"O Marido Que Via Tudo" Capítulo 2 — A Sentença no Consultório
Capítulo 2 — A Sentença no Consultório
Saímos antes das seis da manhã.
Caio passou quase todo o trajeto com óculos escuros, o rosto virado para a janela. Quando perguntei qual era o nome da inflamação que tivera na juventude, respondeu que não lembrava. Quando pedi os exames antigos, disse que estavam arquivados na clínica.
A Clínica Horizonte ficava numa rua silenciosa nos arredores de Campinas. O prédio baixo tinha paredes bege, jardim bem cuidado e equipamentos que pareciam novos demais para o mobiliário da recepção.
A atendente reconheceu Caio antes que ele dissesse o nome.
"A doutora Bárbara está esperando."
Esperando.
Eu ainda pensava nessa palavra quando uma mulher de jaleco branco apareceu. Era elegante, devia ter pouco menos de quarenta anos e mantinha os cabelos presos num coque impecável.
"Caio Ferraz", disse ela. "Entre. Precisamos agir rápido."
Levantei junto.
"Sou a esposa dele."
A médica me ofereceu um sorriso profissional.
"Alguns exames exigem concentração e pouca interferência. Depois conversamos."
Caio apertou minha mão.
"Vai ficar tudo bem."
Ele falou como se estivesse tranquilizando a mim, mas seus dedos estavam gelados.
Esperei quase duas horas. Quando a porta se abriu, Caio saiu apoiado no braço da médica. Estava pálido.
Bárbara nos levou para uma sala menor e fechou a porta.
"Encontramos sinais compatíveis com uma neuropatia óptica progressiva", disse. "Ainda precisamos acompanhar a evolução, mas existe risco real de perda severa da visão."
"Severa quanto?", perguntei.
Ela fez uma pausa precisa.
"Pode chegar à cegueira total."
Caio cobriu o rosto e começou a chorar.
Eu fiquei imóvel. Meu cérebro procurava números, percentuais, qualquer coisa concreta.
"Quais exames confirmam isso? Há tratamento? Segunda opinião?"
Bárbara puxou uma pasta.
"O caso dele tem particularidades registradas desde a juventude. Vamos iniciar medicação e repetir os testes. Uma segunda opinião é um direito, claro, mas mudar de equipe agora pode atrasar decisões importantes."
"Quero cópia de tudo."
"A recepção fornecerá o resumo clínico. Os arquivos brutos ficam no sistema."
O resumo tinha duas páginas, termos vagos e nenhuma imagem dos exames. Pedi envio eletrônico. A atendente alegou instabilidade no portal.
Na volta, Caio chorou em silêncio.
"Você deveria ter se casado com alguém saudável", murmurou.
"Não diga isso."
"Posso perder o trabalho. Posso não ver o rosto dos nossos filhos."
Segurei a mão dele sobre o câmbio.
"Nós vamos buscar tratamento. E, se o pior acontecer, vamos reorganizar a vida. Você não vai passar por isso sozinho."
Naquela mesma semana, criei uma planilha. Registrei consultas, remédios, sintomas, despesas e horários. Liguei duas vezes para pedir os exames completos. Recebi apenas a mesma resposta: o sistema estava em migração.
Caio começou a evitar telas e luz forte. Primeiro, reduziu os atendimentos. Depois, disse que confundira as cores das roupas de um cliente e que não poderia arriscar a própria reputação.
"Vou suspender os contratos até melhorar."
"Tem reserva financeira?"
Ele baixou os olhos.
"Usei quase tudo para manter o negócio durante a pandemia."
Eu conhecia a movimentação recente da empresa dele, não o patrimônio pessoal. Ainda assim, não hesitei.
"Eu cubro as despesas por enquanto."
"Não quero viver às suas custas."
"Você é meu marido. Isso não é caridade."
Com o passar das semanas, a piora parecia diária. Caio esbarrava em batentes, derrubava copos e me chamava para ler mensagens. Eu instalava luzes mais fortes; ele dizia que só aumentavam a dor.
Bárbara confirmava tudo por telefone.
As despesas também cresceram. Havia consultas particulares, exames que o plano não cobria e suplementos vendidos por uma farmácia indicada pela própria clínica. Quando questionei um pacote de R$ 3.200, Bárbara explicou que o tratamento precisava ser iniciado antes de qualquer autorização burocrática.
Paguei. Exigi nota fiscal e acrescentei cada centavo à planilha.
Caio tentou me convencer a não registrar tudo.
"Olhar esses números me faz sentir inútil."
"Não são cobranças contra você. Preciso organizar nosso orçamento."
Ele me abraçou por trás e pediu desculpas. Na semana seguinte, surgiu outra cobrança, desta vez por uma avaliação funcional que nunca presenciei.
Quando telefonei para confirmar, a recepção transferiu a ligação para Bárbara. Ela respondeu com termos técnicos, falou rápido e terminou dizendo que minha ansiedade poderia piorar o estado emocional de Caio.
Desliguei me sentindo culpada por ter feito uma pergunta perfeitamente razoável.
"A progressão está agressiva", disse numa das ligações. "Evitem estresse e mudanças bruscas na rotina."
Eu comecei a sair mais cedo do trabalho e terminar relatórios de madrugada. Coloquei fita antiderrapante no banheiro, retirei tapetes e marquei potes com etiquetas em relevo.
Numa sexta-feira, minha diretora me chamou.
"Helena, seu desempenho continua bom, mas você faltou três vezes neste mês. Preciso saber se isso vai virar rotina."
"Meu marido pode ficar cego."
A expressão dela mudou.
"Sinto muito. Organize a equipe e me mantenha informada."
Saí da sala com a sensação de que duas vidas dependiam de mim.
Dois meses após a primeira consulta, Caio entrou no quarto tateando a parede.
"Acho que não consigo mais distinguir seu rosto."
Eu o abracei. Ele tocou minhas bochechas como se precisasse memorizar cada linha.
"Não importa", falei. "Eu ainda estou aqui."
Naquela noite, acordei com sede. A cozinha estava completamente escura. Quando acendi a luz, Caio estava junto à pia.
Meu cotovelo atingiu um copo, que girou na borda da bancada.
Antes que caísse, a mão dele avançou e o segurou no ar.
Ficamos em silêncio.
"Como você fez isso?"
Caio demorou meio segundo além do normal para responder.
"Ouvi o vidro raspando na pedra."
Sorriu, colocou o copo na bancada e estendeu a mão na direção errada.
"Pode me levar de volta para a cama?"
Eu o conduzi pelo corredor, mas continuei sentindo nos dedos a precisão daquele movimento.
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