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"Quando Você Escolheu Ele, Eu Parei de Escolher Você" Capítulo 1 — Oito cadeiras vazias

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Capítulo 1 — Oito cadeiras vazias

Theo Azevedo chegou ao Cartório de Registro Civil da Consolação às oito e quarenta e cinco, com os documentos dentro de uma pasta azul e duas alianças no bolso interno do paletó. A atendente o reconheceu antes mesmo que ele dissesse seu nome.

“Senhor Azevedo. A senhora Valença vem mais tarde?”

Ele sorriu por reflexo. “Vem. Ela saiu de um plantão, mas disse que estaria aqui antes das dez.”

Às dez e vinte, Theo mandou uma mensagem. Às onze, outra. Ao meio-dia, comprou dois cafés e deixou o dela esfriar sobre a cadeira vazia. Às duas, guardou os papéis de volta na pasta e os tirou outra vez, como se o gesto pudesse fazer Helena aparecer.

Não era a primeira vez.

Na primeira tentativa, Artur Nogueira tinha acabado de desembarcar em Guarulhos depois de anos fora. Helena fora buscá-lo. Na segunda, ele queimara um dedo fazendo macarrão e ela passara a tarde levando pomada e sopa. Na terceira, Davi, filho de Artur, tivera febre. Depois veio uma reunião, uma dor no peito, uma crise de ansiedade, uma consulta que Artur “não conseguiria enfrentar sozinho”.

Em todas, Helena prometera remarcar.

Theo quis acreditar porque passara seis anos acreditando nela. Helena era a mulher que chegava cedo às reuniões, que corrigia prontuários com caneta vermelha, que uma vez se recusara a furar a fila de uma paciente influente mesmo sob ameaça de reclamação à diretoria. Quando dizia “eu cuido”, todo mundo se acalmava.

Com ele, porém, ela vinha dizendo “depois”.

Às quatro e cinquenta, a atendente baixou a persiana de vidro até a metade.

“Senhor, fechamos às cinco.”

O celular vibrou antes que Theo respondesse.

Helena:

Não vou conseguir chegar. Artur teve uma urgência. Marcamos outro dia.

Não havia pedido de desculpas. Nem uma ligação.

Theo ficou olhando para a tela. A caixa dos bem-casados, encomendada para distribuir depois do registro, pesava sobre a cadeira ao lado. Ele abriu uma rede social por puro hábito e encontrou a foto que não precisava ver.

Artur sorria diante de uma roda-gigante no Parque da Água Branca. Davi estava nos braços de Helena, abraçado a um balão amarelo. O texto dizia:

Obrigado à melhor companhia do mundo. O pequeno realizou o sonho da roda-gigante.

Nos comentários, alguém brincava que a diretora clínica mais rígida de São Paulo esperara três horas Artur acordar para levá-lo ao parque. Outra pessoa perguntava se Helena não deveria estar no cartório.

Helena respondera:

Certidão é só um papel. A gente resolve outro dia.

Theo leu duas vezes. A garganta fechou.

Ele se lembrou de todas as noites em que deixara comida pronta para ela depois de cirurgias longas. Lembrou-se de ter recusado a vaga numa especialização em Lisboa porque Helena não queria sustentar um relacionamento à distância. Lembrou-se de Augusto, seu pai, cortando madeira na oficina para fazer a caixa das alianças e dizendo, com a voz rouca de orgulho: “Agora você vai ter a casa que merece.”

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Na calçada, Theo colocou a caixa de doces na lixeira. Não fez cena. Apenas soltou a alça e ouviu o papelão bater no fundo do cesto.

“Obrigado por esperar”, disse à atendente.

Ela hesitou. “Quer agendar outra data?”

Theo fechou a pasta azul.

“Não.”

No fim da noite, Helena o encontrou andando sem rumo perto da Avenida Paulista. Parou o carro ao lado da calçada e baixou o vidro.

“Você não atende mais?”

“Meu celular estava sem bateria.”

“Entra. Você está fazendo isso parecer maior do que é.”

Theo entrou porque a chuva começava e porque, por alguns minutos, ainda quis ouvir uma explicação que doesse menos do que a foto.

Helena dirigia com as duas mãos firmes no volante. “Artur voltou ao Brasil com uma criança. Ele está desorganizado. Davi se apegou a mim. Você precisa entender.”

“Eu precisava que você estivesse no cartório.”

“E eu precisava estar onde havia uma urgência.”

“Uma roda-gigante era urgência?”

Ela soltou o ar pelo nariz. “Não transforma isso numa acusação. Ele tinha prometido ao menino.”

O telefone do carro tocou. A voz de Artur saiu alta pelo bluetooth, carregada de falsa fragilidade.

“Helena? Estou num bar perto da República. Acho que bebi demais.”

O rosto dela mudou. Era uma preocupação rápida, automática, que Theo já conhecia bem.

“Você está sozinho?”

“Não quero atrapalhar. Só não sei como voltar.”

Helena fez um retorno brusco. Theo viu a rua molhada pela janela e entendeu antes de ela falar.

“Vou buscar você”, ela disse.

“Helena.”

Ela não respondeu.

“Se você me deixar agora, acabou.”

Por um segundo, ela olhou para ele. Não parecia assustada com a ameaça. Parecia irritada por ter de escolher.

“Você está exagerando.”

Parou o carro numa rua onde quase não havia movimento. “Pede um aplicativo. Eu te mando dinheiro se precisar.”

Theo abriu a porta devagar.

“Não é dinheiro que eu precisava.”

Helena apertou os lábios, como se ele estivesse sendo injusto, e arrancou. O carro desapareceu antes do primeiro trovão.

Theo ficou sozinho na calçada enquanto a chuva começava a cair.

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