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"A Filha da Empregada Dormiu no Colo do Chefe da Máfia" Capítulo 3

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No fim da tarde, Ema apareceu à porta com botas cor-de-rosa e exigiu a visita prometida aos cavalos. Sofia ia dizer que não podiam sair. Alessandro verificou com Luca o perímetro e respondeu que poderiam ver os animais do galpão coberto, acompanhados por dois guardas.

Foi um pedaço de tarde possível. A égua castanha chamava-se Bela e aceitou maçã cortada na mão aberta da menina.

Ema quis saber se poderia levá-la para o apartamento; Sofia explicou que a cozinha não tinha espaço para uma égua. Alessandro deixou escapar um riso curto, depois fingiu tossir.

— Eu ouvi — disse Sofia.

— Foi a chuva no telhado.

Ema apontou para ele, satisfeita por ganhar uma discussão contra um adulto. O estampido veio antes que terminasse a provocação.

Uma janela lateral se estilhaçou. Alessandro puxou mãe e filha para trás de uma parede de concreto, cobriu Ema com o próprio corpo e ordenou que os guardas se afastassem da abertura.

Sofia abraçou a menina até sentir seus soluços desacelerarem. Lá fora a chuva apagava pegadas e tornava as vozes dos seguranças confusas. Luca encontrou uma arma abandonada perto da trilha atrás da propriedade; a trajetória do disparo indicava o vão por onde Ema acabara de passar.

De volta à casa, Helena examinou a criança, que não apresentava ferimentos. Rosa preparou leite morno. Ema quis o coelho, e depois segurou a manga de Alessandro até ele se sentar ao lado dela.

Sofia encarou o vidro da janela com a marca do impacto.

— Quem atirou sabia que ela estaria ali?

— Ainda vamos descobrir — respondeu Alessandro.

Ele não prometeu o impossível. Sofia agradeceu, embora preferisse uma resposta mais confortável.

Luca trouxe Franco Bellini ainda naquela noite. Havia localizado o supervisor saindo de um depósito e o convencera a acompanhá-lo depois de mostrar a denúncia apagada. Alessandro chamou uma advogada e um investigador de confiança para ouvir o depoimento registrado; Sofia insistiu em fazer as perguntas que lhe cabiam.

Franco tinha os mesmos olhos cansados da fotografia do funeral. Não conseguiu mantê-los nela.

— Por que apagou o que Daniel escreveu?

— Eu devia dinheiro. Disseram que a obra seria fechada e todos perderiam o emprego.

— Disseram quem?

— Gente do Marconi.

Daniel descobrira componentes de armamento escondidos entre materiais de construção. Fotografara manifestos e uma remessa inteira cujo destino final não aparecia na documentação.

Franco denunciara a descoberta aos superiores. Depois, alguém danificara a linha de segurança que Daniel usaria no turno da manhã.

— Você sabia que fariam isso? — Sofia perguntou.

Franco respondeu que esperara uma ameaça, não uma morte. Ela não soube se acreditava. O homem havia escolhido calar durante três anos; agora só falava porque outra pessoa lhe fechara as saídas.

Alessandro perguntou sobre Isabela. O rosto de Franco empalideceu. Ele dissera, anos antes, que Marconi organizara o atentado ao carro para atingir a empresa Duca, que bloqueava certas rotas de transporte.

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Alessandro se aproximou da mesa. A cadeira de Franco raspou o piso.

Sofia falou o nome dele uma vez, depois outra, e mencionou Ema dormindo no andar de cima. O homem parou, as mãos abertas sobre a madeira.

— Registrem tudo e entreguem à investigação — disse por fim.

Mais tarde, Franco revelou que o telefone antigo não guardava a única cópia. Daniel havia mencionado um arquivo remoto protegido por uma senha que Sofia entenderia. O endereço da hospedagem estava em anotações antigas do canteiro, talvez ainda acessíveis.

O interfone do portão interrompeu a conversa. Um único veículo pedia entrada, com autorização formal para visitar Alessandro. A câmera mostrou Carlo Marconi ao volante.

— Ele veio sozinho? — perguntou Sofia.

