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"O Marido Que Via Tudo" Capítulo 1 — O Homem Que Se Lembrava de Mim

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Capítulo 1 — O Homem Que Se Lembrava de Mim

Aos trinta e quatro anos, eu sabia detectar uma fraude contábil escondida em centenas de planilhas, mas ainda não tinha aprendido a responder à pergunta que minha família repetia em todo almoço de domingo.

"E o namorado, Helena?"

Naquela semana, minha mãe tentou suavizar a cobrança enquanto cortava o pudim.

"Não estou dizendo que você precise se casar. Só acho triste chegar em casa e não ter ninguém esperando."

"Eu tenho uma samambaia. Ela é muito dependente de mim."

Minha irmã riu. Minha mãe, não.

Eu trabalhava como gerente de controles internos em uma empresa de logística na Vila Olímpia. Gostava do meu salário, do apartamento que tinha comprado sozinha e da tranquilidade de não pedir permissão para viver. Não era contra o amor. Apenas nunca o colocara acima de todo o resto.

Foi por isso que quase recusei o convite para o encontro de ex-alunos do Colégio Monte Verde.

Aceitei porque minha amiga Marina Lopes prometeu ficar apenas uma hora. Duas horas depois, ela conversava com antigos professores, enquanto eu procurava uma saída no salão de um hotel em Pinheiros.

"Helena Duarte?"

Eu me virei.

Caio Ferraz continuava tão bonito quanto na época da escola. Mais velho, porém mais interessante. Alto, cabelos castanhos bem cortados, camisa clara com as mangas dobradas e um sorriso que parecia ter sido treinado para fazer uma pessoa esquecer o que pretendia dizer.

"Caio?"

"Você ainda inclina a cabeça antes de responder quando está desconfiada."

Aquilo me fez rir.

Ele tinha estudado um ano acima de mim. Na adolescência, era o garoto que todos conheciam e que eu observava de longe. Eu não esperava que ele se lembrasse do meu nome, muito menos daquele hábito.

"Você se lembra de mim?"

"Você apresentou um projeto sobre desperdício de água na feira de ciências. Corrigiu um professor no meio da exposição e ganhou mesmo assim."

"Eu tinha dezesseis anos."

"E já fazia todo mundo prestar contas."

Caio pediu licença para se sentar ao meu lado. Falou que trabalhava como consultor de imagem para executivos e artistas, quase sempre por indicação. Não tinha escritório fixo porque preferia atender cada cliente onde fosse necessário.

Conversamos até os funcionários começarem a recolher as taças.

Dois dias depois, ele me convidou para jantar.

Caio não tinha a pressa ansiosa dos homens que queriam impressionar. Escutava. Lembrava detalhes. Mandava café quando eu entrava em reuniões longas e nunca reclamava quando eu precisava remarcar um encontro.

Depois de três meses, conhecia meus horários, meus pratos favoritos e a história dos brincos de safira que tinham pertencido à minha mãe.

Numa noite chuvosa, ele me contou por que nunca se casara.

"Eu quase casei aos vinte e oito", disse, olhando para o copo. "Descobri que ela estava comigo e com outro homem. Não foi só a traição. Ela me fez duvidar da minha própria percepção."

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"Sinto muito."

"Passei anos achando que nunca confiaria em alguém outra vez. Aí encontrei você."

Eu queria acreditar que não estava sendo seduzida por uma frase bonita. Então fiz o que sabia fazer: verifiquei.

Consultei o CNPJ que aparecia nas notas emitidas por Caio, confirmei referências de dois clientes e pesquisei processos públicos em seu nome. Tudo parecia limpo. Ele ria da minha cautela.

"Você investigou até se eu pago o condomínio em dia?"

"Ainda não. Mas posso fazer isso."

"Faça. Quero passar na auditoria."

Seis meses depois do reencontro, Caio me levou ao terraço do prédio onde eu trabalhava. Não havia violinista nem fotógrafo escondido. Apenas as luzes de São Paulo e um anel discreto.

Antes de aceitar, pedi que conversássemos sobre dívidas, planos e divisão de despesas. Caio não se ofendeu. Abriu no notebook uma pasta com declarações, contratos e comprovantes de renda. Disse que admirava uma mulher que fazia perguntas difíceis antes de tomar decisões grandes.

Os documentos tinham consistência suficiente para uma conferência comum. Os valores batiam, os clientes existiam e até os metadados dos arquivos pareciam antigos. Eu não sabia que alguém já tinha preparado aquela pasta para sobreviver exatamente ao tipo de verificação que eu faria.

Também combinamos separação dos patrimônios anteriores e contribuição proporcional para as despesas. Caio aceitou tudo com facilidade.

"Seu apartamento é seu", afirmou. "Nunca quero que você pense que me aproximei por causa do que conquistou."

Mais tarde, eu lembraria dessa frase como se lembra do aviso impresso numa porta que escolheu abrir mesmo assim.

"Não quero salvar você de uma vida solitária", disse. "Quero construir uma vida que seja boa o bastante para nenhum dos dois querer fugir. Casa comigo?"

Eu disse sim.

Fizemos o casamento civil e uma recepção pequena. Marina assinou como testemunha. Caio se mudou para o meu apartamento, mas insistiu em pagar metade das despesas.

Nas primeiras semanas, eu acordava antes do despertador só para vê-lo dormindo ao meu lado. Pela primeira vez, dividir meu espaço não parecia uma perda.

Na terceira semana, cheguei da cozinha e encontrei Caio curvado no sofá, pressionando a mão contra o olho direito.

"O que aconteceu?"

"Uma dor. Parece que tem alguma coisa queimando atrás do olho."

Ele piscava com dificuldade. A testa estava úmida.

Peguei o celular.

"Vou chamar um carro. O pronto atendimento do Sírio fica a quinze minutos."

Caio agarrou meu pulso.

"Não. Lá, não."

A força do gesto me surpreendeu.

"Por quê?"

Ele soltou meu braço e respirou fundo.

"Quando eu era mais novo, tive uma inflamação parecida. Há uma clínica perto de Campinas que acompanhou meu caso. Eles guardam meus exames antigos."

"Campinas? Com essa dor?"

"A Clínica Horizonte. A doutora de lá conhece meu histórico."

"Caio, existem hospitais excelentes aqui. Podemos ir agora."

Ele abriu os olhos. Por um instante, não vi dor. Vi medo.

"Não é só uma crise, Helena. Naquela clínica, eles sabem o que eu realmente posso ter."

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