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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 8 — A Mulher que Ficou em Silêncio

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Capítulo 8 — A Mulher que Ficou em Silêncio

Diego tentou desaparecer outra vez.

Não conseguiu.

Na madrugada anterior à transferência, Elisa encontrou o prontuário aberto, uma passagem de ônibus para São Paulo e uma carta curta dobrada dentro do casaco dele.

Se eu te contar, você vai querer lutar por mim. E eu não posso deixar que alguém use você para me quebrar.

Ela entrou no quarto sem bater.

“Você não vai sozinho.”

Diego estava sentado na beira da cama, olhando para o caminhão de Miguel.

“Elisa…”

“Não.” Ela colocou a carta sobre o colchão. “Eu passei seis anos odiando você por decidir a minha vida. Não vou aceitar que faça isso de novo porque está com medo.”

“Você não entende.”

“Então me explica.”

Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. A vergonha era maior do que a coragem que ele tinha encontrado na frente da câmera.

Elisa assentiu devagar.

“Tudo bem. Você não precisa me contar hoje. Mas eu vou para São Paulo porque você precisa de alguém. E porque eu quero ir.”

O tratamento começou três dias depois.

O hospital era grande, branco e tão barulhento que Elisa dormia pouco mesmo no quarto de apoio. Diego passava por exames, transfusões e conversas com médicos que nunca prometiam mais do que tinham certeza de poder oferecer.

O novo protocolo funcionava devagar. Primeiro reduziu a febre. Depois devolveu a Diego alguns dias sem a dor que o fazia apertar os dentes durante a madrugada.

Então veio a visão turva.

Ele acordou numa manhã dizendo que o quarto tinha virado uma mancha de luz. Dois dias depois, não enxergava quase nada.

“É temporário?”, perguntou, tentando soar calmo.

A médica explicou que podia ser, mas que precisavam observar.

Elisa viu o medo atravessá-lo. Não era apenas não ver. Era depender de alguém, exatamente o que ele passara anos tentando evitar.

Ele pediu que ela fosse embora.

“Eu não quero que você me veja assim.”

“Você não consegue me ver, então pode parar de se preocupar com isso.”

Ele quase riu. Depois virou o rosto para a parede.

Elisa respeitou o pedido de espaço, mas não o abandonou. Com autorização da equipe, cadastrou-se como acompanhante temporária sob seu nome profissional, Nina Nogueira. Não mentiu para o hospital; mentiu apenas na distância que Diego insistia em criar.

Ela entrava no quarto quando ele aceitava ajuda, falava pouco e deixava que ele conduzisse as conversas.

“Hoje choveu em Pedra Clara”, ela disse certa noite.

“Nina?”

“Sim.”

“Você já esteve lá?”

Ela hesitou. “Já.”

“Tem um cheiro específico depois da chuva. Pedra molhada, mato… e café.”

“Eu sei.”

Ele ficou quieto. “Você fala como alguém que sente falta.”

Elisa não respondeu.

No aniversário dele, levou um bolo pequeno de castanhas. Diego tocou a cobertura com a ponta dos dedos e soltou uma risada baixa, surpresa.

“Como você adivinhou?”

“Algumas coisas não deveriam ser esquecidas.”

Ele comeu em silêncio. Depois soprou uma vela que ela tinha acendido.

“Fez um pedido?”, ela perguntou.

“Fiz.”

“Vai contar?”

“Quero que Elisa tenha uma vida longa. Mesmo que seja longe de mim.”

Ela precisou virar o rosto para não chorar.

Naquela semana, Camila informou que a Olhar Real queria distribuir

Vozes da Montanha

. Elisa assinou a proposta em seu nome, com cláusulas claras sobre controle criativo e proteção dos moradores filmados.

Joana mandava vídeos de Miguel participando da oficina de Libras. Ele aparecia sorrindo, ensinando um sinal novo a uma professora e segurando o caminhão de madeira como se fosse uma medalha.

Elisa imprimiu alguns desenhos dele para Diego, mas guardou-os numa caixa. Ainda não era hora.

Uma manhã, enquanto ela o ajudava a sentar, Diego tocou de leve seu pulso.

“Nina.”

“O quê?”

“Você corta a unha do polegar quando está nervosa.”

Ela congelou.

“E você pronuncia meu nome como se ele fosse uma bronca.”

O sorriso dele era fraco, mas real.

“Elisa?”

Ela não respondeu de imediato. Sentou-se na cadeira ao lado da cama e deixou que ele procurasse sua mão.

“Sou eu.”

Diego apertou seus dedos, mas não parecia zangado.

“Por que não me contou?”

“Porque você tinha medo de precisar de mim. E eu queria que você soubesse que eu podia ficar sem cobrar nada em troca.”

Ele levou a mão dela aos lábios.

“Eu não sei como aceitar isso.”

“Então aprende devagar.”

Naquele mesmo instante, o celular de Diego vibrou sobre a mesa.

Uma nova mensagem apareceu na tela bloqueada.

Você acha que voltou a ser alguém? Eu ainda tenho tudo.

Diego sentiu a mudança no silêncio dela.

“O que foi?”

Elisa olhou para a mensagem.

Dessa vez, não a deixou desaparecer.

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