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"Quando o Vento Volta para Casa" Capítulo 1 — O Homem Que Perdeu Tudo

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Capítulo 1 — O Homem Que Perdeu Tudo

No dia em que perdi meu nome, perdi também a mochila.

Ela tinha meus documentos, uma troca de roupa, os remédios que eu não podia interromper e uma foto velha, dobrada tantas vezes que já parecia pedir para desaparecer.

Na foto, Elisa Nogueira ria para alguma coisa fora do enquadramento. Eu estava ao lado dela, com vinte e cinco anos, sem marcas de agulha nos braços e sem saber quanto um corpo podia esconder antes de desistir.

Meu rosto apareceu em todos os lugares naquela manhã.

“DIEGO SAMPAIO É ACUSADO DE PROMOVER PRODUTOS ENGANOSOS.”

“CRIADOR TERIA LUCRADO COM PUBLICIDADE IRREGULAR.”

Eu lia as manchetes na tela rachada do celular, sentado diante do posto policial de Pedra Clara, enquanto a chuva de julho riscava as montanhas da Serra da Mantiqueira.

Os comentários tinham sido feitos por pessoas que, uma semana antes, me chamavam de inspiração.

Agora diziam que eu devia ser preso.

Que eu devia sumir.

Que eu tinha usado uma mulher talentosa para ficar famoso e depois a tinha descartado.

Esse último comentário me fez parar.

Elisa.

Seis anos sem ouvir a voz dela não tinham apagado o jeito como meu peito apertava quando alguém escrevia seu nome.

“Senhor Sampaio?”

Levantei os olhos. O sargento Batista, um homem de barba grisalha e capa de chuva azul, segurava uma prancheta.

“A empresa de ônibus encontrou parte das malas no terminal de Pouso Alto. A sua não estava lá. Vamos continuar procurando.”

“E os remédios?”

Ele hesitou. “Não sei, rapaz.”

Eu ri sem humor. “Claro que não sabe.”

Minha boca estava seca. Tentei levantar da cadeira de plástico e as pernas responderam tarde demais. Batista me segurou pelo cotovelo.

“Você tem alguém na cidade?”

Eu queria dizer não.

Queria evitar a humilhação de pronunciar aquele nome, mas precisava encontrar a médica especialista que passaria quatro dias em Pedra Clara. Era a última consulta que eu ainda conseguia pagar sem vender o pouco que tinha restado.

“Conheço uma pessoa.”

“Quem?”

Demorei um segundo a mais do que devia.

“Elisa Nogueira.”

Batista franziu a testa e, depois, assentiu. “A documentarista? Ela mora ali perto da igreja. Está com um quartinho vazio desde que a mãe dela voltou para São Paulo. Posso pedir abrigo por esta noite.”

Por esta noite.

Era tudo o que eu precisava sobreviver sem os remédios e procurar a médica pela manhã.

Era também tudo o que eu não devia pedir a Elisa.

Pedra Clara parecia menor sob a chuva. As casas de fachada baixa se agarravam às ruas de pedra; do lado de longe vinha cheiro de lenha molhada e café forte. Eu seguia Batista sem sentir os dedos das mãos, fingindo que a tontura era apenas frio.

Quando ele parou diante de uma casa amarela, meu coração já sabia.

Havia uma câmera em cima da mesa visível pela janela. Um tripé, cabos enrolados, uma fileira de cartões de memória. E, na parede, um cartaz de um documentário que eu nunca tinha visto:

正文1

Vozes da Montanha

.

Batista bateu palmas no portão.

Ela abriu a porta alguns segundos depois.

Elisa estava com os cabelos presos de qualquer jeito e uma jaqueta escura manchada de barro. Tinha uma expressão cansada até seus olhos encontrarem os meus.

O rosto dela ficou imóvel.

Não surpresa. Não feliz. Imóvel.

“Elisa”, eu disse, e minha voz soou como a de outra pessoa.

O sargento limpou a garganta. “Ele perdeu a mochila e não tem onde ficar. Só até amanhã, se não for problema.”

Ela olhou para Batista. Depois para mim.

“É problema.”

Eu devia ter esperado aquilo. Mesmo assim, doeu de um jeito infantil.

