"Os Gêmeos do Chefe da Máfia Chamaram a Empregada de Mãe" Capítulo 3 — A Voz da Mulher Morta
Dante leu o bilhete sem piscar.
Depois virou a folha, como se esperasse encontrar uma explicação no verso.
Não havia nada.
“Lorena escreveu isso?” perguntou Helena.
“É a letra dela.”
Cecília estendeu a mão.
“Deixe-me ver.”
Dante dobrou o papel antes que ela o tocasse.
“Você vai esperar.”
Foi a primeira vez que Helena viu medo verdadeiro no rosto de Cecília. A mulher tentou escondê-lo atrás de indignação.
“Eu criei você depois da morte da sua mãe.”
“E Lorena morreu mandando que eu procurasse você.”
“Uma frase fora de contexto não transforma sua tia em inimiga.”
“Então ajude a colocar no contexto.”
Cecília olhou para o gravador.
“Não sei o que há nisso.”
“Mas sabe onde a chave entra?”
Ela não respondeu.
Dante pegou o telefone interno e cancelou todos os acessos administrativos de Cecília à fundação. A tia percebeu imediatamente o alcance da ordem.
“Você está me afastando da instituição que construí?”
“Estou impedindo que alguém apague o que Lorena tentou preservar.”
“Seu pai colocou aquela fundação nas minhas mãos.”
“Meu pai também me ensinou que lealdade sem fiscalização é apenas cegueira bem vestida.”
Cecília olhou para Helena com desprezo.
“Uma empregada entra nesta casa pela manhã e, antes da noite, você entrega a ela o poder de romper nossa família.”
Helena se levantou.
“Eu não rompi nada. Só apareci no lugar onde esconderam os pedaços.”
Rafael disfarçou uma reação. Dante não. Pela primeira vez naquela noite, o canto de sua boca quase se moveu, mas a sombra desapareceu quando Cecília apontou para os meninos.
“Se essa mulher reivindicar a guarda, você perderá seus filhos.”
“Não use meus filhos para proteger seus segredos.”
Dante pediu a Rafael que retirasse todos do escritório. Cecília recusou-se a sair até dois seguranças se aproximarem. Bianca acompanhou-a, lançando a Helena um olhar que prometia cobrança.
Celina levou os meninos para o quarto. Dessa vez, Tomás aceitou ir depois que Helena prometeu encontrá-lo pela manhã.
“Mamãe volta?” ele perguntou, juntando duas palavras com esforço.
Helena fechou os olhos por um segundo.
“Helena volta.”
“Mamãe Helena.”
Dante desviou o rosto, mas não antes que ela percebesse o brilho em seus olhos.
Quando ficaram sozinhos, ele colocou o gravador sobre a mesa.
“Você não precisa ouvir.”
“Meus óvulos foram roubados. Seus filhos nasceram desse roubo. Sua esposa sabia quem eu era. Eu preciso ouvir.”
Dante apertou o botão.
Primeiro veio um chiado. Depois, a voz de uma mulher jovem, cansada e firme.
“Dante, se você está ouvindo isto, eu falhei em contar pessoalmente.”
Ele segurou a borda da mesa.
“Quando começamos o tratamento, disseram que a doadora era voluntária, maior de idade e protegida por sigilo. Eu acreditei. Depois do nascimento dos meninos, encontrei uma cobrança duplicada do Instituto Aurora. Havia um código que aparecia tanto no meu prontuário quanto numa lista de cirurgias sociais.”
Helena sentiu frio.
“Procurei a paciente. Helena Rosa Duarte. Vinte e cinco anos. O prontuário dizia que ela autorizara a coleta, mas a assinatura fora inserida seis dias depois da cirurgia. A câmera do centro cirúrgico ficou desligada durante duas horas.”
Dante interrompeu a gravação.
“Ela sabia havia três anos.”
“Talvez estivesse tentando provar.”
“Poderia ter me contado.”
“Talvez não confiasse em quem estava perto do senhor.”
Ele olhou para o bilhete.
“Nem em mim.”
Helena reconheceu a culpa. Tinha carregado a mesma coisa depois da morte do pai: a certeza irracional de que uma pergunta feita mais cedo teria mudado tudo.
“Continue.”
Dante apertou o botão novamente.
“Camila Nogueira confirmou que mulheres pobres eram encaminhadas ao Aurora com diagnósticos falsos. Durante a anestesia, a equipe coletava óvulos e os vendia por meio de uma empresa intermediária. A Fundação Montenegro pagava o programa. Não encontrei prova de que Dante soubesse.”
Ele soltou o ar.
“Ainda não.”
“O quê?”
“Ela disse que ainda não encontrara prova.”
“Isso também significa que não encontrou prova de que soubesse.”
Dante se afastou da mesa.
“Minha assinatura está nos repasses da fundação.”
“Assinar orçamento não é escolher pacientes.”
“No meu mundo, não saber o que financia também é culpa.”
