"A Filha da Empregada Dormiu no Colo do Chefe da Máfia" Capítulo 4
Carlo Marconi entrou na biblioteca carregando luvas dobradas. Cumprimentou Alessandro como alguém que já dividira muitos jantares com ele e falou o nome de Sofia como se tivesse o direito de usá-lo.
Ela examinou o rosto tranquilo, as têmporas prateadas, o relógio discreto. Parecia o tipo de homem que financiava placas com seu próprio nome em hospitais.
— Daniel Carvalho — disse Sofia. — O senhor lembra desse nome?
Marconi demorou meio segundo para responder. Um homem acostumado a esquecer funcionários jamais precisaria de tanto tempo.
— Lembro da ocorrência.
— Franco Bellini diz que o senhor mandou silenciá-lo.
Marconi virou as luvas entre os dedos. Alegou que Bellini enfrentava acusações e procurava aliviar a própria situação.
Sofia não recuou. Perguntou por que um telefone havia desaparecido de seu apartamento três anos depois, no mesmo dia em que encontrara a carta do marido.
— Porque alguém está eliminando os vestígios de uma operação antiga — ele respondeu. — Inclusive os meus.
Alessandro fez um sinal para Luca, junto à porta, continuar gravando. Marconi explicou que dirigira uma parte da distribuição e financiara contratos de fachada. Apontou outro homem como responsável por compradores, acesso às alfândegas e proteção política: Vítor Leal, ex-senador que presidia uma companhia de logística.
— Está dizendo isso por arrependimento? — Sofia perguntou.
— Por sobrevivência.
Ela acreditou naquela palavra. Marconi contou que motoristas ligados à remessa tinham desaparecido.
O contador pedira demissão e sumira antes de receber o último pagamento. Havia uma ordem para procurar o arquivo de Daniel; depois, todos que conheciam os detalhes poderiam ser descartados.
Alessandro perguntou por Isabela e Mateus. Marconi não negou sua participação na escolha do veículo e do trajeto.
Afirmou que a decisão final viera acima dele e que a operação devia desestabilizar o chefe Duca. A frase soou vazia diante dos nomes de uma mulher e de um bebê.
Alessandro avançou. Sofia viu a mão de Luca alcançar o rádio. Tinha medo daquele homem e, mesmo assim, reconheceu que matá-lo ali encerraria o depoimento antes de chegar à pessoa que dera a ordem.
— Precisamos que ele fale diante de quem possa usar o que sabe — ela disse.
Alessandro parou. Marconi ajeitou a gola, perturbado por descobrir que sua saída dependera justamente da viúva de Daniel.
— Quando eu encontrar o arquivo, vou entregá-lo ao Ministério Público e à Polícia Federal — Sofia falou. — Pode dizer a Leal que não serei intermediária de nenhum acordo.
— Ele não vai procurar a senhora primeiro. Vai procurar a menina.
A quietude que se seguiu não teve nada de negociação. Alessandro mandou que Luca acompanhasse Marconi até o portão e registrasse todas as declarações. Depois reforçou a segurança perto do quarto de Ema.
— Preciso de ar — Sofia pediu.
Na varanda, o jardim já estava escuro. Alessandro saiu alguns minutos depois, trazendo um casaco que deixou ao alcance dela. Não tentou vesti-la, e esse pequeno espaço para uma escolha lhe trouxe alívio.
— Marconi disse que Ema serve de pressão contra nós dois — ela observou.
— Disse.
— Contra mim, eu entendo. Contra você?
Ele olhou para a vidraça iluminada onde se via o desenho roxo de uma gata preso com fita.
— Aconteceu sem que eu pedisse.
Sofia quis perguntar se se referia a Ema ou a ela. Não perguntou.
Desde a morte de Daniel, toda possibilidade de afeto vinha acompanhada da sensação de abandonar algo. Alessandro conhecia o mesmo território.
Mais tarde, no quarto da menina, ele falou de Isabela pela primeira vez sem responder a uma pergunta da investigação. Ela cultivava flores, cantava enquanto se preparava para reuniões e queimava o arroz sempre que prometia cozinhar. Sofia contou que Daniel deixava bilhetes com recados práticos e assinava cada um como se fosse uma carta.
— Sinto culpa quando rio — ela admitiu.
Alessandro pousou a mão na cadeira, perto da dela.
— Eu também.