— Diz que sim — Luca respondeu. — Um segundo carro está esperando longe da rua.

Sofia pensou no vestido vermelho da filha, na fotografia da linha cortada que nunca vira e no futuro inteiro que Daniel perdera. Pediu que Helena permanecesse no quarto com Ema.

— Deixe Marconi entrar. Quero perguntar a ele por que acreditou que minha família não teria ninguém para fazer perguntas.

Alessandro a encarou, avaliando os riscos. Luca anunciou que registraria a visita e manteria uma saída aberta.

Sofia não precisou de autorização para se dirigir à biblioteca. Quando passou pela porta, Bianca roçou suas pernas e desapareceu na direção da escada.

Pela primeira vez em três anos, Sofia não saiu correndo atrás de uma resposta. Esperou que a resposta entrasse e visse seu rosto.

Antes de Marconi cruzar o portão, Sofia foi ao quarto de Ema. A menina insistia em separar os lápis para terminar o castelo da gata. Sofia explicou que conversaria com um homem ligado ao trabalho de Daniel e que Helena ficaria com ela até o jantar.

— Papai vai vir? — Ema perguntou.

— Não, meu amor. Vou falar de algo que ele deixou escrito.

Ela mostrara fotografias de Daniel à filha desde pequena. Mesmo assim, havia perguntas para as quais faltava uma idade certa e sobravam adultos que diziam para esquecer. Sofia prometeu contar a Ema o que descobrisse quando pudesse fazê-lo de um modo que não a assustasse ainda mais.

Helena fechou a porta com cuidado. No hall, Luca apresentou um gravador e perguntou se Sofia queria que a advogada estivesse presente.

Ela quis. Não desejava repetir o erro de assinar papéis sobre a morte do marido enquanto outras pessoas decidiam o que significavam.

Ao atravessar a biblioteca, notou os retratos de família acima da lareira. Isabela aparecia num deles com um bebê no colo.

Sofia não conhecera aquela mulher, mas reconheceu a maneira de apoiar a cabeça de um filho adormecido. Segurou a carta de Daniel no bolso e esperou o som do carro estacionar.

Antes de descer, Sofia pediu à advogada que registrasse também o disparo no estábulo como fato separado. Ninguém podia reduzir uma tentativa contra a menina a uma extensão do conflito financeiro entre homens ricos. Helena trouxera o relatório pediátrico, com a hora da avaliação e a descrição da crise de medo de Ema.

No quarto, Sofia encontrou o coelho sobre a cadeira. A pelúcia havia perdido parte do enchimento numa costura antiga.

Daniel escolhera aquele brinquedo numa banca de estrada na semana em que souberam da gravidez. Prometera consertar a orelha torta e não tivera tempo.

Sofia a costurara meses depois, guiada por um vídeo no celular e por uma criança que ainda nem sabia pedir ajuda.

Alessandro bateu à porta aberta. Ela lhe mostrou a costura e contou a história, sem transformar Daniel em pista ou prova.

Ele disse que Mateus tinha um cavalinho de madeira; após a explosão, fora o único objeto reconhecível entregue à família. Sofia lhe perguntou onde estava.

Num armário do escritório, respondeu. Por um momento os dois ficaram em silêncio diante do tamanho que coisas pequenas podiam adquirir.

— Quando isto acabar, eu gostaria de ver a fotografia dele — Sofia disse.

— Vou mostrar.

Ela deixou o coelho no travesseiro de Ema, já segura com Helena. Voltou ao corredor porque Marconi chegara. O homem no portão possuía dinheiro e nomes influentes; o que Sofia levava consigo era uma carta, um depoimento registrado e a determinação de não deixar a criança virar instrumento de barganha.

Enquanto aguardava na biblioteca, Sofia deixou o gravador ao lado da advogada e pediu uma cópia do registro da portaria. O veículo de Marconi entrara com o nome verdadeiro; ninguém poderia alegar depois que aquela conversa nunca acontecera.

A advogada explicou que o testemunho de Bellini também precisaria ser confirmado por provas externas, e Sofia concordou. Não queria uma condenação erguida sobre a palavra de um homem que já mentira no funeral.

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