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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 5 — A Verdade que Ninguém Quis Ouvir

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Capítulo 5 — A Verdade que Ninguém Quis Ouvir

O vento atrapalhava o áudio, mas não apagava minha voz.

“Eu não deixei Elisa porque ela era pouco para mim”, disse à câmera. “Eu deixei porque recebi um diagnóstico e fui covarde demais para admitir que tinha medo.”

Falei da consulta, da palavra falência, da forma como olhei para ela recebendo convites de festivais e imaginei que minha doença seria uma corrente amarrada ao tornozelo dela.

“Não foi amor. Foi controle disfarçado de sacrifício.”

Miguel segurava o tripé com as duas mãos. Quando meus olhos arderam, ele fez um sinal que eu já entendia: respira.

“Eu não estou gravando isso para ser perdoado”, continuei. “Nem para convencer alguém de que sou bom. Só quero que ela saiba que a culpa não era dela.”

À noite, depois que Miguel dormiu, liguei para Camila Duarte.

Ela atendeu no segundo toque.

“Diego?”

“Ainda estou vivo.”

O silêncio do outro lado foi longo.

“Seu idiota. Onde você se meteu?”

“Minas. Preciso pedir um favor.”

Três anos antes, quando o marido de Camila precisou de uma cirurgia e ela ainda não tinha dinheiro, eu adiantei um cachê sem contar a ninguém. Na época, ela prometeu me devolver de algum jeito. Eu nunca cobrei.

Agora pedi que ela assistisse aos trechos de

Vozes da Montanha

e considerasse uma reunião com Elisa.

“A obra é dela”, eu deixei claro. “Meu nome não entra. Nem como produtor, nem como história de fundo.”

Camila ouviu em silêncio.

“Manda o material”, disse. “E, Diego… a crise da Vértice está maior do que parece. Não deixe ninguém usar essa cidade para te destruir mais.”

No dia seguinte, Camila chegou numa caminhonete coberta de poeira. Elisa a recebeu na varanda sem saber quem ela era. Eu estava dentro, tentando não desmaiar depois de uma noite sem dormir.

Quando minha visão escureceu, Camila segurou meus ombros.

“Senta, pelo amor de Deus.”

Elisa viu da porta.

O rosto dela ficou duro.

Camila apresentou a carta de intenção da Olhar Real, falando sobre distribuição, edição e autonomia criativa. Elisa leu uma página inteira sem respirar.

“Por que você está fazendo isso?”, perguntou a mim.

“Porque seu filme merece existir.”

“E o que você quer em troca?”

“Nada.”

Ela riu baixo. Foi pior do que se tivesse gritado.

“Você sempre quer alguma coisa, Diego. Se não é fama, é absolvição.”

“Não quero que você me absolva.”

“Então para de agir como se ainda fosse o homem que pode resolver minha vida.”

A dor no meu corpo, a vergonha e o medo se misturaram até eu perder o cuidado.

“Eu não estou tentando resolver sua vida. Você é quem está há seis anos escondida numa vila, fingindo que desistir foi escolha artística.”

Elisa ficou branca.

Eu quis retirar as palavras assim que elas saíram.

Mas ela apontou para o portão.

“Vai embora.”

Miguel apareceu no corredor, assustado. Elisa se abaixou para abraçá-lo, mas não tirou os olhos de mim.

“Agora.”

Camila tentou dizer alguma coisa. Eu neguei com a cabeça.

Peguei minha jaqueta. Não tinha mochila, não tinha dinheiro suficiente, não tinha remédio.

Tinha apenas a certeza de que eu tinha destruído de novo a única coisa que não queria perder.

Na varanda, Camila colocou a carta de intenção sobre a mesa de Elisa.

“Ela não pediu por isso”, eu disse, antes de sair. “Não use meu nome. Nunca.”

Começou a chover quando alcancei a estrada.

Uma chuva gelada, grossa, que transformava as pedras em espelhos escuros. Eu andei sem saber para onde. O corpo doía menos quando eu estava em movimento; parado, parecia que cada osso se lembrava de que podia quebrar.

Meu celular recebeu uma notificação, mas a tela molhada não deixava ler.

Eu continuei subindo.

Atrás de mim, na casa amarela, Elisa ainda segurava a carta com o nome dela no alto da página.

E, pela primeira vez, não havia o meu em lugar nenhum.

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