"Os Gêmeos do Chefe da Máfia Chamaram a Empregada de Mãe" Capítulo 1 — A Primeira Palavra
A colher de prata atravessou o salão antes que Helena pudesse se abaixar.
Ela bateu numa taça, desviou de um arranjo de orquídeas e caiu sobre o mármore com um som seco. Quarenta convidados pararam de falar. No centro da mesa, um menino de três anos golpeava a bandeja com as duas mãos.
O irmão gêmeo estava debaixo da toalha, apertando os ouvidos.
“Tire essas crianças daqui”, ordenou Cecília Montenegro.
Helena segurou a travessa contra o peito. Era seu primeiro dia na mansão do Jardim Europa, e a governanta havia repetido três vezes que ninguém se aproximava dos filhos de Dante sem autorização.
Mas o menor começou a respirar depressa demais.
Ao lado dele, uma babá tentou soltar o cinto da cadeira. O menino se debateu, arranhou-lhe o braço e abriu a boca num grito que não produziu som algum.
Dante Montenegro levantou-se na cabeceira.
O salão inteiro pareceu encolher.
Ele não precisou erguer a voz. O terno preto, as tatuagens que subiam pelo pescoço e o olhar que fazia homens armados baixarem a cabeça já diziam o suficiente.
“Tomás.”
O menino não reagiu.
“Olhe para mim.”
Tomás continuou lutando contra a babá. Miguel saiu debaixo da mesa, viu o irmão em pânico e começou a bater a testa contra a perna da cadeira.
Dante contornou a mesa, mas os dois se afastaram dele.
Por um segundo, a expressão do homem mais temido de São Paulo se rompeu.
Não foi raiva. Foi impotência.
Helena conhecia aquela respiração curta.
Seu pai tivera crises parecidas nos últimos meses de vida, quando a dor apertava e o ar parecia desaparecer do quarto. Forçá-lo a falar só piorava tudo. A única coisa que o trazia de volta era uma cantiga que a mãe de Helena cantava na cozinha.
Ela deixou a travessa no aparador.
“Volte para a copa”, sussurrou Celina, a governanta. “Agora.”
Helena não voltou.
Ela atravessou o espaço entre os empregados e se ajoelhou a dois metros de Tomás, sem tentar tocá-lo.
Dante virou o rosto lentamente.
“Quem autorizou você?”
“Ninguém.”
Um murmúrio atravessou os convidados.
Helena manteve os olhos no menino.
“Então se afaste.”
“Se eu me afastar agora, ele vai se machucar.”
Rafael Moura, chefe da segurança, deu um passo na direção dela. Dante ergueu dois dedos, e o homem parou.
Helena apoiou as mãos abertas sobre os próprios joelhos. Começou a cantar tão baixo que, no início, apenas Tomás podia ouvi-la.
“Dorme, meu pequeno, que a chuva vai passar…”
Tomás parou de puxar o cinto.
Miguel ergueu a cabeça.
Helena repetiu a melodia. Não era uma canção conhecida. Rosa Duarte inventara aqueles versos quando Helena era criança, numa noite de tempestade em Santos.
“O mar guarda a noite, o sol vem te buscar…”
Tomás soltou o ar.
Miguel caminhou até ele e segurou sua mão.
O silêncio que caiu sobre a sala não era mais o silêncio do medo. Era o de quarenta pessoas assistindo a algo impossível.
Tomás olhou diretamente para Helena.
Os médicos diziam que ele reconhecia vozes, mas evitava rostos. Naquele instante, seus olhos acompanharam cada movimento da boca dela.
“Continue”, disse Dante.
Já não soava como uma ordem. Soava como um pedido que ele detestava precisar fazer.
Helena cantou o último verso.
Miguel se aproximou primeiro. Tocou o avental branco, depois os cachos escuros que haviam escapado do coque. Tomás soltou o cinto sozinho e estendeu os braços.
Helena olhou para Dante.
“Posso?”
Ele levou um segundo para responder.
“Pode.”
Ela pegou Tomás no colo. O menino encostou o rosto em seu pescoço e inspirou profundamente, como se reconhecesse um cheiro perdido.
Miguel abraçou a perna dela.
Então Tomás falou.
“Mamãe.”
A palavra foi baixa, áspera e perfeita.
Uma mulher derrubou um garfo. Celina levou a mão à boca. Dante ficou imóvel.
Miguel ergueu o rosto e repetiu, mais alto:
“Mamãe.”
