"Os Gêmeos do Chefe da Máfia Chamaram a Empregada de Mãe" Capítulo 4 — O Instituto Aurora
O Instituto Aurora ainda estava queimando quando Dante e Helena chegaram.
As chamas saíam pelas janelas do segundo andar, iluminando a rua estreita da Vila Mathias. Bombeiros puxavam mangueiras pela calçada. Uma faixa de isolamento mantinha os curiosos afastados.
Rafael olhou para o relógio.
“O incêndio começou vinte e seis minutos depois que abrimos o armário.”
“Alguém monitora os arquivos de Lorena”, disse Helena.
Dante desceu do carro.
“Ou monitorava a chave.”
O prédio estava oficialmente fechado havia dois anos, mas uma sala no térreo tinha luz antes do incêndio. Um vizinho contou ter visto uma mulher sair pela porta dos fundos carregando uma caixa.
“Cabelo claro, uns cinquenta ou sessenta anos”, explicou. “Entrou num carro preto.”
Helena mostrou uma foto de Cecília.
O homem hesitou.
“Parecida. Não vi o rosto direito.”
Dante não demonstrou reação, mas telefonou para a mansão. Cecília continuava no quarto, sob vigilância.
“Então ela tem alguém trabalhando por ela”, concluiu Rafael.
Uma bombeira informou que o foco começara na sala de arquivos. Não havia sinal de falha elétrica. Alguém espalhara acelerante sobre armários e computadores.
Helena observou a fachada azul-clara. Quatro anos antes, entrara ali acreditando que receberia ajuda. Lembrou-se de Rosa insistindo em acompanhá-la e de uma recepcionista que separara mãe e filha na porta do centro cirúrgico.
“Minha mãe discutiu com alguém naquele corredor.”
“Consegue lembrar quem?” perguntou Dante.
“Uma mulher de salto. Eu estava sedada quando ela chegou.”
“Cecília?”
“Não sei.”
Rafael recebeu autorização dos bombeiros para verificar o anexo dos fundos, ainda não atingido. O teto podia ceder, por isso teriam poucos minutos.
Dante mandou Helena esperar.
“Não.”
“Isto não é negociação.”
“Foi aqui que roubaram parte do meu corpo. Se existir alguma coisa que eu possa reconhecer, vocês não reconhecerão por mim.”
Ele a encarou.
“Fique entre mim e Rafael.”
Entraram com máscaras fornecidas pela equipe. A fumaça ardia nos olhos.
O corredor permanecia igual à memória de Helena, apenas mais estreito e coberto de fuligem.
Na antiga sala de recuperação, seis camas enferrujavam sob lençóis plásticos. Ela caminhou até a última.
“Eu acordei aqui.”
Uma faixa de azulejos perto do chão tinha cor diferente. Helena se ajoelhou e bateu com os dedos. O som era oco.
“Minha mãe ficava olhando para essa parede.”
Rafael usou uma barra de ferro deixada pelos bombeiros. O primeiro azulejo se partiu. Atrás dele havia um compartimento estreito com três livros-caixa protegidos por sacos térmicos.
“Lorena sabia”, disse Dante.
“Ou minha mãe escondeu.”
Passos ecoaram no corredor.
Rafael apagou a lanterna. Uma figura surgiu entre a fumaça, usando máscara e uniforme de bombeiro. Em vez de chamar por sobreviventes,
levantou uma pistola com silenciador.
Dante empurrou Helena atrás da cama.
O primeiro disparo atingiu a parede. Rafael avançou pela lateral e derrubou o agressor antes do segundo tiro. Os dois lutaram no chão até Dante arrancar a arma da mão do homem.
“Quem mandou você?”
O agressor mordeu alguma coisa escondida no dente.
Rafael segurou seu maxilar, mas era tarde. O homem perdeu a consciência.
Uma cápsula transparente caiu de sua boca.
“Ele preferiu morrer”, disse Helena.
“Não morreu ainda.” Rafael verificou o pulso. “Precisamos tirá-lo daqui.”
O teto estalou.
Dante entregou os livros a Helena, ergueu o agressor com Rafael e correu para a saída. Uma viga caiu atrás deles, fechando o corredor.
Do lado de fora, paramédicos assumiram o homem. Ele não portava documentos. No bolso havia apenas uma fotografia recente de Helena saindo de seu antigo apartamento em Santos.
Rafael fotografou a caligrafia antes que Dante amassasse o papel. Depois comparou a letra com autorizações recentes da Fundação Montenegro.
“Não foi Cecília quem escreveu”, disse. “Mas o papel saiu do bloco usado no escritório da presidência.”
“Quantas pessoas têm acesso?” perguntou Helena.
“Cecília, dois diretores e Bianca, porque ela coordena os eventos beneficentes.”
Dante ergueu os olhos.
“Bianca não deveria ter acesso a documentos operacionais.”
“Recebeu uma credencial temporária na semana passada. A solicitação veio da conta de Cecília.”
