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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 6 — O Vídeo na Chuva

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Capítulo 6 — O Vídeo na Chuva

Na manhã seguinte, havia oito pessoas do lado de fora da minha casa.

Minha casa.

Elisa ficou alguns segundos encarando a frase na própria cabeça. Diego tinha ido embora na noite anterior, e ainda assim tudo dentro daquelas paredes parecia carregado do nome dele: a manta azul no sofá, uma caneca que ele usara, as marcas de barro perto da porta.

Miguel estava sentado à mesa, desenhando círculos que pareciam rodas de caminhão.

Do lado de fora, alguém gritou:

“Elisa, confirma que Diego Sampaio está escondido aí?”

Ela abriu o celular. A hashtag com seu nome aparecia ao lado de acusações, montagens e uma foto sua defendendo o garoto no portão da escola.

Seu dedo pairou sobre a tela.

Durante seis anos, ela tinha escolhido não responder a ninguém. Não queria que sua dor virasse conteúdo. Não queria que Diego voltasse a ocupar um espaço que ela tinha demorado tanto para reconstruir.

Mas Miguel se aproximou e tocou seu pulso.

Ele fez sinais devagar.

Diego triste.

Elisa fechou os olhos.

Então escreveu:

“Não conheço todos os fatos sobre Diego Sampaio. Mas nenhuma acusação justifica perseguir uma criança, invadir uma comunidade ou transformar sofrimento em espetáculo. Peço que deixem Pedra Clara em paz.”

Publicou antes que pudesse desistir.

Pouco depois, o sargento Batista bateu no portão. Trazia a mochila perdida de Diego e uma expressão preocupada.

“Encontraram no terminal. Estava presa atrás de umas caixas.”

Elisa segurou a alça como se fosse algo perigoso.

“Ele voltou?”

Batista balançou a cabeça. “Não. A pousada onde ele tentou ficar disse que ele saiu de madrugada. Com essa chuva, não devia estar sozinho.”

Miguel correu até a mochila antes que ela respondesse. O fecho estava quebrado. Quando ele a puxou, o conteúdo caiu no chão.

Uma caixa de remédios.

Um envelope de exames.

Uma foto antiga.

Elisa se ajoelhou sem perceber. Na imagem, ela usava uma camiseta manchada de tinta e ria para Diego, que segurava uma câmera emprestada. Atrás havia uma frase escrita pela mão dele:

Eu queria que a luz durasse para sempre.

Sob a foto, seis anos de relatórios médicos se espalhavam pelo piso. Consultas, internações, resultados, prescrições. Não havia uma mentira elegante nem uma explicação ensaiada. Havia datas. Muitas datas. E uma doença que tinha atravessado todo o tempo em que ela o odiara.

O ar saiu dos pulmões dela.

Miguel, tentando ajudar, esbarrou na câmera que Diego deixara na estante. O aparelho caiu sobre uma almofada e ligou.

Na tela, apareceu a serra.

Depois, Diego.

Molhado de vento, pálido demais, sentado diante de uma paisagem que ela conhecia como a palma da mão.

“Se Elisa assistir a isto, talvez eu já não consiga dizer pessoalmente.”

Elisa não respirou até o vídeo terminar.

Ouviu a confissão dele. Ouviu a frase que mais a feriu: que ele tinha decidido sozinho que ela não seria capaz de carregar a doença dele.

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Ouviu também que ele não esperava perdão.

Quando a tela escureceu, Miguel tocou seu rosto. Só então Elisa percebeu que chorava.

“Eu transformei você no vilão porque era mais fácil”, ela sussurrou, olhando para a imagem apagada. “E você transformou a mim em alguém frágil porque era mais fácil para você ir embora.”

O sargento Batista se aproximou. “Vamos procurar.”

Elisa levantou de uma vez.

“Joana está na escola. Camila conhece as rotas de filmagem. Eu sei os lugares onde ele gostaria de desaparecer.”

Miguel puxou sua jaqueta e fez um sinal rápido, insistente.

Eu vou.

“Não.”

Ele cruzou os braços, igual ela fazia quando estava com medo.

Elisa se ajoelhou diante dele. “Você vai ficar com a professora Joana. Vai me ajudar daqui.”

Miguel apontou para a câmera. Reviu o começo do vídeo. Voltou alguns segundos, aproximou o rosto da tela e bateu o dedo nela.

No fundo do áudio, quase escondido pela chuva, havia um som metálico ritmado.

Um sino.

Miguel fez o gesto de gado. Depois apontou para as montanhas e desenhou uma curva no ar.

Elisa entendeu.

“Mirante do Cedro.”

Era a estrada onde os rebanhos passavam no fim da tarde. Diego tinha filmado ali uma vez, quando ainda eram estudantes e ela queria gravar o som do vento atravessando os pinheiros.

Ela agarrou as chaves do carro.

“Batista, vem comigo.”

A chuva transformou a estrada em lama. O farol cortava a neblina aos pedaços. Elisa dirigia com as mãos tão apertadas no volante que os dedos doíam.

“Ele disse que não queria morrer”, ela falou, mais para si do que para o sargento. “Ele disse que queria que eu soubesse.”

“Então vamos encontrá-lo.”

No início da trilha do mirante, o carro não conseguia mais passar. Elisa saiu correndo antes que Batista terminasse de chamar reforço.

O vento feria seu rosto. A lama puxava seus tênis. Ela chamava por Diego, mas a serra devolvia apenas a própria voz, quebrada pela chuva.

Então viu uma jaqueta escura presa num galho baixo.

Parou.

Era a jaqueta dele.

Elisa a arrancou do galho com as duas mãos e ergueu os olhos para a encosta, para a sombra entre os pinheiros, para o lugar onde a trilha desaparecia na névoa.

“Diego!”

Nenhuma resposta.

Ela correu em direção ao silêncio.

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