"O Chefe da Máfia Provou Minha Comida… E Mandou Trancar o Restaurante" Capítulo 1 — Ninguém Sai Desta Cozinha
O prato quase caiu das mãos do garçom quando Dante Montenegro se levantou.
"Ninguém sai desta cozinha."
Não precisou gritar.
Às nove e dezessete daquela sexta-feira, o Restaurante Casa Rosália, nos Jardins, ficou tão silencioso que Isabela Oliveira Martins conseguiu ouvir o próprio coração do outro lado da porta de vaivém.
Três homens de terno preto se posicionaram perto das saídas.
Bruno Almeida, segurança particular de Dante, fechou discretamente a porta principal.
Os clientes das outras mesas começaram a olhar.
Marcelo Ferraz empalideceu.
"Meu Deus", murmurou uma auxiliar.
Isabela largou a colher sobre a bancada.
"O que aconteceu?"
Marcelo virou-se para ela.
"Você serviu alguma coisa diferente para a mesa do Montenegro?"
Isabela enxugou as mãos no avental branco.
"O cordeiro chegou congelado no centro. Eu não ia mandar aquilo."
"Eu perguntei se você mudou o prato."
"Mudei."
Marcelo fechou os olhos.
"Isabela..."
"Você queria que eu servisse carne ruim?"
"Era Dante Montenegro."
"E o estômago dele é diferente do nosso?"
Marcelo aproximou o rosto.
"Você tem ideia de quem está sentado naquela mesa?"
Isabela tinha.
Todo mundo em São Paulo conhecia o sobrenome Montenegro.
Nos jornais de negócios, Dante era presidente do Grupo Montenegro, dono de empresas de logística, hotéis, empreendimentos imobiliários e uma fortuna que ninguém conseguia calcular direito.
Nas conversas mais baixas, a história era diferente.
Falava-se em homens que desapareciam.
Dívidas que ninguém deixava de pagar.
Acordos que não chegavam aos tribunais.
Dante Montenegro tinha quarenta e dois anos e uma reputação que fazia homens ricos escolherem cuidadosamente cada palavra diante dele.
Isabela tinha trinta e nove anos e contas atrasadas.
Naquele momento, as contas assustavam mais.
"Quem preparou isto?"
A voz de Dante atravessou a porta.
Marcelo respirou fundo.
"Fica aqui."
Ele saiu.
Isabela conseguiu enxergá-lo pela pequena janela da porta.
Dante permanecia em pé ao lado da mesa.
Alto, ombros largos, terno preto impecável.
Na mão direita, segurava uma ficha de receita envelhecida.
Sobre a mesa estava o prato que Isabela improvisara.
Carne cozida lentamente, polenta cremosa, cebola, alho, alecrim e molho de vinho tinto.
Comida simples.
Comida de Dona Rosa.
Marcelo abriu um sorriso nervoso.
"Senhor Montenegro, nossa cozinha trabalha em equipe."
Dante olhou para ele.
"Não foi isso que eu perguntei."
O sorriso desapareceu.
"Quem fez minha comida?"
Marcelo olhou para a cozinha.
Isabela percebeu.
E perdeu a paciência.
Empurrou a porta.
"Eu."
Todos olharam para ela.
Marcelo sussurrou:
"Isabela, não."
Ela avançou até o salão.
Usava calça preta, camisa branca, avental e sapatos que já estavam machucando seus pés depois de quatorze horas de trabalho.
Não parecia alguém que deveria estar diante de Dante Montenegro.
Mesmo assim, parou a poucos metros dele.
"Fui eu que cozinhei."
Dante a observou lentamente.
"Seu nome."
"Isabela Oliveira Martins."
"Você preparou isso?"
"Preparei."
"Por quê?"
"O cordeiro estava ruim."
Marcelo interferiu.
"Não estava exatamente ruim..."
Isabela virou a cabeça.
"Estava congelado."
"Isabela."
"Por dentro."
Dante olhou para Marcelo.
Depois voltou para ela.
"Então você decidiu mudar meu jantar sem autorização."
"Sim."
"Poderia perder o emprego."
Isabela cruzou os braços.
"A essa altura, já percebi."
Um dos homens de Dante desviou o rosto para esconder um sorriso.
Bruno não conseguiu.
Dante percebeu, mas não comentou.
Sentou-se novamente.
Pegou o garfo.
Cortou outro pedaço da carne.
Isabela observou enquanto ele provava.
Dessa vez, algo mudou.
A mandíbula de Dante perdeu a rigidez.
Por um instante, ele não parecia o homem mais temido daquela sala.
Parecia cansado.
"De onde veio essa receita?"
"Da minha mãe."
Dante ergueu a ficha antiga.
"Esta ficha?"
Isabela franziu a testa.
Então reconheceu.
"Como isso foi parar aí?"
"Estava debaixo do meu guardanapo."
Ela se aproximou.
Era impossível confundir.
Papel amarelado.
Manchas antigas de gordura.
A letra arredondada de Dona Rosa.
Carne.
Cebola.
Alho.
Alecrim.
Isabela modificara a receita ao longo dos anos, mas aquela ficha era da mãe.
"É dela", confirmou.
Dante virou o papel.
No canto havia um número escrito com tinta azul já desbotada.
17.
"Por que esse número?"
"Não sei."
Dante levantou os olhos.
"Não sabe?"
"Minha mãe escreveu."
"O que significa?"
"Eu nunca perguntei."
"Então pergunte."
Isabela soltou uma pequena risada de incredulidade.
"Agora?"
"Agora."
"Minha mãe tem setenta e um anos, está doente e provavelmente dormindo."
