"A Filha da Empregada Tocou na Perna do Chefe da Máfia… E Revelou Algo Que Ninguém Viu" Capítulo 3 — Alguém Dentro Desta Casa
Camila Nogueira tremia tanto que mal conseguia segurar o copo.
Henrique tinha insistido em examiná-la antes de qualquer interrogatório.
Ela não apresentava lesões graves.
Mas passara horas trancada sem água, sem telefone e sem saber se alguém voltaria.
Dante entrou na pequena sala da ala médica.
Bruno fechou a porta.
Camila imediatamente se levantou.
"Senhor Montenegro..."
"Sente."
Ela obedeceu.
Dante permaneceu de pé.
"Quem fez isso?"
"Eu não sei."
Bruno cruzou os braços.
"Você acabou de dizer que alguém obrigou você a fornecer acesso."
"Sim."
"Então sabe alguma coisa."
Camila começou a chorar.
"Eu nunca quis machucar o senhor."
Dante não elevou a voz.
"Comece do início."
Três semanas antes, Camila recebera uma mensagem de um número desconhecido.
A pessoa sabia onde sua mãe morava.
Sabia o nome da escola do sobrinho.
Sabia quanto dinheiro havia em sua conta.
A exigência parecia simples.
Horários.
Nada mais.
Queriam saber quando Dante estaria na reabilitação e quando a sala ficaria vazia.
"Por que não contou?"
"Porque mandaram uma foto da minha mãe saindo de casa."
Bruno perguntou:
"Você encontrou essa pessoa?"
"Uma vez."
"Onde?"
"Na garagem."
"Viu o rosto?"
"Não. Estava escuro."
Dante colocou a chave de precisão sobre a mesa.
"Isso é seu?"
Camila olhou.
"Não."
"Você mexeu na órtese?"
"Não."
"Ricardo estava com você ontem?"
Ela hesitou.
"Sim."
"Por quê?"
"Ele queria saber se o senhor realmente estava piorando."
Dante ficou imóvel.
"Então Ricardo também estava investigando minha saúde pelas minhas costas."
"Ele disse que precisava saber a verdade antes da votação."
"E depois?"
"Ele foi embora."
"Quem entrou?"
Camila fechou os olhos.
"Eu ouvi a porta."
"Quem?"
"Não vi."
"Como conseguiu entrar?"
Ela engoliu em seco.
"Cartão."
Bruno se inclinou.
"Que cartão?"
"Preto."
O rosto dele mudou.
Dante percebeu.
"Explique."
"Cartões comuns da casa são cinza", disse Bruno. "Os pretos são de acesso integral."
"Quantos existem?"
"Cinco."
Dante já sabia os nomes antes de Bruno terminar.
O próprio Dante.
Bruno.
Teresa Montenegro.
Ricardo.
E Marcelo Ferraz.
Dante soltou uma risada baixa.
"Excelente."
Camila olhou para ele sem entender.
"Cinco pessoas podem entrar em qualquer cômodo da minha casa e três estão entre as pessoas em quem mais confiei."
Bruno não se ofendeu.
"Pode investigar meu cartão."
"Vou investigar todos."
Inclusive o próprio.
Dante não confiaria nem na memória enquanto não tivesse provas.
Bruno passou a madrugada reconstruindo acessos.
Às duas da manhã, encontrou alterações ainda mais graves.
Os relatórios médicos de Dante haviam sido modificados.
Escalas de dor.
Distâncias percorridas.
Tempo em pé.
Resposta muscular.
Em três semanas, alguém criara uma história perfeita nos arquivos.
Dante estava piorando.
Dia após dia.
No entanto, parte dos registros originais armazenados no equipamento de fisioterapia contava outra história.
Ele vinha melhorando.
"Olhe isso."
Bruno colocou duas telas lado a lado.
No arquivo oficial, Dante caminhara vinte e dois metros numa sessão.
No aparelho, cinquenta e oito.
No oficial, interrompera o exercício por dor.
No aparelho, completara toda a sequência.
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Isso é muito pior."
Dante virou-se.
"Por quê?"
"Porque não mexeram apenas na órtese."
Henrique apontou para os números.
