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"O Marido Que Via Tudo" Capítulo 6 — A Armadilha de Safira

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Capítulo 6 — A Armadilha de Safira

Na segunda-feira, contei a Caio que receberia um bônus extraordinário.

"Quanto?", ele perguntou.

Tentou disfarçar a rapidez da pergunta beijando minha mão.

"Ainda não sei. Talvez uns sessenta mil. Parte cairá numa conta nova por causa das regras da empresa."

"Você merece. Trabalhou por nós dois este ano."

A frase quase me fez perder o controle.

Sorri e servi café.

Durante três dias, construí a armadilha com Marina e sob as orientações recebidas na delegacia. Comprei uma imitação de safira parecida com o pingente que minha mãe usava. Dentro do fecho havia um pequeno localizador comercial registrado em meu nome.

Guardei a peça num cofre portátil novo, no armário do escritório. A câmera cobria apenas aquele cômodo e a passagem comum, sem captar quarto ou banheiro. Os arquivos eram enviados automaticamente para uma conta à qual Caio nunca tivera acesso.

Na quinta-feira, deixei que ele me ouvisse abrir o cofre.

"O que está guardando?"

"Uma joia que a seguradora devolveu. Encontraram numa avaliação de lote. Talvez seja o pingente da minha mãe."

"Achei que fossem brincos."

Caio percebeu tarde demais que revelara atenção excessiva.

"Ela tinha um conjunto", respondi. "Vou mandar examinar amanhã."

Digitei a senha devagar, usando números sonoros no teclado. Quatro, oito, dois, seis.

Naquela noite, deixei sobre a mesa um comprovante falso de depósito do bônus e um cartão ligado a uma conta-isca. O saldo real era pequeno, mas qualquer tentativa de transferência geraria um alerta e preservaria os dados da operação.

Na manhã seguinte, vesti um blazer e arrastei uma mala pela sala.

"A reunião em Belo Horizonte vai até sábado", falei. "Marina vem ver você à noite."

"Não precisa. Sei me virar."

"Tem certeza?"

Ele tocou meu rosto.

"Vá tranquila. Não quero ser um peso."

Eu quase recuei. Não por acreditar nele, mas porque admitir a verdade ainda doía como arrancar uma parte do próprio corpo.

Beijei sua testa e saí.

Marina me esperava num apartamento alugado a quinze minutos dali. Renata e sua equipe acompanhavam as informações oficialmente disponíveis, sem entrar no imóvel. Minha função era observar, salvar e não voltar.

Durante quarenta minutos, nada aconteceu.

Caio permaneceu no sofá com a bengala ao lado. Ouviu música. Serviu água fingindo tatear a bancada, embora estivesse sozinho.

"Ele está atuando para a câmera?", sussurrei.

"Talvez procure onde você instalou", Marina respondeu.

Então o telefone dele tocou.

Caio olhou para a tela.

Não aproximou o aparelho do rosto. Não ativou leitor de tela. Leu.

Atendeu em voz baixa.

"Ela saiu."

Não conseguíamos ouvir a outra pessoa.

"Eu sei o que estou fazendo, Babi."

Babi.

Caio encerrou a ligação, levantou-se e deixou a bengala encostada no sofá.

Seus passos mudaram. Não havia hesitação, braços estendidos ou contagem de distância. Caminhou diretamente até o escritório, acendeu a luz e fechou a porta.

Na imagem seguinte, olhou ao redor procurando uma câmera. A que instaláramos parecia um sensor comum preso à estante.

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Ele abriu o armário e se ajoelhou diante do cofre.

Quatro. Oito. Dois. Seis.

A fechadura liberou.

Caio retirou o pingente e o ergueu contra a luz. Girou a pedra entre os dedos, examinando cor e acabamento com olhos que, durante meses, alegara não distinguirem nem meu rosto.

Eu parei de respirar.

Não era mais uma suspeita, um reflexo na cozinha ou uma gravação curta. Meu marido estava diante de mim, vendo tudo.

Marina segurou meu braço.

"Não volte para lá."

"Eu sustentei esse homem. Dei banho nele quando dizia ter medo de cair. Recusei uma promoção porque não podia viajar."

"Eu sei."

"Ele assistiu a tudo."

Chorei por menos de um minuto. Depois limpei o rosto e abri a planilha que preparara.

"Hora da retirada: 10h17. Cofre aberto com senha. Bengala deixada na sala. Registre."

Marina me olhou com tristeza e admiração.

"Isso pode esperar."

"Não. Foi assim que ele conseguiu me roubar: sempre que eu via um fato, ele me entregava uma emoção. Agora vou ficar com os fatos."

Caio colocou o pingente no bolso, fotografou o comprovante do bônus e pegou o cartão. Depois enviou uma mensagem, digitando sem dificuldade.

Minutos mais tarde, saiu do prédio usando óculos comuns. O localizador começou a se mover.

Seguimos à distância, enquanto a equipe de Renata acompanhava o trajeto. Caio chamou um carro por aplicativo e desceu diante de uma casa de penhores no centro de Campinas.

No caminho, o ponto do localizador parou duas vezes. A primeira foi diante de uma agência bancária. A segunda, numa loja de eletrônicos. Caio parecia testar se estava sendo seguido, atravessando ruas e mudando a rota a pé com uma segurança impossível para quem dizia ter perdido a visão havia meses.

Cada curva desenhada no mapa apagava uma lembrança: o braço que ele segurava para descer uma escada, a mão que colocava sobre meu ombro, a voz que pedia que eu descrevesse o pôr do sol.

Renata pediu que mantivéssemos distância.

"Não façam contato. Se ele abandonar o objeto, nós preservamos o trajeto e o restante das evidências."

Eu obedeci. Pela primeira vez desde o diagnóstico, proteger Caio não era minha responsabilidade.

Entrou com o pingente.

Às 11h06, recebi o primeiro alerta bancário: tentativa de consulta ao saldo da conta-isca.

Às 11h09, nova notificação: transferência PIX de R$ 24.900 rejeitada por limite insuficiente.

O destinatário apareceu por inteiro.

BN Consultoria e Gestão Ltda.

Marina fotografou a tela com outro aparelho e anotou o protocolo.

"É a empresa de Bárbara?"

"O CNPJ do extrato antigo tinha as mesmas iniciais. Agora temos o nome completo."

Renata recebeu a informação pelo canal combinado. Sua equipe se posicionou nas saídas da loja enquanto verificava a ocorrência, o bem rastreado e a tentativa de transferência.

Eu observava a porta do outro lado da rua.

Caio saiu segurando a bengala dobrável que levara na mochila. Antes de abri-la, o telefone vibrou.

Ele parou sob o toldo e tocou a mensagem de voz.

A voz feminina saiu alta o suficiente para o microfone ambiental do celular de Marina captar algumas palavras.

"Não volte para casa. Helena já sabe."

Caio ergueu a cabeça.

Viu o carro descaracterizado junto à esquina. Viu um investigador se aproximando pela calçada. Viu a mim do outro lado da rua.

Por um segundo, nossos olhos se encontraram.

Então meu marido jogou a bengala no chão e correu.

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