"Os Gêmeos do Chefe da Máfia Chamaram a Empregada de Mãe" Capítulo 7 — O Homem Que Dante Chamava de Irmão
Dante mandou as crianças para a sala de jogos.
Luísa se recusou a sair sem Rafael.
“Tio Rafa fica.”
“Ele precisa conversar comigo”, disse Dante.
A menina segurou o paletó do segurança.
“Não bate.”
Dante olhou para a própria mão fechada.
Helena se ajoelhou diante de Luísa.
“Eu fico com ele. Ninguém vai bater em ninguém.”
Dante abriu os dedos lentamente.
“Helena tem minha palavra.”
Quando os três pequenos saíram, Rafael retirou a arma, o telefone e o distintivo interno da família. Colocou tudo sobre a mesa.
“Se quiser me mandar embora, eu aceito.”
“Eu quero a verdade.”
“Talvez depois dela você prefira me matar.”
“Não dramatize. Fale.”
Rafael contou que Lorena o procurara seis meses antes do acidente. Ela descobrira pagamentos da fundação a clínicas privadas e temia que Dante reagisse atacando pessoas antes de reunir provas.
“Ela estava certa”, disse Helena.
Dante não contestou.
Lorena pediu a Rafael que vigiasse Camila e Luísa. Em troca, prometeu revelar tudo quando conseguisse retirar Cecília legalmente da fundação.
“Por que esconder Luísa de mim?”
“Porque havia dúvida sobre quem assinara as ordens. Alguns documentos tinham sua assinatura digital.”
“Você acreditou que eu vendia embriões?”
“Acreditei que alguém usava seu nome. Lorena também. Mas, se estivéssemos errados, entregar Luísa ao senhor seria colocá-la nas mãos do responsável.”
Dante caminhou até a janela.
“Na noite do acidente?”
Rafael respirou fundo.
Lorena encontrara Camila e Luísa na casa sobre o canal. Depois saiu para confrontar Cecília num estacionamento. Rafael a seguira, mas foi atraído por uma ligação falsa informando que homens armados haviam invadido a casa.
“Quando percebi a armadilha, Lorena já estava na serra.”
“Você viu o acidente?”
“Cheguei sete minutos depois. O carro tinha atravessado a proteção e parado entre as árvores. Ela ainda estava viva.”
Dante se virou.
“Você falou com ela?”
“Segurei sua mão.”
“E não me disse.”
“Ela pediu que eu protegesse as crianças e não confiasse na família até encontrar Helena.”
Dante agarrou Rafael pelo colarinho.
“Quais foram as últimas palavras dela?”
Rafael não desviou o olhar.
“Diga a Dante que eu não fui embora porque deixei de amá-lo.”
A raiva saiu do rosto de Dante, substituída por uma dor mais antiga.
Ele soltou Rafael.
Helena percebeu que Lorena não era obstáculo entre eles. Era uma mulher que também fora usada e que morrera tentando devolver escolhas a desconhecidas.
“Havia mais alguém com ela?”
“Um paramédico chegou antes da equipe oficial. Aplicou alguma coisa no acesso venoso. Lorena perdeu a consciência.”
“Nome?”
“O crachá dizia Mauro Reis. Ele desapareceu naquela noite.”
Rafael entregou uma pasta que guardara fora da mansão. Dentro havia cópias dos pagamentos a Mauro, fotografias de Cecília entrando no Instituto Aurora e uma carta de Rosa Duarte.
Helena reconheceu a letra da mãe.
A carta dizia que Rosa aceitara dinheiro de Cecília, mas não para ficar calada. Recebera R$ 30 mil para levar Helena para longe antes que uma segunda coleta fosse realizada.
“Minha mãe tentou me salvar.”
A carta descrevia uma casa perto do Mercado de Peixes, onde Rosa escondera negativos. Uma equipe encontrou uma lata sob o assoalho. As fotos mostravam Cecília recebendo caixas térmicas do Aurora e Mauro Reis dirigindo o carro usado na morte do pai de Dante.
Uma imagem registrava Bianca adolescente ao fundo. Ela não participava da reunião, mas sua presença explicava por que Cecília a controlara durante tantos anos.
“Ela cresceu vendo coisas que não podia contar”, disse Helena.
“Isso explica o medo”, respondeu Dante. “Não absolve as escolhas.”
“Nem o seu medo absolve tudo que fez.”
“Eu sei.”
Era a primeira vez que ele admitia culpa sem transformá-la em ameaça.
“E guardou parte da prova”, disse Rafael.
