"A Filha da Empregada Dormiu no Colo do Chefe da Máfia" Capítulo 5
Sofia correu em direção ao quarto de Ema. Alessandro segurou seu braço tempo suficiente para ouvir Luca pelo rádio: Helena já estava com a menina e seguia para a sala protegida. Ele soltou Sofia em seguida e os dois desceram pela escada interna.
O escuro mudara a casa. As pinturas nas paredes eram manchas, os corredores pareciam mais compridos, e cada porta fechada sugeria uma pessoa atrás dela. Sofia conhecia o cheiro dos produtos de limpeza em cada ala; orientou Alessandro pelo corredor onde Rosa guardava os lençóis, longe da entrada atingida.
Encontraram Ema sentada entre Helena e Bianca, apertando o coelho contra o rosto. O gerador fez as lâmpadas piscarem antes de estabilizar.
Um guarda informou que quatro homens tinham surgido de um antigo túnel de manutenção. Luca coordenava a contenção, e ninguém daquela sala havia sido ferido.
— Por que há um túnel? — Sofia perguntou.
— A propriedade tinha saídas de serviço antes de eu nascer — Alessandro respondeu.
— Quem conhece o acesso?
Ele olhou para o rádio. A pergunta já estava em sua cabeça.
O ataque durou minutos, embora as sirenes parecessem insistir por uma noite inteira. Ema chorou quando ouviu um vidro quebrar.
Sofia a embalou e pediu a Helena que a levasse para um quarto sem janelas voltadas para o jardim. Alessandro ficou à porta até o som dos passos diminuir.
De manhã, Rosa apareceu com panquecas. Ema repartiu uma delas e anunciou que Alessandro devia comer, pois havia dado o brócolis dele à menina na noite anterior.
A discussão sobre quantas frutas cabiam no prato pareceu absurda diante dos seguranças no hall. Sofia agradeceu pela discussão.
Luca chegou durante o café. Os registros mostravam que uma cópia das plantas do túnel e a escala dos turnos saíra de um computador ligado à administração da casa. A credencial pertencia a Vítorio.
— Ele cuidou de mim quando meu pai morreu — Alessandro disse.
Nada no tom indicava que esperava consolo. Vítorio lhe ensinara a montar a cavalo, o nome de cada empregado e a diferença entre um acordo frágil e uma ameaça.
Sofia ouvira a história de sua lealdade desde o primeiro dia de trabalho. Olhou para a planta aberta na mesa e lembrou o rosto dele ao encontrar Ema no escritório.
— Ele sabia da menina antes dos convidados saberem — ela disse.
Alessandro pediu que chamassem Vítorio. Ele já não estava na propriedade. Deixara o carro no estacionamento de uma clínica e desaparecera por outra saída.
Sofia não quis acompanhar a busca: Ema precisava de uma presença conhecida. Passou a manhã ajudando Helena a fazer um castelo com caixas vazias.
O castelo ganhou quatro portas, três janelas e um estábulo grande demais para a égua Bela. Ema insistiu que Bianca governaria tudo.
Enquanto a filha recortava papel, Sofia lia os números da denúncia de Daniel. A linha de segurança aprovada tinha uma assinatura eletrônica adulterada; duas fotografias mostravam a troca de etiquetas nas vigas. Ela entendia pouco de engenharia, mas entendia a decisão do marido de registrar algo que considerava perigoso.
O telefone antigo havia sumido. A cópia remota estava agora duplicada em mídias lacradas, com uma delas entregue a uma procuradora por intermediário.
Sofia pediu recibos e protocolo de recebimento. Luca ergueu a sobrancelha; Alessandro disse para lhe mostrarem tudo.
A confiança, ela decidiu, precisava existir também no papel.
No fim da tarde, uma equipe localizou Vítorio. Alessandro avisou a Sofia onde estaria e em quanto tempo esperava voltar. Ela percebeu o esforço por trás da frase: aquele homem se acostumara a sair sem dizer a ninguém para onde ia.
Ema ergueu um morango para ele.
— Para você não ficar bravo.
Alessandro aceitou. Sofia esperou até que a filha fosse à cozinha com Rosa.
— Quero que volte vivo — disse.
