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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 2 — O Nome Que Ela Ainda Não Esqueceu

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Capítulo 2 — O Nome Que Ela Ainda Não Esqueceu

Miguel dormiu no tapete antes de mim.

Em algum momento da madrugada, Elisa o levou para o quarto. Eu acordei pouco depois com o som baixo de uma canção tocando no celular dela e com a dor familiar atravessando meus ossos.

Era como se alguém estivesse apertando parafusos dentro do meu corpo.

Fiquei imóvel até o amanhecer.

Quando Miguel apareceu de pijama, trazendo um caderno de desenhos, ele se sentou ao meu lado e abriu numa página cheia de sóis amarelos. Embaixo de um deles havia uma palavra escrita com letras grandes.

MIGUEL.

Meu estômago afundou.

Seis anos antes, numa noite de formatura, Elisa tinha apoiado a cabeça no meu ombro e dito que um dia queria chamar um filho de Miguel. “Porque parece nome de menino que carrega luz”, ela explicara, rindo da própria melancolia.

Eu toquei a palavra com a ponta do dedo.

“Foi ela que escolheu?”

Miguel não ouviu, mas acompanhou meu movimento de boca. Antes que eu tentasse repetir em sinais, Elisa surgiu no corredor.

“A consulta da especialista é no posto, às dez”, ela disse. “Se você vai mesmo ficar por causa disso, eu levo você. Depois você encontra outro lugar.”

Não perguntou se eu queria café. Ainda assim, deixou uma caneca perto de mim.

O posto de saúde ocupava duas salas ao lado da praça. A médica visitante, doutora Renata Farias, tinha olheiras de quem passava mais tempo em hospitais do que em casa. Ela leu meus exames salvos no celular e não tentou fingir que a situação era simples.

“Você interrompeu a medicação?”

“A mochila sumiu.”

“Há quanto tempo?”

“Um dia.”

Ela fez uma anotação. “Não vou substituir sua equipe, Diego. Mas, pelo histórico, você precisa ser avaliado em São Paulo. Aqui conseguimos estabilizar sintomas, não conduzir o tratamento.”

Elisa estava de pé perto da porta, olhando para a rua. Até a médica dizer:

“Falência medular não é uma gripe. Você não pode ficar sozinho nesse estado.”

Elisa virou o rosto.

“Falência medular?”

Eu queria que a doutora tivesse usado qualquer outra expressão.

“Elisa, eu…”

“Você veio para cá doente?”

“Eu vim procurar a doutora Renata.”

“E por que não procurou um hospital em São Paulo?”

Porque eu não queria morrer numa cidade onde tudo que importava já tinha ido embora.

“Porque precisava falar com você”, respondi.

Ela ficou pálida por meio segundo. Então seu celular vibrou.

Na tela, uma manchete mostrava minha foto antiga, tirada de um vídeo de viagem.

CRIADOR ACUSADO DE FRAUDE É VISTO EM VILA MINEIRA; EX-NAMORADA DIRETORA PODE ESTAR ENVOLVIDA.

Elisa leu em silêncio. O rosto dela se fechou.

“Claro”, disse. “Você precisava falar comigo.”

“Não é por isso.”

“Então por quê? Para eu aparecer no seu pedido de desculpas? Para a imprensa dizer que eu te perdoei?”

“Eu nunca pediria isso.”

“Você pediu uma vez.”

A frase me atingiu sem que ela precisasse elevar a voz.

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Seis anos antes, quando

Primeira Luz

, o curta que Elisa filmou comigo, explodiu em festivais estudantis, eu a convenci a aceitar entrevistas que falavam mais de mim do que dela. Eu achava que estava ajudando. Quando recebi o diagnóstico, transformei a covardia em crueldade e a deixei acreditando que eu só queria ser famoso.

Elisa guardou o celular.

“Não use doença para me fazer esquecer quem você foi.”

Ela saiu antes que eu respondesse.

No caminho de volta, não insistiu em conversar. Miguel estava no banco de trás com uma sacola de pão de queijo, olhando a estrada através da janela.

Quando paramos perto da escola municipal, ele bateu os dedos no vidro e fez sinais rápidos para Elisa.

Ela endureceu.

“Não hoje, Miguel.”

O menino apontou para os outros alunos no pátio. Depois apontou para si. Os olhos dele não pediam brinquedo. Pediam lugar.

Elisa colocou as duas mãos no volante.

“Eu já disse que não.”

Miguel baixou a cabeça.

Eu não devia me meter. Eu era um hóspede indesejado e doente, alguém que tinha perdido qualquer direito de aconselhá-la.

Mesmo assim, usei os poucos sinais que sabia.

Escola. Amigo. Bom.

Miguel me encarou. Um sorriso pequeno apareceu no canto de sua boca.

Elisa viu.

“Não encoraje ele.”

“Ele quer aprender.”

“Ele foi chamado de estranho na última escola. Voltou para casa sem querer comer, sem querer brincar, escondendo as mãos dentro das mangas para não fazer sinais.”

Sua voz falhou apenas na última palavra.

“Eu não vou colocar meu filho naquele lugar de novo.”

Eu assenti. “Você tem razão em querer protegê-lo.”

Ela pareceu surpresa com a ausência de discussão.

“Mas talvez exista uma forma de não deixá-lo sozinho para sempre.”

Elisa olhou para mim com uma frieza cansada.

“Você não sabe nada sobre ele.”

“Não. Mas posso tentar ajudar a escola a saber.”

Naquela noite, mandei mensagens para todos os contatos que eu ainda tinha. Alguns não responderam. Outros responderam com pena. Uma ex-produtora de uma campanha inclusiva me passou o número de uma intérprete de Libras disposta a trabalhar temporariamente em projetos rurais.

Quando confirmei a possibilidade, a tela do celular piscou com outra mensagem.

Dra. Renata: consigo atendê-lo até sexta. Depois sigo viagem. Não adie.

Quatro dias.

Quatro dias para convencer meu corpo a colaborar.

Quatro dias para fazer alguma coisa que fosse maior do que a versão mentirosa de mim que o mundo tinha escolhido acreditar.

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