"A Filha da Empregada Tocou na Perna do Chefe da Máfia… E Revelou Algo Que Ninguém Viu" Capítulo 1 — A Menina Que Tocou na Perna do Chefe
O som da bengala de Dante Montenegro contra o mármore fez o salão inteiro ficar em silêncio.
Uma batida seca.
Depois outra.
Atrás das portas de vidro da sala de reuniões, seis homens aguardavam ao redor de uma mesa comprida de madeira escura.
Nenhum deles parecia disposto a esperar muito mais.
Isabela Oliveira Martins abaixou os olhos e continuou dobrando as toalhas sobre o carrinho de serviço.
Trabalhava havia oito meses na Mansão Montenegro, no Jardim Europa, e aprendera uma regra muito cedo: quando os homens da família se reuniam, os empregados desapareciam.
Naquela noite, porém, ela não podia desaparecer.
Sofia estava com ela.
A menina de quatro anos permanecia sentada no tapete, perto do carrinho, brincando com uma pequena placa de madeira cheia de trincos, fivelas e fechos.
Isabela tinha conseguido aquele brinquedo numa feira da Vila Mariana.
Sofia era fascinada por qualquer coisa que abrisse, fechasse ou fizesse clique.
Dante avançou mais dois passos.
Seu rosto não demonstrou nada.
Mas Isabela percebeu a força com que ele apertava a bengala.
Onze semanas antes, o carro de Dante havia sofrido um grave acidente na Marginal Pinheiros.
O joelho esquerdo fora fraturado. Ligamentos haviam sido lesionados. Os médicos garantiam que a cirurgia tinha sido um sucesso.
Mesmo assim, nas últimas três semanas, ele piorara.
Muito.
Dante Montenegro, o homem que comandava empresas de construção, logística, restaurantes e imóveis em São Paulo, agora precisava parar depois de atravessar poucos metros da própria casa.
E havia gente esperando exatamente por isso.
Ricardo Montenegro abriu uma das portas de vidro.
O homem de cinquenta e nove anos ajeitou o paletó.
"Dante."
Dante nem olhou.
"O quê?"
"Estamos esperando há vinte minutos."
"Continue esperando."
Ricardo estreitou os olhos.
"A votação precisa acontecer hoje."
Dante finalmente virou o rosto.
"Ela acontece quando eu entrar naquela sala."
"Talvez você não esteja entendendo a gravidade da situação."
Dante deu um sorriso sem humor.
"Eu sempre entendo quando alguém está tentando ficar com o que é meu."
Ricardo fechou a porta.
Isabela sentiu um arrepio.
Todo funcionário conhecia os rumores.
Se Dante fosse considerado temporariamente incapaz de comandar os negócios da família, Ricardo poderia assumir boa parte de suas funções.
A dor na perna tinha deixado de ser apenas um problema médico.
Agora era poder.
Dante deu mais um passo.
Parou.
O músculo de seu maxilar endureceu.
Foi nesse momento que Sofia levantou.
Isabela só percebeu quando ouviu o brinquedo cair no tapete.
"Sofia."
A menina já estava caminhando na direção de Dante.
Bruno Almeida, chefe da segurança, reagiu imediatamente.
"Ei."
Isabela largou a toalha.
"Sofia!"
A menina se ajoelhou ao lado da perna esquerda de Dante.
Bruno avançou.
Dante levantou uma mão.
"Pare."
Bruno congelou.
Isabela ficou branca.
"Senhor Dante, me desculpe. Ela não costuma fazer isso."
Sofia não olhava para o rosto dele.
Nem para a bengala.
O olhar estava preso à parte inferior da órtese preta, parcialmente escondida pela calça.
"Filha, venha aqui."
Sofia franziu a testa.
"Está errado."
Isabela fechou os olhos por um instante.
"Sofia."
Dante olhou para a menina.
"O que está errado?"
Ela apontou.
"Isso."
Dante acompanhou o dedo pequeno.
Uma peça metálica aparecia sob a tira inferior da órtese.
"O que tem isso?"
Sofia correu até o brinquedo, pegou a placa e voltou.
Mostrou uma das pequenas fivelas.
"Esse fica assim."
Ela virou o mecanismo.
"Mas o seu está ao contrário."
Dante não respondeu.
Isabela tentou puxar a filha delicadamente.
"Chega. Vamos."
"Espere."
A voz de Dante fez Isabela parar.
Ele olhou para Bruno.
"Chame o doutor Henrique."
O médico estava na ala de reabilitação e apareceu poucos minutos depois.
Dr. Henrique Sampaio se abaixou diante da perna de Dante.
"Quem mexeu nisso?"
"Ninguém."
Henrique tocou a tira inferior.
Seu semblante mudou.
Dante percebeu.
"O que foi?"
"Preciso soltar isso."
"Solte."
Henrique abriu a tira.
Dante puxou o ar.
A pressão sobre a panturrilha diminuiu quase imediatamente.
Bruno se aproximou.
"Henrique?"
O médico examinou a pequena placa de retenção.