Dante ficou imóvel.
"Qual é o nome dela?"
Isabela hesitou.
Não gostava da maneira como a pergunta tinha sido feita.
"Rosa Oliveira."
O pé da taça de vinho bateu contra a mão de Dante.
A taça tombou.
Vinho vermelho espalhou-se pela toalha branca.
Ninguém se mexeu.
Dante olhou fixamente para Isabela.
"Rosa Oliveira?"
"Sim."
"Ela morou no Bixiga?"
Isabela sentiu um arrepio.
"Morou."
"Trabalhou numa padaria na Rua Treze de Maio?"
Agora ela deu um passo para trás.
"Como você sabe?"
Dante não respondeu.
"Era a Padaria Santa Rosa?", perguntou.
Isabela olhou para a ficha.
Depois para ele.
"Era."
Dante fechou os olhos por um instante.
Vinte e cinco anos desapareceram.
Ele tinha dezessete outra vez.
Sem dinheiro.
Sem casa.
Com o pai preso e a mãe que acreditava estar morta.
Dormira três noites atrás de uma padaria fechada.
Na quarta noite, uma mulher o encontrou.
Rosa.
Ela não perguntou se ele era bandido.
Não perguntou de quem estava fugindo.
Não chamou a polícia.
Apenas abriu a porta dos fundos.
"Entra."
Dante se lembrava da panela amassada.
Do cheiro de alho.
Da carne cozida.
Da mulher colocando comida diante dele.
Ele devorara tudo.
Rosa fingira não perceber.
Antes de ele sair, ela escrevera num pedaço de papel:
17.
E embaixo:
"Ninguém deveria passar fome aos dezessete anos."
Dante perdera aquele papel muitos anos depois.
Mas jamais esquecera a frase.
Ele abriu os olhos.
"Quero ver sua mãe."
"Não."
Bruno olhou imediatamente para Isabela.
Marcelo quase engasgou.
Dante apenas perguntou:
"Não?"
"Não."
"Você sabe com quem está falando?"
"Infelizmente, todo mundo aqui sabe."
Bruno baixou os olhos novamente.
Isabela continuou:
"Minha mãe tem problema no coração. A memória dela falha. Você não vai aparecer na casa dela às dez da noite com três carros pretos e um exército de homens."
"Eu posso ir sozinho."
"Também não."
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
"Ela me conhece."
"Você conhece ela. Não é a mesma coisa."
"Ela me alimentou quando eu tinha dezessete anos."
Isabela parou.
A irritação desapareceu.
"O quê?"
"Eu dormia atrás daquela padaria."
Dante empurrou a ficha na direção dela.
"Sua mãe me encontrou."
Isabela olhou para o número.
"Dezessete..."
"Minha idade."
Pela primeira vez, a voz dele ficou baixa.
"Ela fez exatamente essa comida."
Isabela sentou-se sem perceber.
"Mamãe nunca contou."
"Talvez não tenha sido importante para ela."
Dante encarou o prato.
"Para mim foi."
Por alguns segundos, não havia chefe da máfia, cozinheira, seguranças ou clientes curiosos.
Havia apenas dois adultos ligados por uma noite que acontecera quando um deles ainda era um garoto faminto.
Dante olhou novamente para ela.
"Por que você trabalha aqui?"
"Porque restaurantes costumam pagar cozinheiros."
"Você sabe o que eu quis dizer."
Ela sabia.
Marcelo recebia elogios por pratos que Isabela corrigia.
Ela criava receitas que apareciam no menu sem seu nome.
Mas precisava do salário.
Dona Rosa precisava de consultas.
Remédios.
Sofia precisava de escola, roupa e comida.
Aos doze anos, a menina já perdera demais.
Isabela não podia se dar ao luxo de ter orgulho.
"Eu preciso trabalhar."
Dante olhou para Marcelo.
"Ela criou esse prato?"
"Senhor Montenegro..."
"Perguntei uma coisa."
Marcelo ficou pálido.
"Isabela."
Ela se virou.
"Precisamos conversar. Agora."
Havia alguma coisa diferente no rosto dele.
Medo.
Isabela levantou-se.
Na cozinha, Marcelo esperou a porta fechar.
"O que você contou para ele?"
"A verdade."
"Você deveria aprender que a verdade pode sair cara."
Isabela estreitou os olhos.
"O que isso significa?"
Marcelo enfiou a mão por dentro do dólmã.
Retirou um envelope.
Isabela viu o próprio nome.
ISABELA.
A letra era de Dona Rosa.
Ela parou de respirar.
"Onde você conseguiu isso?"
"Chegou aqui há três meses."
"Três meses?"
"Isabela..."
"Você está com uma carta da minha mãe há três meses?"
Ela tentou pegá-la.
Marcelo afastou a mão.
"Antes você precisa entender."
"Me dá isso."
"Esse jantar não aconteceu por acaso."
Isabela ficou imóvel.
"Do que você está falando?"
"Montenegro não escolheu esse restaurante sozinho."
"Quem trouxe ele aqui?"
Marcelo olhou para a porta dos fundos.
Trancada.
Então ouviu-se um clique.
Isabela virou.
A maçaneta começou a girar.
A porta se abriu lentamente.
Um homem de cabelos brancos entrou.
Teria quase setenta anos.
Usava sobretudo escuro e apoiava-se numa bengala.
Ele não olhou para Marcelo.
Não olhou para os funcionários.
Seus olhos foram diretamente para Isabela.
E então pronunciou um nome.
"Augusto Montenegro."
Do outro lado da porta de vaivém, uma cadeira caiu.
Dante tinha ouvido.
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