No fim da carta, Rosa mencionava uma mulher chamada Marta que trabalhara como recepcionista no Aurora e testemunhara as falsificações.
“Marta de quê?” perguntou Helena.
“Não há sobrenome”, respondeu Rafael. “Mas Lorena circulou uma palavra: irmã.”
Helena pensou na família da mãe. Rosa dizia ser filha única e evitava falar do passado.
“Minha mãe tinha uma irmã?”
Helena abriu a carteira e encontrou uma fotografia antiga de Rosa diante da praia do Gonzaga. Ao lado dela, havia uma segunda mulher que Helena sempre acreditara ser colega de escola. No verso, quase apagadas, estavam as iniciais M.D.
“Ela esteve na minha casa quando eu era pequena”, disse Helena. “Lembro de uma mulher me dando uma caixa de lápis.”
Celina confirmou. Marta visitara Rosa escondida depois de ser expulsa da mansão. As irmãs brigaram quando Marta acusou Cecília de fabricar o suposto roubo.
“Rosa acreditou em Cecília porque a fundação pagava o tratamento do marido”, explicou Celina. “Quando percebeu a mentira, já devia dinheiro e favores.”
Dante encarou a governanta.
“Por que nunca me contou?”
“Porque eu tinha medo de perder meu emprego e desaparecer como elas.”
“Todos nesta casa tinham medo.”
“Inclusive o senhor”, respondeu Celina. “Só que o medo do senhor sempre pareceu raiva.”
Dante aceitou a crítica em silêncio.
Helena guardou a fotografia. A cada nova verdade, descobria que pessoas comuns haviam visto pedaços do crime, mas nenhuma se sentira segura para falar. Cecília não governava apenas com dinheiro. Governava fazendo cada testemunha acreditar que estava sozinha.
“Então vamos colocá-las na mesma sala”, disse Helena. “E mostrar que não estão.”
Celina entrou sem bater.
“Tinha.”
Todos olharam para a governanta.
“Como sabe?”
Celina fechou a porta.
“Porque Marta trabalhou nesta casa.”
Anos antes, quando Dante ainda era adolescente, Marta Duarte fora contratada para cuidar da mãe dele. Após a morte da patroa, Cecília a acusou de roubo e a expulsou. Rosa cortou relações com a irmã por acreditar na acusação.
“Marta voltou usando outro nome”, disse Celina. “Foi trabalhar no Instituto Aurora para descobrir o que Cecília fazia.”
“Onde ela está?”
“Não sei. Recebi um cartão dela há dois meses. Sem endereço.”
O cartão mostrava uma igreja em Atibaia. No verso havia uma data futura: domingo, dez horas.
Era o dia seguinte.
Dante decidiu ir pessoalmente. Rafael pediu para acompanhá-lo, mas Dante recusou.
“Você fica com as crianças.”
“Isso é punição?”
“É a única missão em que ainda confio plenamente em você.”
Rafael aceitou.
Naquela noite, Helena encontrou Dante sozinho na cozinha. Ele segurava a carta de Lorena e não percebera sua chegada.
“Tomás perguntou por você”, disse ela.
“Ele aprendeu palavras demais num dia.”
“Talvez tenha guardado todas.”
Dante passou a mão pelo rosto.
“Eu achava que o silêncio deles era luto por Lorena. Agora penso que ouviam a voz de uma irmã escondida todas as noites e não sabiam explicar.”
Helena sentou-se diante dele.
“Eles não precisam que o senhor explique o passado inteiro. Precisam que esteja lá amanhã.”
“Você fala como se fosse simples.”
“Não é simples. É diário.”
Ele a olhou por tempo demais.
“Vai reivindicar a guarda?”
“Vou reivindicar o direito de ser mãe.”
“E isso significa me tirar os meninos?”
“Não. Significa impedir que alguém escolha por nós de novo.”
Dante aproximou a mão da dela, mas parou antes de tocar.
Helena completou o gesto.
O beijo aconteceu sem promessa. Breve, cansado e verdadeiro. Quando se afastaram, Tomás apareceu à porta segurando um copo.
“Água.”
Dante levantou-se, quase aliviado com a interrupção.
Na manhã seguinte, Dante e Helena chegaram à igreja de Atibaia. A missa terminava. Uma mulher de cabelos grisalhos os esperava no último banco.
“Marta Duarte?” perguntou Helena.
A mulher virou-se.
Não era Marta.
Era Rosa Duarte.
A mãe que Helena enterrara quatro anos antes estava viva.
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