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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 4 — O Documentário Que Ela Enterrou

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Capítulo 4 — O Documentário Que Ela Enterrou

A doutora Renata não adoçou as palavras.

“Seus índices caíram desde o último exame. Você precisa ir para São Paulo para uma avaliação completa. Quanto mais você adia, menor fica sua margem.”

“Existe tratamento?”

“Existe tentativa. Existe acompanhamento. Existe uma equipe que pode estudar seu caso. Não vou vender certeza a você.”

Saí do posto com a sensação de que o chão estava certo e eu era a única coisa instável sobre ele.

Na praça, encontrei Elisa carregando uma câmera e uma bolsa de microfones. Miguel estava ao lado dela, com um curativo pequeno na testa.

Eu devia pedir desculpas de novo. Em vez disso, peguei uma das caixas que ela tentava equilibrar.

“Devolve.”

“Está pesada.”

“Eu sei carregar meu equipamento.”

“Eu sei. Sempre soube.”

Ela ficou parada.

Havia uma verdade perigosa naquela frase: eu tinha sido o primeiro assistente de Elisa, o primeiro a segurar refletor, revisar áudio, dormir no chão de uma sala de edição enquanto ela insistia em cortar três segundos de silêncio.

“Onde você vai filmar?”

“Na casa de Dona Célia.”

“A parteira?”

Elisa pareceu incomodada por eu lembrar. “Você viu o cronograma?”

“Vi o caderno aberto na mesa.”

Ela deveria ter mandado eu embora. Em vez disso, entregou-me um rebatedor dobrado.

“Não encosta na câmera.”

“Prometo.”

Na casa de Dona Célia, a luz da tarde entrava por uma janela de madeira e desenhava faixas douradas no chão. Elisa ficou atrás da lente, ouvindo a senhora falar sobre partos, enchentes e mulheres que atravessavam a serra a pé porque não havia ambulância.

Eu segurei o rebatedor até os braços formigarem. Miguel sentou perto de mim e imitava os gestos de Elisa com uma câmera de brinquedo feita de papelão.

Por duas horas, foi quase fácil lembrar de quem éramos.

Depois de uma tomada, Elisa estendeu a mão sem olhar. Eu lhe passei a garrafa d’água. Ela bebeu um gole e, distraída, disse:

“Amor, sobe um pouco o rebatedor.”

O silêncio caiu entre nós.

Elisa fechou os olhos. As pontas das orelhas ficaram vermelhas.

“Foi hábito”, ela disse.

“Eu sei.”

Mas meu coração não sabia agir como se fosse só isso.

Quando voltamos para a vila, três pessoas estavam na frente da casa dela com celulares erguidos.

“É ele!” alguém gritou. “Diego, você está usando criança com deficiência para limpar sua imagem?”

Miguel se assustou com a movimentação. Elisa o colocou atrás de si no mesmo segundo.

“Saiam da minha calçada”, ela disse.

“A senhora é a ex dele? Ele pagou para você filmar um pedido de desculpas?”

Eu dei um passo à frente, mas Elisa levantou a mão.

“Ninguém vai filmar meu filho.”

Ela fechou o portão na cara deles. Por dentro, suas mãos tremiam.

“Isso vai piorar”, eu falei.

“Eu sei.”

“Posso gravar um depoimento. Dizer que o projeto da escola não tem relação com a minha imagem.”

O olhar dela mudou de medo para raiva.

“Você quer que eu filme você?”

“Eu posso pedir para outra pessoa.”

“Não. Você quer que eu esteja lá.”

“Elisa…”

“O primeiro curta que fiz foi sobre você. Todo mundo dizia que eu tinha um olhar próprio, mas perguntava pelo menino bonito da tela. Quando você me deixou, eu não perdi só você. Perdi vontade de abrir uma câmera.”

Eu abaixei a cabeça.

“Eu sei.”

“Não sabe.” Ela pegou a câmera e colocou contra meu peito. “Se quer ser filmado, filma a si mesmo.”

Miguel observou a discussão com os olhos grandes. Quando Elisa entrou em casa, ele veio até mim. Tocou na câmera e fez o sinal de ajudar.

Eu quase recusei.

Depois pensei que, talvez, aceitar ajuda fosse o único jeito de não repetir todos os erros.

No fim da tarde, fomos até uma clareira acima da vila. O vento balançava o capim alto e a serra se escondia atrás de nuvens pesadas.

Miguel montou o tripé com uma concentração solene. Eu ajustei o foco, sentei diante da lente e respirei fundo.

“Se Elisa assistir a isto”, comecei, “talvez eu já não consiga dizer pessoalmente.”

Miguel apertou o botão vermelho.

E eu parei de fugir.

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