"A Enfermeira Que Mandou o Chefe da Máfia Sentar… E Descobriu Por Que Ele Nunca Deixava Ninguém Tocá-lo" Capítulo 4 — A Casa Onde Ninguém Dormia
A possibilidade de serem irmãos ergueu uma parede entre Dante e Isabela.
Ele passou a manhã na biblioteca. Ela permaneceu com Helena no quarto de hóspedes, tentando ignorar o instante na cozinha e a mão que colocara nas costas dele.
O bilhete de Augusto, porém, transformava a certeza em armadilha.
Bruno analisou a fita e encontrou uma emenda invisível a olho nu. Havia quarenta e sete segundos ausentes entre a voz de Lúcia e a frase de Augusto.
"Otávio queria que Dante acreditasse que você é irmã dele", disse Helena. "Por quê?"
"Para nos separar", respondeu Isabela. "Minha mãe disse exatamente isso."
"Separar vocês de quê?"
Isabela não respondeu.
Dante apareceu à porta.
"Do controle do grupo. Se Isabela for reconhecida como herdeira, nós dois juntos podemos afastar Otávio do conselho. Se desconfiarmos um do outro, ele mantém o voto de desempate."
Eles voltaram ao escritório de Augusto. Isabela examinou as costuras das cortinas, os fundos das gavetas e as capas dos livros como vira Lúcia esconder dinheiro durante a infância.
Atrás de um painel de madeira encontrou um cofre.
A chave 214 abriu a fechadura, mas o interior estava vazio.
No fundo havia uma mancha circular de café e um pedaço de papel preso sob a dobradiça: uma prestação de contas do Instituto Montenegro, datada de quinze anos antes, assinada por Rafael Oliveira.
Ao lado de sete transferências, Rafael escrevera: "Empresas Ferraz — notas frias".
Dante fotografou tudo.
"Ainda não prova homicídio."
"Prova motivo", disse Isabela.
Helena recebeu uma chamada e se afastou. Quando voltou, estava sem cor.
"O hospital ligou. Uma mulher deu entrada usando o nome de Lúcia Oliveira."
Dante organizou a saída em segundos. Bruno seguiria com dois carros; Helena permaneceria na mansão.
"Eu vou", ela insistiu.
"O tiro era para você."
"E a mulher conhece minha família."
"Por isso mesmo."
Isabela tocou o braço de Dante.
Ele não recuou.
"Não a tranque aqui sem explicar."
Dante respirou fundo.
"Helena, preciso que fique porque só você pode reconhecer Lúcia de quinze anos atrás. Faremos uma videochamada antes de entrar no quarto."
Helena assentiu.
Isabela percebeu a mudança. Ele ainda dava ordens, mas aprendera a mostrar o motivo.
No hospital indicado, não havia paciente registrada como Lúcia. A ligação partira de um celular descartável.
Era uma armadilha para tirar os dois da mansão.
Bruno recebeu o alerta tarde demais.
As câmeras do Jardim Europa haviam sido desligadas. Um furgão entrara pela garagem usando o código pessoal de Helena.
Dante voltou em velocidade perigosa.
A sala estava destruída. Um segurança jazia desacordado. Sobre o piano havia o colar de Helena e um telefone tocando.
Dante atendeu no viva-voz.
Otávio Ferraz falou com a calma de quem esperara quinze anos.
"Finalmente encontrou a filha de Lúcia, Dante. Seu pai sempre teve fraqueza por mulheres que queriam salvar o mundo."
"Se tocar em Helena, não haverá lugar onde possa se esconder."
"Essa frase funcionava melhor antes de você deixar uma enfermeira mandar em você."
Isabela aproximou-se do telefone.
"O que quer?"
"A chave, a fita e o papel do cofre."
"Em troca de Helena?"
"Em troca de uma escolha. Você poderá salvar Helena ou conhecer sua mãe."
Uma câmera se acendeu na tela.
Helena estava amarrada a uma cadeira num galpão. Atrás dela, uma mulher magra de cabelos grisalhos ergueu o rosto.
Isabela reconheceu os olhos antes de reconhecer as feições.
"Mãe?"
A mulher aproximou-se da câmera até a corrente presa ao tornozelo impedir.
"Belinha, não entregue nada."
A transmissão terminou.
Dante segurou a borda do piano com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Isabela pegou a chave 214.
"Ele quer fazer uma troca."
"Não vou entregar você."
"Não pedi autorização."
"Desta vez não."
Ela se colocou diante dele.
"Sua irmã está lá por causa de um segredo da minha família."
"E sua mãe também."
"Então vamos buscar as duas."
Dante abriu a mão.
Isabela colocou a dela sobre a dele.
"Juntos", disse ela.
O telefone vibrou com o endereço e uma condição final:
Isabela deveria entrar sozinha.
Antes de o telefone silenciar, ouviu-se ao fundo o sino de uma estação ferroviária e a passagem de um trem de carga. Bruno isolou o som e cruzou horários. Havia apenas três galpões abandonados próximos à linha que combinavam com a imagem.
"Ele quer que encontremos o lugar", disse Isabela.
"Quer que cheguemos pelo caminho que preparou", respondeu Dante.
Helena surgira no vídeo com uma marca de tinta azul no polegar. Quando crianças, ela e Dante usavam cores para indicar perigo durante as explosões do pai: azul significava saída pela esquerda.
Dante ampliou o quadro. À esquerda de Helena havia uma porta metálica refletida num espelho quebrado.
"Ela está nos dando uma rota."
Bruno convocou a Divisão Antissequestro, mas explicou que alguns policiais poderiam estar ligados ao antigo delegado Teles. Apenas uma equipe pequena receberia o endereço real.
Isabela entrou na cozinha e encontrou Lúcia na memória de cada objeto simples. Lembrou-se da mãe escondendo moedas em barras de vestido, ensinando que um lugar seguro nunca era o mais óbvio.
Ela examinou novamente a chave 214. Sob a etiqueta do banco havia letras quase apagadas: FMM.
"Fundação Montenegro para Menores", disse Helena certa vez sobre o antigo nome do instituto.
A chave não abrira apenas o cofre. O número 214 podia indicar um armário dentro da fundação.
"Otávio acha que tem a última prova", disse Isabela. "Mas procura a chave porque ainda falta alguma coisa."
Dante ordenou que um segurança verificasse o instituto sem tocar no armário. A fotografia recebida mostrava um corredor de arquivos e a porta 214 intacta.
Agora possuíam uma vantagem.
Isabela preparou cópias falsas do papel e uma fita sem conteúdo. Dante observou-a guardar os objetos numa bolsa.
"Se algo der errado, diga a frase 'minha mãe odiava chuva'. Bruno entra, mesmo que Helena esteja sob ameaça."
"E você?"
"Estarei perto."
"Isso não responde."
"Não sei prometer que ficarei parado se ele tocar em você."
Isabela se aproximou.
"Então prometa que vai ouvir minha voz antes da sua raiva."
Ele abriu a mão entre os dois.
Ela a segurou.
"Eu prometo tentar."
Não era a promessa perfeita que Isabela desejava. Era mais valiosa: a única que Dante tinha certeza de poder cumprir.
Quando partiram, a chuva cobria São Paulo. No banco traseiro, Isabela repetia mentalmente o plano. Dante, ao lado, mantinha a mão aberta sobre o assento.
Ela pousou os dedos sobre os dele.
Nenhum dos dois falou.
O carro parou a duas quadras do galpão, e Bruno entregou a Isabela o microfone escondido.
No fone, a última mensagem de Otávio chegou como um sussurro:
"Entre sozinha ou verá as duas morrerem diante de Dante."
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