“Eu não vou atrapalhar”, falei. “De manhã eu saio.”

Elisa cruzou os braços. “Você costuma sair sem avisar. Tem prática.”

Batista fez menção de recuar. “Se não der, eu procuro outro lugar.”

“Não.” Ela respirou fundo, como se estivesse decidindo não tocar numa lâmina. “Pode entrar. Uma noite.”

Ao atravessar a porta, senti o cheiro de alecrim, café e madeira antiga. Não era a casa que eu conhecia, mas tinha algo dela em cada canto: caixas de lentes etiquetadas, cadernos rabiscados, uma manta vermelha dobrada no sofá.

Foi então que percebi o menino sentado no tapete.

Ele tinha bochechas coradas, cabelo muito preto e seis ou sete anos. Brincava com um caminhão de madeira, mas me observava com a atenção de quem tentava entender uma língua desconhecida.

Elisa tocou de leve o ombro dele e fez sinais com as mãos.

O menino olhou para mim e repetiu um gesto curto, apontando para o peito.

“Miguel quer saber seu nome”, ela explicou, sem gentileza.

Eu conhecia apenas o básico de Libras, aprendido anos antes para uma campanha que gravei e depois nunca publiquei. Mesmo assim, ergui a mão e soletrava devagar.

“Diego.”

Miguel abriu um sorriso tímido.

Elisa me lançou um olhar surpreso. Durou pouco.

“O quarto dos fundos está cheio de caixas”, disse ela. “Você pode dormir no sofá. Não mexe no equipamento. Não grava nada. Não publica nada.”

“Eu não vim para publicar.”

“Todo mundo diz isso antes de apertar o botão.”

Não respondi. Eu não tinha forças para explicar que minha câmera tinha sido confiscada pela própria empresa semanas antes, quando o escândalo começou. Não tinha forças para dizer que a única coisa que eu queria registrar era a chance de vê-la uma última vez.

Miguel se aproximou e puxou a barra da minha jaqueta. Apontou para meus joelhos, que tremiam de forma ridícula.

“Estou bem”, falei.

Ele não pareceu acreditar. Crianças nunca acreditam nas mentiras que os adultos dizem com o corpo.

Elisa apontou para o sofá. “Senta antes que caia.”

Sentei.

Ela foi para a cozinha. O som de uma panela sendo colocada no fogão encheu o silêncio, e por um segundo a lembrança veio inteira: Elisa em nosso apartamento de estudante, reclamando que eu picava cebola errado e beijando minha nuca quando achava que eu estava distraído.

Eu fechei os olhos.

“Você se casou?”

A pergunta saiu antes que eu conseguisse impedir.

Elisa parou na porta da cozinha. Miguel, ao lado dela, segurou sua mão.

“Não é assunto seu.”

“Eu só…”

“Miguel é meu filho.”

O mundo pareceu reduzir o volume.

Eu olhei para o menino. Ele me devolveu o olhar, tranquilo, sem saber que três palavras tinham aberto dentro de mim um espaço que eu não sabia preencher.

“Entendi”, murmurei.

Não entendia nada.

Mais tarde, a febre subiu sem pedir licença. Eu estava tentando alcançar a mochila inexistente ao lado do sofá quando o chão se inclinou.

Elisa apareceu antes que eu caísse. A mão dela fechou no meu braço, firme como sempre fora.

“Diego, o que está acontecendo?”

Por um segundo, eu quase contei.

Quase disse que eu tinha partido porque, aos vinte e cinco, um médico falou em falência medular e em meses contados. Quase disse que passei seis anos aprendendo a chamar solidão de proteção.

Mas a expressão dela me deteve.

Não havia preocupação. Havia desconfiança.

“Só viagem”, menti. “E o frio.”

Elisa soltou meu braço devagar.

“Não faça teatro dentro da minha casa.”

Miguel correu até o quarto e voltou com uma manta azul pequena demais para mim. Colocou-a sobre minhas pernas e fez um sinal que entendi sem saber Libras.

Fica.

Elisa olhou para ele. Depois para mim.

“Uma noite”, repetiu.

Mas Miguel deixou a manta no meu colo, como se tivesse decidido que eu merecia mais tempo do que ela estava disposta a dar.

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