Ele inclinou levemente a cabeça, sem recorrer a um sorriso. A promessa que fez foi pequena: ligaria quando saísse da reunião. Sofia a aceitou justamente por ser possível cumpri-la.
Quatro horas depois, a chamada chegou. Vítorio estava vivo e sob custódia, cooperando para obter uma redução de pena.
Tomás Duca também estava vivo. A primeira certidão de óbito fora produzida com a identidade de outro homem, enquanto o tio transferia ativos do próprio irmão e se associava a Leal.
— Por que ele quis que você acreditasse que morreu? — Sofia perguntou.
— Porque eu teria procurado os desvios. Porque precisava que a família continuasse usando as rotas sem olhar quem colocava carga nos nossos contêineres.
A voz de Alessandro se tornou mais baixa.
— E Vítorio abriu a passagem para ele ontem.
Sofia fechou a porta do quarto de Ema e se sentou no chão do corredor. A fotografia recente do tio havia confirmado um fantasma. A confissão do homem que criara Alessandro lhe dava agora uma chave de verdade para todas as portas da casa.
Ema saiu do quarto trazendo uma almofada, disposta a sentar ao lado da mãe. Sofia desligou a ligação e lhe ofereceu lugar. A menina contou que sonhara com Bela escondida numa cozinha pequena demais, e que alguém precisava comprar uma casa maior para todos os cavalos.
— Não vamos comprar uma casa para cavalos — Sofia disse.
— Só um quarto, então.
A negociação absurda a fez rir. Depois do telefonema, esperara sentir apenas raiva.
Encontrou, em vez disso, a filha inventando um lugar seguro para tudo o que amava. Sofia prometeu que voltariam a ver a égua quando fosse possível, sem transformar o passeio numa garantia que não podia controlar.
Luca enviou um relatório da prisão de Vítorio. Havia recibos, mensagens e um registro de acesso ao túnel.
Alessandro não precisava que Sofia acreditasse apenas na palavra do mentor traidor. Ela examinou os horários: o envio da escala acontecera depois de Ema subir ao escritório.
Vítorio conhecera a menina antes de entregar o mapa.
O pensamento lhe trouxe uma raiva nova. Em situações de ameaça, Sofia tentava distinguir quem comandava, quem obedecia e quem escolhera não interromper nada. Ema não precisava entender essa cadeia; um dia, porém, teria o direito de saber que a mãe fizera a pergunta até o fim.
Na manhã seguinte, Sofia pediu a Luca o número de cada funcionário retirado da ala oeste. Uma camareira fora atendida por causa da fumaça, e um guarda machucara a mão ao fechar o acesso. Alessandro providenciara assistência médica, mas Sofia quis que os empregados soubessem diretamente o que ocorrera e onde poderiam registrar o depoimento sem passar pelo administrador que os havia traído.
Rosa reuniu a equipe na cozinha. Algumas pessoas tinham medo de falar diante dos seguranças; outras estavam irritadas por terem sido impedidas de telefonar à família durante o ataque.
Sofia deixou que explicassem. Alessandro ouviu sem transformar cada queixa numa acusação contra si.
Anotou que os protocolos de emergência haviam sido escritos para proteger os arquivos e as entradas, com pouca atenção aos funcionários que circulavam por elas.
— Podem ir para casa se precisarem — disse ele. — A casa vai pagar os turnos e o transporte.
Uma copeira perguntou se isso significava perder o emprego. Ele respondeu que não e pediu a Rosa que organizasse contatos para a manhã seguinte.
Sofia observou que uma decisão assim precisava chegar por escrito; pessoas assombradas por um patrão raramente confiavam numa promessa feita diante de guardas. Alessandro aceitou.
Quando ficaram a sós, ele perguntou por que ela continuava trabalhando em problemas que não eram seus. Sofia pensou nos onze meses em que aquelas pessoas dividiram café, horários e notícias de crianças doentes.
A casa não funcionava apenas por ordens dadas no escritório. Existia porque alguém lembrava de trocar a água de um vaso e de acender a luz para quem saía tarde.
— São problemas meus porque trabalho com eles — respondeu. — E porque Ema estava aqui.
Alessandro olhou para o corredor onde a filha dela caminhava com Helena. Sofia percebeu que ele começava a enxergar uma forma diferente de responsabilidade, mais difícil de delegar.
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