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"Os Gêmeos do Chefe da Máfia Chamaram a Empregada de Mãe" Capítulo 5 — A Terceira Criança

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O carro que levou Luísa saiu de Campinas às seis e vinte da manhã.

Às oito, atravessou um pedágio na Rodovia dos Bandeirantes. Às nove e dezessete, desapareceu das câmeras depois de entrar num galpão pertencente à Fundação Montenegro.

Dante assistiu ao vídeo em silêncio.

Helena não conseguiu.

“Volte.”

Rafael retornou alguns segundos. Na tela, Luísa caminhava de mãos dadas com a mulher mascarada. A menina não parecia dopada nem ferida. Parecia confiar nela.

Antes de entrar no carro, Luísa olhou diretamente para a câmera e apertou contra o peito o desenho dos dois meninos.

“Ela sabe quem eles são”, disse Helena.

“Ou alguém ensinou”, respondeu Rafael.

Dante pegou o telefone.

“Feche todas as saídas do galpão.”

“Não há ninguém lá agora”, explicou Rafael. “A equipe chegou há vinte minutos. Encontrou o veículo abandonado e sangue no banco do motorista.”

Helena sentiu as pernas enfraquecerem.

“Da menina?”

“Ainda não sabemos.”

Dante segurou o braço dela antes que caísse. Helena se afastou assim que recuperou o equilíbrio.

“Não esconda nada de mim.”

“Não vou esconder.”

“Nem para me proteger.”

“Principalmente para protegê-la.”

O telefone de Rafael tocou. O homem capturado no incêndio sobrevivera, mas continuava inconsciente. A cápsula continha um sedativo veterinário, não veneno. Alguém queria que ele parecesse disposto a morrer.

“Talvez nem soubesse o que estava mordendo”, disse Helena.

“Homens desesperados obedecem melhor quando acreditam que não têm retorno”, afirmou Dante.

A frase revelou mais sobre o mundo dele do que Helena queria saber.

Voltaram à mansão pouco antes do meio-dia. Tomás e Miguel correram pelo hall assim que viram Helena. Nenhum dos dois costumava correr para receber o pai.

Tomás abraçou a cintura dela.

“Mamãe Helena voltou.”

Miguel apontou para Dante.

“Papai também.”

Dante parou no último degrau.

Foi a primeira vez que um dos filhos o chamou de pai.

Helena viu a emoção atingir aquele homem como um golpe. Dante se ajoelhou, mas não tentou puxar Miguel para perto.

“Pode dizer de novo?”

Miguel encostou a mão no rosto tatuado.

“Papai.”

Dante fechou os olhos por um instante.

Bianca observava do mezanino. Cecília permanecia confinada, mas a noiva tinha liberdade para circular. Seu rosto endureceu quando os quatro se reuniram no hall como uma família improvisada.

“Que cena comovente”, disse ela. “Só falta alguém lembrar que Lorena existiu.”

Dante se levantou.

“Lorena está presente em cada descoberta que fazemos.”

“E Helena ocupa o lugar dela com uma rapidez impressionante.”

“Eu não quero o lugar de ninguém”, respondeu Helena.

Antes que Bianca respondesse, a defensora de Helena chegou com uma ordem para preservar todos os prontuários. Explicou que o DNA não transferia guarda automaticamente, mas comprovava um crime reprodutivo e dava a Helena direito de participar de qualquer decisão médica.

“Então ela não pode levar meus filhos”, disse Dante.

“Nem o senhor pode impedi-la de conhecê-los”, respondeu a defensora.

Helena percebeu que Dante temia a mesma coisa que ela: perder crianças que já sentiam como suas.

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“Não vou arrancá-los desta casa.”

“E eu não vou comprar seu silêncio.”

“Ótimo. Porque eu não estou à venda.”

Um técnico examinou os arquivos sonoros encontrados no quarto. A gravação de Luísa havia sido atualizada todos os meses. Nos primeiros arquivos, ela balbuciava. Nos últimos, pronunciava Tomás e Miguel com clareza.

Rafael cruzou as datas com as entradas da garagem. Em cada atualização, um carro da Fundação Montenegro estivera na casa.

“Cecília manteve os três conectados”, concluiu Helena.

“Para quê?” perguntou Dante.

“Talvez esperasse que um deles revelasse o segredo sem entender.”

Bianca desceu.

“Quer apenas os filhos, a casa e o homem?”

“Quero encontrar uma menina retirada de uma clínica com documentos falsos.”

Bianca perdeu a cor por uma fração de segundo.

“Que menina?”

Dante percebeu.

“A terceira criança.”

“Isso é absurdo.”

“Você aprovou a contratação de Helena ontem à noite. Por quê?”

Bianca olhou para Cecília, que surgira no corredor acompanhada por um segurança.

“Porque Celina precisava de uma substituta.”

“Havia outras seis candidatas.”

