"O Chefe da Máfia Provou Minha Comida… E Mandou Trancar o Restaurante" Capítulo 5 — A Menina Montenegro
Isabela não dormiu.
Às cinco e quarenta da manhã, ainda estava sentada na poltrona do quarto de hóspedes da Mansão Montenegro, olhando para Sofia.
A menina dormia abraçada ao travesseiro.
Doze anos.
Só doze.
E, de repente, algumas centenas de milhões de reais tinham sido colocadas sobre a cabeça dela.
Isabela odiava aquela frase.
Odiava ainda mais o medo que vinha junto.
A porta estava entreaberta.
Ela ouviu passos no corredor.
Dante.
"Não entra."
Ele parou.
"Eu ia bater."
"Então bate."
Dante bateu duas vezes na porta já aberta.
Isabela quase sorriu.
Quase.
"Posso?"
"Agora pode."
Ele entrou segurando uma pasta.
Isabela apontou para Sofia.
"Baixo."
Dante diminuiu a voz.
"Bruno confirmou parte das informações."
"Parte?"
"Rafael conheceu Camila em Santos."
Isabela cruzou os braços.
"Isso já sabemos."
"Não foi um caso de uma noite."
Ela ficou imóvel.
Dante colocou a pasta sobre a mesa.
"Havia aluguel de um apartamento no Gonzaga. Pago por Rafael durante onze meses."
"Para minha irmã?"
"Sim."
"Então ele sustentava ela escondida."
"Não."
"Como você sabe?"
"Porque conhecia meu irmão."
Isabela soltou uma risada sem humor.
"Você também acreditou por treze anos que ele não tinha filha."
A frase atingiu.
Dante não reagiu.
Ela se arrependeu imediatamente, mas não pediu desculpa.
"Continue."
"Camila trabalhava. O apartamento estava no nome dela. Rafael pagou apenas a entrada e alguns meses."
"Que diferença faz?"
"Faz diferença para mim."
"Por quê?"
"Porque ele não comprava pessoas."
Isabela olhou para Sofia.
"Talvez só escondesse."
Dante respirou fundo.
"Talvez."
Ela finalmente abriu a pasta.
Fotografias.
Recibos.
Registros antigos do hotel.
Camila e Rafael apareciam juntos em mais de uma imagem.
Não como colegas.
Como casal.
Em uma fotografia tirada na praia do Gonzaga, Rafael estava ajoelhado na areia enquanto Camila ria.
Isabela tocou o rosto da irmã.
Não a via daquele jeito havia treze anos.
Feliz.
"Ela amava ele", murmurou.
Dante sentou-se do outro lado.
"Ele também parecia amar ela."
"Então por que ela nunca contou?"
"Essa é a parte que precisamos descobrir."
Sofia se mexeu.
Os dois ficaram em silêncio.
A menina abriu os olhos.
"Tia?"
"Estou aqui."
Sofia sentou-se.
Olhou para Dante.
Depois para as fotografias.
"É minha mãe?"
Isabela fechou a pasta rapidamente.
Tarde demais.
"É."
"E aquele homem?"
Ninguém respondeu.
Sofia olhou para os dois.
"Vocês estão estranhos."
Isabela sentou-se na cama.
"Sofia, lembra que eu disse que não sabia muita coisa sobre seu pai?"
"Sim."
"Talvez a gente tenha descoberto quem ele era."
A menina ficou muito quieta.
"Era?"
A palavra doeu.
Isabela segurou sua mão.
"Ele morreu quando você era bebê."
Sofia baixou os olhos.
"Qual era o nome dele?"
Isabela olhou para Dante.
Ele respondeu:
"Rafael Montenegro."
Sofia ergueu a cabeça.
"Montenegro?"
Dante assentiu.
"Meu irmão."
Ela demorou alguns segundos.
"Então você é meu tio?"
Dante abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Isabela nunca imaginara assistir Dante Montenegro ficar sem resposta diante de uma menina de doze anos.
Sofia franziu a testa.
"É uma pergunta fácil."
"Biologicamente", ele disse, "parece que sim."
"Parece?"
"Precisamos confirmar."