"Está invertida."
Isabela sentiu Sofia apertar sua mão.
Dante permaneceu imóvel.
"Isso pode acontecer sozinho?"
Henrique demorou dois segundos demais.
"Não."
Atrás das portas de vidro, Ricardo e os outros homens observavam.
Dante olhou novamente para a peça.
"O que acontece se alguém usar a órtese assim?"
"Pressão irregular."
"Continue."
"Inflamação. Dor. Irritação dos nervos."
"Dificuldade para andar?"
Henrique respirou fundo.
"Sim."
O silêncio tornou-se pesado.
Durante três semanas, Dante tinha acreditado que seu corpo estava falhando.
Durante três semanas, Ricardo dizia aos outros membros da família que o acidente havia deixado consequências permanentes.
Naquela noite, documentos de transferência temporária de autoridade estavam esperando pela assinatura dele.
Dante virou a cabeça lentamente.
Ricardo estava olhando para ele.
"Quando essa órtese foi verificada pela última vez?"
"Hoje de manhã", respondeu Henrique.
"Por quem?"
"Camila começou sua sessão. Depois, um técnico..."
"Quem tocou nela?"
"Dante, há várias pessoas na equipe."
"Quero os nomes de todas."
Ricardo abriu a porta novamente.
"O que está acontecendo?"
Dante olhou para ele.
"Uma criança encontrou algo que meus médicos não encontraram."
Ricardo soltou uma risada curta.
"Uma criança?"
Sofia se escondeu atrás de Isabela.
Dante observou Ricardo por alguns segundos.
Então olhou para Bruno.
"Tranque a mansão."
Bruno ficou sério.
"Bloqueio completo?"
"Completo."
Ricardo perdeu o sorriso.
"Você está exagerando."
Dante apoiou a mão no braço da poltrona e se levantou.
Henrique tentou ajudá-lo.
"Não."
Dante colocou peso na perna esquerda.
A dor veio.
Mas estava diferente.
Menos aguda.
Ele deu um passo.
Isabela prendeu a respiração.
Depois outro.
E mais um.
Bruno ficou imóvel.
Ricardo também.
Dante atravessou parte do salão sem parar.
Havia dor, mas não aquela sensação brutal que o obrigava a retirar o peso da perna.
Ele parou diante do tio.
"A votação foi cancelada."
Ricardo cerrou a mandíbula.
"Você não pode cancelar porque uma menina mexeu na sua órtese."
"Posso cancelar porque esta casa é minha."
"Dante..."
"Hoje ninguém sai daqui sem autorização."
Ricardo aproximou o rosto.
"Você está acusando sua própria família?"
"Eu ainda não acusei ninguém."
Dante sustentou o olhar.
"Mas você parece preocupado antes mesmo de saber o que encontramos."
Ricardo recuou.
Dante chamou Bruno.
"Quero todas as gravações da ala de reabilitação dos últimos trinta dias."
"Sim."
"Faça cópias antes de assistir."
Bruno entendeu o motivo.
Se alguém havia conseguido mexer na órtese, talvez também pudesse mexer nas câmeras.
Dante voltou-se para Isabela.
"Você e sua filha ficam aqui esta noite."
Ela empalideceu.
"Senhor Dante, Sofia não quis causar nenhum problema."
"Não é punição."
"Então deixe a gente ir."
"Não."
Isabela ergueu o queixo.
"Eu trabalho para o senhor. Minha filha não."
Dante pareceu surpreso com a resposta.
"Se alguém fez isso comigo e sua filha viu alguma coisa, sair desta casa pode colocá-la em perigo."
Isabela apertou Sofia contra o corpo.
O medo mudou de forma.
Dante se abaixou lentamente até ficar mais próximo da menina.
"Sofia."
Ela olhou para ele.
"Você viu alguém mexendo nisso?"
A menina ficou quieta.
"Sofia?", insistiu Isabela.
Ela assentiu.
Bruno imediatamente se aproximou.
"Quando?"
"Ontem."
Dante não piscou.
"Você estava aqui?"
Sofia apontou para o corredor da ala de reabilitação.
"A mamãe foi buscar toalhas."
Isabela ficou pálida.
"Você ficou no carrinho."
"Eu vi o homem."
Dante baixou a voz.
"O que ele fez?"
Sofia tocou a fivela de seu brinquedo.
"Ele fez clique."
Ninguém falou.
"Você lembra quem era?"
Sofia olhou através das portas de vidro.
Seis homens estavam na sala.
O pequeno dedo começou a se mover.
Passou por um.
Depois por outro.
Até parar.
Isabela levou a mão à boca.
Bruno endureceu o rosto.
Sofia estava apontando diretamente para Ricardo Montenegro.
O sorriso do homem desapareceu.
Dante permaneceu imóvel.
A menina tinha encontrado uma peça invertida.
Agora acabara de apontar para o homem que queria tomar o lugar dele.
E Dante ainda não sabia se Sofia tinha acabado de identificar um culpado...
...ou alguém queria desesperadamente que ele acreditasse nisso.
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