“Escolhi a primeira da lista.”

“Helena era a quarta”, disse Rafael.

Bianca apertou o corrimão.

“Cecília pediu que eu a escolhesse.”

A tia de Dante não negou.

“Eu soube que Lorena havia deixado um arquivo programado. Precisava descobrir se Helena ativaria alguma coisa.”

“Então conhecia minha identidade”, disse Helena.

“Conhecia um nome num prontuário antigo.”

“Conhecia Rosa Duarte?”

Cecília sustentou o olhar.

“Sua mãe tentou me extorquir.”

Helena atravessou o hall antes que alguém pudesse detê-la.

“Mentira.”

“Ela descobriu o que a clínica fazia e pediu dinheiro para ficar calada.”

Helena ergueu a mão, mas Dante segurou seu pulso antes do tapa.

“Não dê a ela a chance de chamar você de agressora.”

“Minha mãe morreu por causa dessa mulher.”

“Ainda não temos a prova.”

Cecília sorriu.

“Escute Dante. Ele finalmente aprendeu a diferença entre suspeita e verdade.”

Rafael recebeu o laudo do sangue encontrado no carro. Não era de Luísa.

Pertencia a Camila Nogueira.

“Ela está ferida”, disse Helena.

“Ou alguém colocou o sangue para simular uma luta”, respondeu Rafael.

Um alerta apareceu no sistema de segurança. Havia uma transmissão ao vivo da câmera instalada no antigo quarto de Lorena.

Na imagem, Luísa estava sentada sobre a cama.

Usava um casaco amarelo e segurava uma boneca sem um dos olhos.

Helena correu escada acima. Dante veio atrás. Quando abriram a porta, o quarto estava vazio.

A transmissão era gravada.

No espelho havia uma frase escrita com batom:

Troquem o livro-caixa pela menina. Sozinhos. À meia-noite.

Tomás e Miguel apareceram no corredor. Ao verem a imagem congelada de Luísa, os dois se aproximaram da tela.

“Lua”, disse Tomás.

“Vocês conhecem essa menina?” perguntou Helena.

Miguel assentiu.

“Lua canta quando a gente dorme.”

Dante ficou imóvel.

Os gêmeos nunca haviam encontrado Luísa acordados. Alguém, porém, colocara a voz dela no quarto deles.

Rafael verificou o sistema de som. Dentro do aparelho havia um cartão com arquivos de canções gravadas por uma criança. Um deles tinha sido acessado todas as noites durante três anos.

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Era a mesma cantiga que Helena aprendera com Rosa.

No fim do último arquivo, uma mulher sussurrava:

“Quando os três estiverem juntos, procurem a casa onde o mar entra pela janela.”

Helena reconheceu a voz.

“É Camila.”

O arquivo tinha um ruído repetido a cada doze segundos. Rafael isolou o som: sino de navio, gaivotas e uma buzina grave.

“Zona portuária”, disse Helena. “Perto dos armazéns antigos.”

No código de áudio havia coordenadas incompletas e a palavra Valongo.

Dante reconheceu um galpão usado pela fundação para armazenar doações internacionais.

“Cecília escolheu um imóvel meu para a troca.”

“Porque sabe que o senhor hesitará antes de chamar a polícia para dentro dele”, respondeu Helena.

Dante enviou uma cópia das provas à defensora e à delegada Camila

Azevedo. Se não retornassem até uma da manhã, tudo iria para a imprensa.

“Assim ninguém pode apagar nós dois”, disse ele.

Helena corrigiu:

“Nós cinco.”

Dante olhou para a hora. Faltavam onze horas para a troca.

Ele mandou copiar os livros e preparar uma pasta falsa.

“Vamos buscar Luísa.”

Às onze e quarenta, chegaram ao armazém indicado na mensagem, na zona portuária de Santos. Helena vestia um colete sob o casaco. Dante levava a pasta. Rafael monitorava de um prédio vizinho.

No centro do galpão havia uma cadeira vazia e um celular.

O aparelho tocou.

“Coloque o livro no chão”, ordenou uma voz distorcida.

Dante obedeceu.

“Mostre a menina.”

Uma tela se acendeu. Luísa estava dentro de um carro, chorando em silêncio. Uma mulher mascarada segurava seu ombro.

Helena se aproximou da câmera.

“Luísa, eu sou Helena.”

A menina arregalou os olhos.

“Mamãe do espelho.”

Helena perdeu o ar.

Antes que pudesse responder, as luzes se apagaram. Um motor arrancou do lado de fora. Dante puxou Helena para trás de uma pilastra enquanto tiros atingiam o chão.

Rafael e os seguranças invadiram o galpão.

Quando as luzes voltaram, a pasta tinha desaparecido.

No celular, a transmissão mostrava o carro vazio.

Sobre o banco estava o casaco amarelo de Luísa.

E, refletido no vidro, aparecia o rosto de Bianca Ferraz.

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