Ema abriu os olhos, levou as duas mãos dos adultos até a coberta e determinou que todos dormissem. Sofia deixou a própria mão onde estava por alguns segundos. A criança logo retomou a respiração profunda.
O telefone de Luca vibrou. Daniel mantivera um servidor particular contratado sob outro nome. A chave fora anotada na documentação antiga da obra; o arquivo, porém, continuava fechado por senha.
Sofia pensou na frase que o marido dizia a cada saída de casa: volta em segurança. Ele a repetia mesmo quando discutiam, mesmo ao sair atrasado. Digitou uma versão sem espaços: VOLTAEMSEGURANCA.
O monitor abriu uma lista de fotografias, manifestos, recibos e nomes. Ela conferiu uma foto da obra, ampliou uma figura no segundo plano e viu um homem mais velho ao lado de Marconi. Alessandro segurou a borda da mesa.
— É meu tio Tomás. Morreu cinco anos atrás.
Luca leu a data registrada pelo servidor. A imagem fora enviada oito meses antes.
Sofia conferiu de novo. Não havia erro de ano.
— Então alguém que não devia estar vivo trabalhou naquela obra depois da morte de Daniel — disse ela.
Antes que pudessem abrir o restante da pasta, as luzes da casa se apagaram. Um alarme vermelho se acendeu no corredor. O primeiro disparo veio de baixo, perto da entrada de serviço.
A memória da senha permaneceu na tela por poucos segundos. Sofia a havia testado sem acentos e com letras grandes, porque Daniel usava o teclado do celular com uma mão só enquanto prendia ferramentas com a outra. O detalhe permitira abrir o arquivo antes do corte de energia.
Ela pediu que Luca fotografasse também a sequência dos nomes e os horários dos uploads. Marconi, Leal, Bellini, funcionários aduaneiros; cada pasta tinha um número de contêiner. Alessandro observou que parte das remessas atravessara uma empresa da própria família, embora o conselho nunca tivesse recebido aquelas faturas.
— Se isto sair, seu nome também vai aparecer — Sofia disse.
— Vai.
— Mesmo se a rede usou suas rotas sem sua ordem, terá de provar isso.
Ele assentiu. A mesma exigência que fizera aos outros voltava para dentro de sua casa. Sofia viu nele a vontade de fechar o computador e resolver tudo em reuniões privadas, seguida do esforço de permanecer ali, olhando para o que Daniel registrara.
Quando a fotografia de Tomás surgiu, Alessandro contou que o tio havia sido dado como morto após um incêndio num depósito. Ele estivera no enterro. O homem na foto tinha a mão esquerda voltada para a câmera; uma antiga cicatriz junto ao polegar coincidia com a lembrança de infância que Alessandro possuía.
— Alguém pode alterar uma data — Luca ponderou.
— Então precisamos confirmar pelo original — Sofia respondeu.
Alessandro ampliou o número de série no capacete de segurança ao fundo. Aquele modelo só fora fornecido à obra depois do enterro de Tomás.
Luca começou a anotar as verificações possíveis. Foi nessa hora que o alarme interrompeu todos os raciocínios.
No corredor, Rosa apareceu com uma lanterna reserva. Não fazia perguntas sobre o conteúdo do computador, mas sabia quantas pessoas ocupavam cada quarto.
Entregou a Sofia uma lista manuscrita de funcionários em serviço e outra com o trajeto de Helena até a sala protegida. Luca, pelo rádio, confirmou que as duas haviam chegado.
Sofia percebeu então que o apagão não eliminara todas as alternativas. A cozinha tinha uma porta para o pátio interno; a lavanderia, uma escada própria; os lençóis de duas alas podiam bloquear a visão de um corredor. A planta que aprendera trabalhando contava uma história diferente da que a segurança desenhara com câmeras.
Alessandro pediu que ela ficasse atrás dele. Sofia apontou o carrinho de serviço próximo à parede e explicou que poderiam alcançar a menina por outro caminho.
Pela primeira vez desde o ataque, ele pediu que ela o guiasse. Sofia conduziu os dois até o armário de enxoval, passando sem ruído pelas portas dos quartos vazios.
Quando encontraram Helena, Ema correu direto para a mãe. Alessandro se ajoelhou para confirmar que não havia ferimentos.
A menina mostrou uma marca de adesivo no pulso, como se fosse o único dano relevante. Sofia soube que dali em diante não aceitaria uma proteção planejada sem consultar quem conhecia a casa por dentro.
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