"Construíram evidência médica de incapacidade."
A palavra ficou no ar.
Incapacidade.
Era exatamente o argumento de Ricardo para a votação.
Dante saiu da sala sem dizer nada.
Encontrou Isabela no corredor.
Ela segurava uma pequena mala.
Sofia estava ao lado dela.
"O que é isso?"
"Vamos embora."
"Não."
Isabela respirou fundo.
"Eu não estava pedindo autorização."
Dante parou.
Pouquíssimas pessoas falavam com ele daquela maneira.
"Alguém ameaçou você?"
"Não preciso esperar ameaçar."
"Então é mais seguro ficar."
"Seguro?"
Ela quase riu.
"Alguém mexeu na sua perna dentro da sua casa. Uma mulher foi trancada dentro da sua garagem. As câmeras foram apagadas."
Isabela aproximou-se.
"E o senhor está me dizendo que aqui é seguro?"
Dante não respondeu.
"Minha filha tem quatro anos."
"Eu sei."
"Ela não pertence a esse mundo."
"Nem deveria."
"Então deixe a gente sair."
Dante olhou para Sofia.
A menina apertava o brinquedo contra o peito.
"Se quem fez isso descobrir que ela viu alguma coisa, vai procurar vocês fora daqui."
Isabela ficou em silêncio.
"Enquanto vocês estiverem aqui, Bruno pode protegê-las."
"Bruno não conseguiu impedir que mexessem na sua órtese."
A frase atingiu os dois homens.
Bruno desviou os olhos.
Dante permaneceu sério.
"Tem razão."
Isabela não esperava aquilo.
"Mas agora sabemos que existe alguém aqui dentro."
"Isso deveria me tranquilizar?"
"Não."
Dante se aproximou um pouco.
"Deveria fazer você entender por que não vou fingir que sua filha não corre perigo."
Sofia puxou a saia da mãe.
"Mãe."
"O quê?"
"Eu lembrei."
Todos olharam para ela.
"Do homem?"
Sofia assentiu.
"Ele não estava sozinho."
Dante se abaixou.
"Com a moça do sapato?"
A menina negou.
"Outro homem."
Bruno perguntou:
"Você consegue mostrar quem era?"
Sofia olhou ao redor.
Então seus olhos pararam numa fotografia antiga na parede do corredor.
Era uma foto da família Montenegro tirada quase vinte anos antes.
Teresa estava mais jovem.
Ricardo tinha cabelos escuros.
Dante aparecia ao fundo, ainda adolescente.
No centro estava Otávio Montenegro.
Pai de Dante.
Morto havia dezessete anos.
Sofia caminhou até a fotografia.
Levantou o dedo.
Dante sentiu o corpo ficar rígido.
"Ele."
Isabela empalideceu.
"Tem certeza?"
Sofia assentiu.
"Ele estava lá."
Bruno encarou Dante.
Ninguém disse nada durante vários segundos.
Dante aproximou-se da fotografia.
Seu pai sorria para a câmera.
Um homem enterrado havia dezessete anos.
"Isso não é possível", murmurou Isabela.
Dante também sabia.
Mas Sofia apontava com absoluta convicção.
"Foi esse homem que você viu?"
A menina aproximou o rosto da fotografia.
Então franziu a testa.
"Não."
Dante respirou.
Sofia tocou o vidro exatamente sobre a mão de Otávio.
"Isso."
No dedo de Otávio havia um pesado anel preto com o brasão dos Montenegro.
Sofia levantou a cabeça.
"O homem tinha um igual."
Dante perdeu a expressão.
Bruno olhou novamente para a fotografia.
"Esse anel desapareceu quando seu pai morreu."
Dante sabia.
Ele próprio procurara por ele.
O anel nunca fora encontrado entre os objetos pessoais de Otávio.
Teresa sempre dissera que provavelmente havia sido perdido.
Dante olhou para Sofia.
"Você tem certeza?"
"Era igual."
Naquela madrugada, pela primeira vez em dezessete anos, Dante mandou abrir o cofre onde estavam guardados os documentos pessoais de seu pai.
E descobriu que o anel não era a única coisa que havia desaparecido depois da morte de Otávio Montenegro.
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