"Com DNA?"
"Sim."
Ela pensou.
"Vai doer?"
"Um cotonete."
"Então tudo bem."
Isabela apertou a mão dela.
"Você não precisa decidir agora."
"Quero saber."
Sofia olhou para a fotografia.
"Eu sempre quis saber."
Aquilo quebrou alguma coisa dentro de Isabela.
Durante anos, tentara ser suficiente.
Tia.
Mãe.
Pai.
Casa.
Família.
Mas havia perguntas que amor nenhum conseguia apagar.
Dante percebeu.
"Isabela."
"Não."
"Você não está perdendo ela."
Isabela virou o rosto.
"Não disse que estava."
"Não precisava."
Ela se levantou.
"Você não sabe o que eu sinto."
"Sei o que é descobrir que sua família não era o que você pensava."
Dessa vez, Isabela não respondeu.
O resultado preliminar saiu dois dias depois.
Compatibilidade familiar.
Rafael Montenegro era, com probabilidade praticamente conclusiva, o pai biológico de Sofia.
Dante leu o documento no escritório.
Bruno estava diante dele.
"Tem outro problema."
"Qual?"
"Augusto já sabia."
Dante levantou os olhos.
"Como?"
"Estamos rastreando movimentações antigas. Alguém tentou localizar Camila quatro vezes depois da morte de Rafael."
"Quem?"
"Uma empresa de investigação."
"Contratada por?"
Bruno colocou um documento sobre a mesa.
Dante leu o nome.
Marcelo Ferraz.
"Filho da..."
A porta abriu.
Isabela entrou.
"Não termina."
Dante fechou a boca.
"Tem criança na casa."
"Sofia está no jardim."
"Ela escuta tudo."
Bruno entregou outro papel.
Isabela leu.
"Marcelo procurava minha irmã?"
"Desde 2013", disse Bruno.
"Por quê?"
Dante ficou em silêncio.
Isabela percebeu.
"Fala."
"Porque Rafael deixou vinte e dois por cento das ações pessoais dele num fundo sucessório."
"E?"
"Se não houvesse descendentes, as ações seriam redistribuídas."
"Para quem?"
"Para mim e outros membros da família."
"E se houvesse uma filha?"
Dante olhou diretamente para ela.
"As ações seriam dela."
Isabela sentou-se.
"Quanto valem hoje?"
"Eu já disse que..."
"Quanto?"
"Pouco mais de quatrocentos milhões de reais."
Isabela fechou os olhos.
"Meu Deus."
"Eu vou proteger ela."
"Não quero promessa."
"Então o que você quer?"
"Verdade."
Dante assentiu.
"Você vai ter."
O celular de Isabela tocou.
Hospital Santa Cecília.
Ela atendeu.
"Alô?"
A voz do outro lado estava nervosa.
"Senhora Isabela Martins?"
"Sim."
"É sobre Dona Rosa."
Isabela levantou-se.
"O que aconteceu?"
"Não conseguimos localizá-la."
Silêncio.
"Como assim?"
"Sua mãe não está no quarto."
Isabela apertou o telefone.
"Ela mal consegue andar sozinha."
"Encontramos imagens da câmera."
"Com quem?"
A funcionária hesitou.
"Ela saiu acompanhada."
"De quem?"
Isabela já sabia antes de ouvir.
"Um homem chamado Marcelo Ferraz."
No estacionamento subterrâneo de um prédio antigo no Bixiga, Dona Rosa estava sentada dentro de um carro.
Marcelo abriu a porta.
"Chegamos."
Ela olhou para a fachada abandonada do outro lado da rua.
Padaria Santa Rosa.
"Você não devia ter me trazido aqui."
"Foi você quem pediu."
Rosa virou-se lentamente.
"Porque precisava ter certeza."
"De quê?"
Ela encarou Marcelo.
"Que era você."
Ele sorriu.
"Depois de vinte e cinco anos?"
"Depois de vinte e cinco anos."
Marcelo se inclinou.
"E agora?"
Rosa respondeu:
"Agora Dante vai descobrir quem você realmente é."
O sorriso dele desapareceu.
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