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"Quando Você Escolheu Ele, Eu Parei de Escolher Você" Capítulo 3 — A exceção errada

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Capítulo 3 — A exceção errada

Helena saiu da área de preparo para atender. Theo a viu pelo vidro: primeiro ouviu, depois franziu a testa, por fim ficou pálida.

“Artur, respira. Onde você está?”

Theo abriu a porta. “Meu pai está na sala.”

“A equipe está com ele.”

“Você prometeu.”

“Artur está com falta de ar.”

“Ele está num bar de novo?”

“Não seja cruel.”

“Cruel é você fazer da emergência dele uma porta de saída toda vez que nós precisamos de você.”

Ela entrou no elevador. Não correu. Não se desculpou. Apenas foi embora com a tranquilidade de quem já decidira que Theo entenderia depois.

Augusto foi estabilizado pelo plantonista, mas a janela para cirurgia ficou curta. “Dias, não semanas”, disse o médico. “Precisamos levantar recursos e garantir a equipe.”

Theo passou a noite no hospital. Pela manhã, voltou ao apartamento para pegar documentos e viu que a caixa metálica onde guardavam informações financeiras estava vazia. Encontrou os extratos digitais no computador compartilhado.

Havia transferências de R$ 600 mil para uma empresa chamada Nogueira Health Solutions. Havia ainda uma contratação de crédito com o apartamento e o carro como garantia.

Quando Helena chegou, cansada e sem olhar diretamente para ele, Theo colocou as impressões sobre a mesa.

“O que é isso?”

Ela viu os papéis e ficou imóvel.

“Artur precisava de capital para começar a healthtech.”

“Você tirou seiscentos mil da nossa conta.”

“Eu emprestei. Vai voltar.”

“E a garantia?”

“É temporária.”

Theo encarou a mulher que conhecia havia seis anos e não encontrou nela nem vergonha suficiente para interromper a frase.

“Você usou nossa casa sem me consultar.”

“A casa também é minha.”

“Para financiar um homem que você diz ser só amigo.”

Helena respirou fundo. “Para ajudar alguém que precisava. Você sempre foi capaz de entender as necessidades dos outros.”

“Não. Eu era capaz de entender as suas. E você usou isso contra mim.”

Theo fotografou cada página, enviou os arquivos para seu e-mail e para um pen drive. Não sabia ainda o que faria, mas não permitiria que alguém apagasse aqueles rastros.

Dois dias depois, a febre da chuva o derrubou. Helena insistiu em levá-lo a uma unidade de pronto atendimento. Ele aceitou porque a cabeça latejava e porque precisava voltar ao hospital de Augusto em seguida.

No caminho, o telefone dela tocou. Artur dizia que Davi estava num evento ao ar livre, sob sol forte, e que o menino passara mal. Theo não ouviu criança alguma ao fundo, apenas música e vozes adultas.

“Me deixa no hospital primeiro”, Theo pediu.

“É perto. Cinco minutos.”

Ela estacionou junto a um sítio de festas na Zona Oeste. “Fica aqui. Eu volto já.”

“Helena, eu estou doente.”

“Eu sei. Tem ar-condicionado.”

Ela desceu e trancou as portas. Theo a viu atravessar o portão, onde Artur a esperava em pé, sem criança nos braços e sem qualquer sinal de pânico.

O carro começou a esquentar. Primeiro ele tentou abrir uma fresta. Depois ligou para Helena, mas o telefone dela estava no silencioso. Em vinte minutos, o suor já colava a camisa em suas costas. Em trinta, sua visão começou a escurecer nas bordas.

Theo olhou para o apoio de cabeça, puxou a haste metálica e atingiu o vidro lateral. Na terceira tentativa, a janela estourou.

Ele saiu cortando a palma da mão e caiu de joelhos no asfalto.

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