cozinheira."
Ela entendeu.
A ficha.
O número 17.
Não era apenas idade.
Não era apenas armário.
Era também mesa.
Isabela olhou para a mesa.
17.
Abaixou-se.
Passou a mão por baixo.
Encontrou uma pequena saliência.
Pressionou.
Um compartimento abriu.
Dentro havia um envelope.
Dante retirou.
A letra era de Antônio Montenegro.
"Para Dante."
Ele abriu.
Leu.
O pai confessava.
Não matara Rafael.
Mas seguira o filho naquela noite.
Rafael discutira com Augusto.
O carro saiu em alta velocidade.
Um veículo enviado por homens ligados a Augusto começou a persegui-los.
Rafael perdeu o controle.
Camila sobreviveu.
Antônio a retirou do hospital antes que Augusto descobrisse.
Depois entregou a menina recém-nascida a Rosa.
Isabela levantou a cabeça.
"Minha mãe."
Augusto sorriu.
"Rosa escondeu Sofia."
Dante continuou lendo.
Antônio ajudara Camila a entrar numa clínica usando outro nome.
Ela não estava em condições de criar a filha.
Depois desapareceu.
Antônio nunca conseguiu encontrá-la novamente.
A última frase dizia:
"Se algum dia você descobrir tudo, não repita meus erros. Proteger alguém não lhe dá o direito de escolher a vida dessa pessoa."
Dante parou.
Isabela olhou para ele.
Era exatamente a lição que ele vinha tentando aprender.
Augusto levantou-se.
"Seu pai passou os últimos meses tentando limpar a própria consciência."
Dante dobrou a carta.
"Você perdeu."
Augusto riu.
"Perdi o quê?"
"As provas já estão com a promotoria."
O sorriso desapareceu.
"O livro que Marcelo levou era uma cópia."
Augusto olhou para Isabela.
Ela respondeu:
"Homens poderosos sempre acham que quem trabalha na cozinha não presta atenção."
As palavras de Rosa.
Bruno entrou pela porta.
Atrás dele, dois policiais civis.
Augusto ficou imóvel.
Dante não sorriu.
Não comemorou.
Apenas observou enquanto levavam o tio.
Antes de sair, Augusto virou-se.
"Você acha que agora virou um homem bom?"
Dante respondeu:
"Não."
Olhou para Isabela.
"Mas finalmente parei de usar minha família como desculpa para continuar sendo um homem ruim."
Augusto foi levado.
Dona Rosa chegou pouco depois.
Sofia correu para abraçá-la.
A menina sentou-se à mesa 17.
"Essa é a comida famosa?"
"É", respondeu Isabela.
"Posso provar?"
Dante puxou a cadeira.
"Você é uma Montenegro. Tecnicamente, pode mandar no restaurante."
Isabela bateu no braço dele.
"Não ensina isso."
Sofia riu.
Rosa observou os três.
Depois ficou séria.
"Ainda falta uma coisa."
Dante olhou para ela.
"O quê?"
Rosa encarou Isabela.
"Contar quem salvou quem naquela noite."
Dante franziu a testa.
"Você me salvou."
Rosa balançou a cabeça.
"Não."
Ela segurou a velha ficha de receita.
"Eu dei comida para você."
Dante esperou.
Rosa continuou:
"Mas não foi isso que salvou sua vida."
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