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"Quando Você Escolheu Ele, Eu Parei de Escolher Você" Capítulo 5 — O homem que parou de esperar

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Capítulo 5 — O homem que parou de esperar

Helena apareceu no velório mesmo assim, com flores brancas e uma expressão que parecia cuidadosamente treinada. Tentou cumprimentar os vizinhos de Augusto, tentou orientar o serviço do café, tentou ocupar o espaço que perdera.

Theo entrou acompanhado de Camila Duarte, amiga de infância e advogada. Camila não fez perguntas nem ofereceu frases prontas. Apenas ficou a um passo de distância, pronta para intervir quando ele não tivesse voz.

“Eu vim ajudar”, Helena disse.

Theo encheu um copo de água, olhou para ela e despejou o conteúdo no vaso de flores junto à porta.

“Você não tem nada para fazer aqui.”

Artur chegou depois com Davi. Camila pediu aos funcionários que os encaminhassem para fora. Helena olhou para Theo, esperando que ele dissesse que a criança não tinha culpa.

Ele não disse. Davi não era culpado, mas também não era responsabilidade de Theo reparar cada consequência das escolhas de adultos que nunca o escolheram.

Nos dias seguintes, Theo assinou a venda da oficina e organizou a cobrança do dinheiro com Camila. Dormia pouco, comia por obrigação e encontrava o pai em objetos absurdamente pequenos: o cheiro de café coado, uma linha de pó de madeira na manga de um casaco, um bilhete antigo preso à geladeira.

Helena apareceu no apartamento levando uma pasta.

“Depois que casarmos, tudo o que for meu será seu.”

Theo a encarou, sem entender de início.

“Você acha que uma certidão compensa a morte do meu pai?”

“Eu estou tentando reparar.”

“Então comece devolvendo o que tirou. E reconhecendo o que fez.”

Ela pediu uma chance. Theo marcou uma data no cartório e não apareceu. Na semana seguinte, marcou outra e mandou uma mensagem às quatro e cinquenta:

Surgiu uma coisa. A gente marca outro dia.

Fez isso oito vezes.

Não porque a humilhação resolvesse a dor, mas porque precisava que Helena entendesse a banalidade cruel de deixar alguém sozinho enquanto você chamava aquilo de “só um papel”. Na oitava tarde, ela saiu do cartório com os olhos vermelhos e o telefone sem tocar para Artur.

Theo a encontrou numa cafeteria dois dias depois. Ela já estava sentada, rígida, segurando a alça da bolsa.

“Até quando você vai me deixar esperando?”

“Certidão é só um papel. Qualquer dia serve.”

O rosto dela perdeu a cor. Theo colocou a pasta sobre a mesa. Dentro, havia a notificação de dissolução do noivado, a cobrança dos R$ 600 mil, a lista dos bens dados em garantia e a procuração para Camila conduzir a ação.

“Você vai me processar?”

“Você dizia que regra era regra.”

“Eu vou perder tudo.”

“Eu perdi meu pai.”

Ele se levantou antes que ela pudesse usar mais uma vez a palavra “desculpa” sem transformá-la em responsabilidade.

Naquela noite, Theo abriu a pasta azul que não tocava desde a formatura. Dentro havia desenhos de casas de pátio, bancos de encaixe, luminárias feitas com sobras de madeira. Augusto sempre dizia que Theo desenhava lugares onde as pessoas podiam respirar.

Ele trabalhou até o amanhecer.

Uma semana depois, Camila apareceu no pequeno estúdio que ele alugara por hora.

“Tenho uma informação sobre a empresa do Artur”, ela disse, pousando um envelope sobre a mesa.

Theo olhou para a marca de lápis no próprio dedo e depois para ela.

“Então vamos ver quem ele era antes de entrar na nossa casa.”

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