Helena quase deixou Tomás cair.
“Não.”
Os dois meninos se agarraram a ela.
“Mamãe.”
“Eu não sou a mãe de vocês.”
Tomás começou a chorar, dessa vez com som. Um choro fino, desesperado, que pareceu ferir Dante fisicamente.
Ele se aproximou.
“Qual é o seu nome?”
“Helena Duarte.”
“Há quanto tempo trabalha aqui?”
“Desde as seis da manhã.”
Cecília levantou-se com o rosto pálido.
“Isso é uma encenação. A mulher deve ter pesquisado as crianças.”
“Eu nem sabia que o senhor tinha filhos”, respondeu Helena.
“Todos em São Paulo sabem quem é Dante Montenegro.”
“Saber quem ele é não significa saber o nome dos filhos.”
Bianca Ferraz, sentada à direita de Dante, apertou o guardanapo entre os dedos. Ela usava no anelar o diamante que os sites de celebridades chamavam de anúncio de casamento, embora Dante nunca tivesse confirmado a data.
“Talvez ela tenha sido paga por alguém”, disse Bianca. “Essa família tem inimigos.”
Helena entregou Tomás à babá. O menino gritou e estendeu os braços de volta.
“Eu vou embora.”
Ela deu dois passos.
“Rafael”, disse Dante.
As portas do salão se fecharam ao mesmo tempo.
Dois seguranças tomaram posição diante das janelas. Outro recolheu o celular de um garçom que já filmava a cena.
Helena virou-se.
“Abra a porta.”
“Ainda não.”
“O senhor não pode me prender aqui.”
Dante olhou para os filhos. Tomás batia no peito da babá e repetia a única palavra que aprendera. Miguel apontava para Helena com as duas mãos.
“Meus filhos passaram por neurologistas, fonoaudiólogos e terapeutas desde que nasceram”, disse Dante. “Eles entendem ordens. Ouvem perfeitamente. Nunca disseram meu nome. Nunca chamaram Lorena de mãe enquanto ela estava viva.”
Helena sentiu um arrepio.
“Quem é Lorena?”
Bianca respondeu antes dele.
“A esposa morta de Dante.”
Cecília aproximou-se dos meninos.
“Eles ouviram alguém chamar essa mulher de mãe. Crianças repetem sons.”
“Ninguém disse essa palavra”, afirmou Celina.
A governanta parecia tão assustada quanto Helena.
Dante fitou Cecília. Algo antigo e desconfortável passou entre os dois.
“Rafael, esvazie a casa. Ninguém sai sem deixar nome e telefone. Recolha as gravações das câmeras desde a chegada dela.”
“Sim, senhor.”
“E descubra tudo sobre Helena Duarte.”
Helena colocou a mão no bolso do avental, procurando o próprio celular.
Estava na copa, dentro do armário dos funcionários.
“Se o senhor quer me perguntar alguma coisa, pergunte. Mas não mande investigar minha vida como se eu fosse criminosa.”
Dante parou a menos de um metro dela.
“Onde você nasceu?”
“Santos.”
“Nome da sua mãe?”
“Rosa Duarte.”
Cecília deixou cair a taça.
O cristal não quebrou sobre o tapete, mas o vinho tinto se espalhou como uma mancha escura.
Helena percebeu.
Dante também.
“Conhece esse nome, tia?”
“Não.”
A resposta veio depressa demais.
Rafael retornou ao salão carregando uma pasta cinza. Seu rosto havia perdido a cor.
“Encontrei uma coisa no arquivo do senhor.”
Dante não desviou os olhos de Cecília.
“Que coisa?”
“Os documentos da fertilização de Lorena. A clínica atualizou o sistema ontem à noite e liberou anexos que não estavam na cópia física.”
Bianca levantou-se.
“Isso não tem relação com uma empregada.”
Rafael abriu a pasta sobre a mesa. Havia laudos, formulários e uma fotografia de prontuário.
Helena reconheceu a própria imagem.
Era uma foto tirada quatro anos antes, quando ainda usava o cabelo curto e acompanhava o pai em tratamento. Abaixo dela, um termo autorizava coleta de óvulos e doação anônima para reprodução assistida.
“Eu nunca assinei isso”, sussurrou.
Dante colocou o documento diante dela.
No fim da página estava escrito Helena Rosa Duarte.
A assinatura era idêntica à sua.
E o código dos embriões implantados em Lorena era o mesmo código impresso no prontuário falso de Helena.
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