A gravação prosseguiu.
Lorena contava que tentara localizar Helena, mas Rosa Duarte retirara a filha de Santos depois de receber ameaças. Meses depois, Rosa morrera num atropelamento registrado como acidente.
Helena derrubou a cadeira.
“Minha mãe morreu atravessando a rua.”
“Foi o que disseram”, respondeu a voz gravada. “Mas uma testemunha afirmou que o carro aguardava com o farol apagado.”
Helena atravessou o escritório e arrancou o gravador da mesa.
“Pare.”
Dante desligou.
Ela tentou respirar, mas o ar não chegava. Durante quatro anos culpara Rosa por ter saído à noite em meio à chuva. Agora uma mulher morta dizia que talvez aquela caminhada não tivesse sido acaso.
“Você sabia que sua mãe tentava falar com alguém da fundação?” perguntou Dante.
“Ela começou a esconder papéis. Dizia que tinha cometido um erro ao confiar numa mulher elegante. Eu achei que era por causa das dívidas do meu pai.”
“Que mulher?”
“Ela nunca disse o nome.”
Dante pegou um copo de água, mas Helena não conseguiu segurá-lo. As mãos tremiam demais. Ele apoiou o copo até que ela bebesse.
Não houve delicadeza romântica no gesto. Houve cuidado. Para Helena, aquilo era mais perigoso.
“Vou descobrir quem matou sua mãe”, disse ele.
“Não prometa o que não pode cumprir.”
“Eu não prometo. Eu decido.”
“E é por isso que todos têm medo do senhor.”
“Você não tem.”
“Tenho. Só estou com mais medo do que fizeram conosco.”
A chave da caixa era pequena, com um número gravado: 317. Rafael informou que correspondia a um armário da antiga Estação do Valongo, em Santos, transformada parcialmente em centro cultural.
Dante decidiu partir antes do amanhecer.
“Helena fica”, disse Rafael. “Se Cecília estiver envolvida, vai prever Santos.”
“É a história da minha mãe”, respondeu ela.
“E agora a senhora é alvo.”
“Eu já era alvo antes de saber.”
Dante concordou.
“Ela vai comigo.”
Rafael bloqueou a porta.
“Como chefe da sua segurança, preciso dizer que é uma péssima decisão.”
“Como chefe da minha segurança, precisa garantir que sobrevivamos a ela.”
Antes de saírem, Helena foi ao quarto dos gêmeos. Os dois dormiam na mesma cama, apesar de cada um ter o próprio quarto. Entre eles havia um desenho feito com giz de cera.
Três figuras pequenas seguravam as mãos de uma mulher de cabelo escuro.
“Eles sempre desenham três crianças?” perguntou Helena.
Celina aproximou-se.
“Desde que aprenderam a segurar lápis.”
“Talvez a terceira seja uma amiga.”
“Eles não convivem com outras crianças.”
No carro, Dante recebeu uma ligação de Bianca. Ela queria saber por que Cecília fora confinada à ala de hóspedes e por que os portões estavam vigiados.
“Porque alguém nesta casa sabia de Helena antes de hoje.”
“Você está deixando uma desconhecida destruir sua família.”
“Minha família começou a se destruir antes de ela chegar.”
Ele desligou.
O armário 317 continha uma bolsa de couro, um caderno de Lorena e um segundo cartão de memória. Rafael verificou o local antes de permitir que se aproximassem.
No caderno havia datas, códigos e nomes de mulheres. Ao lado de Helena, Lorena escrevera: três embriões viáveis; dois transferidos para L.A.M.; destino do terceiro ocultado.
“L.A.M. era Lorena Azevedo Montenegro”, disse Dante.
Helena virou as páginas. Encontrou uma fotografia dos gêmeos recém-nascidos e outra de uma incubadora vazia.
O cartão de memória continha o fim da gravação.
A voz de Lorena estava mais baixa.
“Dante, eu preciso que você compreenda. A clínica informou que apenas dois embriões sobreviveram. É mentira.”
Um ruído de porta surgiu na gravação. Lorena parou de falar. Ao fundo,
uma voz feminina perguntou por que ela estava no arquivo depois da meia-noite.
Dante voltou o áudio três vezes.
“É Cecília”, disse ele.
Helena ouviu outra vez. A resposta de Lorena era quase inaudível: “Estou procurando os comprovantes do projeto Aurora.” Depois, ouviu-se o som de uma gaveta fechada.
“Ela esteve com Lorena enquanto ela investigava”, disse Helena.
“E mentiu que não sabia de nada.”
Nos segundos seguintes, Cecília afirmou que determinadas verdades destruíam crianças inocentes. Lorena respondeu que crianças já haviam sido compradas antes mesmo de nascer.
Então a gravação foi interrompida por uma batida violenta.
Helena segurou o pingente que fora de sua mãe.
“Os meninos não eram os únicos.”
Na gravação, Lorena respirou fundo.
“Eram três.”
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