Helena lembrou-se da visita de Bianca ao quarto e do aviso para não confundir biologia com lugar. Aquilo podia ser ciúme. Também podia ser medo.
“Ela sabia que eu chegaria à mansão?”
Rafael consultou a escala dos empregados.
“Seu nome foi incluído ontem, às vinte e três e quarenta. A substituição foi aprovada pessoalmente por Bianca.”
Se Bianca escolhera Helena para trabalhar no almoço, sua chegada talvez não tivesse sido acaso.
No verso, uma ordem escrita à mão:
Recuperar registros. Não tocar nos meninos. A mulher pode ser descartada.
Dante amassou o papel.
“A partir de agora, você não fica sozinha.”
“Não quero um carcereiro.”
“Vai ter proteção.”
“Qual é a diferença?”
“Proteção obedece a você. Carcereiro obedece a mim.”
“E qual está oferecendo?”
Ele sustentou o olhar dela.
“As duas coisas, se for necessário para mantê-la viva.”
No galpão seguro da família, Rafael fotografou cada página dos livros.
Os registros usavam códigos, mas Lorena deixara no caderno uma tabela parcial de correspondência.
Helena encontrou o próprio número: HD-0417.
Na coluna de procedimento, constavam vinte e quatro óvulos coletados.
Dezessete foram classificados como viáveis. Nove haviam sido vendidos a duas clínicas particulares. Três foram fecundados com material identificado apenas como DM.
“Dante Montenegro”, disse Helena.
Ele não negou.
“Lorena e eu entregamos material à clínica no mesmo mês.”
“Dois embriões foram para sua esposa.”
“E o terceiro?”
A linha estava coberta por tinta preta. Rafael usou luz infravermelha do equipamento de perícia. Sob a rasura surgiu outro código: transferência externa, receptora CN-0921.
“Camila Nogueira”, disse Helena. “As iniciais são dela.”
“Pode ser coincidência”, respondeu Rafael.
“Nesta história, coincidências custam caro demais.”
O livro seguinte continha pagamentos mensais feitos pela Fundação Montenegro à Clínica Santa Augusta, em Campinas. A beneficiária era uma criança registrada apenas como L.S.N.
Os pagamentos começavam três anos e oito meses antes.
A mesma idade dos gêmeos.
Havia ainda uma coluna chamada observação clínica. Nos dois primeiros anos, as anotações registravam consultas comuns. Depois apareciam exames repetidos e uma ordem para impedir qualquer coleta genética externa.
“Eles escondiam o DNA dela”, disse Helena.
Rafael encontrou o nome do médico responsável. O profissional deixara o Brasil seis meses antes, depois de receber R$ 480 mil de uma empresa de fachada ligada ao Instituto Aurora.
Dante ordenou o bloqueio das contas e o envio imediato dos dados à delegada Camila Azevedo.
“A polícia?” perguntou Helena.
“Se existe uma criança, isto deixou de ser apenas assunto da família.”
“Nunca foi apenas assunto da sua família.”
Ele aceitou a correção com um movimento de cabeça.
Dante pediu uma busca imediata. A clínica existia, mas não era de fertilidade. Tratava crianças com doenças raras e mantinha uma ala residencial financiada por doações.
Rafael conseguiu o arquivo de admissão de L.S.N.
“Nome: Luísa de Souza Nogueira. Data de nascimento: a mesma de Tomás e Miguel.”
Helena ficou em pé tão depressa que a cadeira tombou.
“Tem fotografia?”
Rafael girou a tela.
A menina tinha cabelos escuros, olhos cor de mel e uma pequena marca em forma de meia-lua abaixo da orelha.
Era o rosto de Helena aos três anos.
Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos.
“Ligue para a clínica. Ninguém toca nessa criança até chegarmos.”
Rafael discou. Uma atendente respondeu, consultou o sistema e pediu que aguardassem.
Quando voltou, sua voz estava nervosa.
“A menina não está mais aqui.”
“Quem a retirou?” perguntou Rafael.
“A mãe biológica.”
Helena arrancou o telefone da mão dele.
“Qual é o nome dessa mulher?”
Do outro lado, a atendente respirou fundo.
“Dra. Camila Nogueira.”
“Em que horário?” insistiu Helena.
“Às seis e doze da manhã. Ela apresentou uma decisão de tutela e o passaporte da criança.”
Rafael pediu as imagens das câmeras. A atendente hesitou até Dante dizer o sobrenome. Minutos depois, um vídeo chegou ao telefone.
A mulher usava boné e máscara, mas mancava da perna direita. Levava Luísa pela mão e olhava repetidamente para trás. Antes de entrar no carro, a menina deixou cair um papel amarelo. A câmera ampliada mostrou o desenho de dois meninos iguais diante de uma casa preta.
“Ela sabia dos irmãos”, disse Helena.
No segundo arquivo, a placa do veículo apareceu por um instante. Era de uma empresa de transportes contratada havia anos pela Fundação Montenegro.
Helena olhou para Dante.
Cecília dissera que Camila estava morta.
Mas a médica retirara Luísa da clínica quarenta e oito horas antes.
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