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"A Filha da Empregada Dormiu no Colo do Chefe da Máfia" Capítulo 2

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Na sala leste, Ema escolheu um lápis roxo para desenhar Bianca com patas enormes. Helena lhe trouxe adesivos e examinou suas mãos, como se uma avaliação tão simples pudesse devolver normalidade àquela manhã. Rosa pousou arroz, frango e uma tigela pequena de feijão sobre a mesa.

Sofia não tinha fome. Quando a filha começou a comer, pediu a Helena que permanecesse ali e voltou ao escritório. Alessandro a esperava com uma pasta aberta.

— O nome é Carlo Marconi — disse ele.

Sofia conhecia o rosto do empresário dos jornais: doações a hospitais, inaugurações de prédios e fotografias ao lado de políticos. Daniel reclamara da marca Marconi enquanto prendia as botas depois do expediente. Falara de aço sem certificação, de etiquetas trocadas e de uma linha de segurança que precisava ser substituída.

— Ele registrou alguma coisa? — perguntou Alessandro.

Sofia pensou no modo como o marido guardava recibos de padaria. No telefone antigo que continuava em casa, embora ela não tivesse coragem de carregá-lo. Numa caixa de enfeites natalinos havia um boneco de neve oco onde Daniel costumava esconder chaves.

— O celular dele. Pode ter fotos.

Luca entrou com a confirmação: Daniel apresentara uma denúncia interna dezessete dias antes da queda. O sistema a registrara como excluída na manhã seguinte à morte, usando a credencial de Franco Bellini.

Sofia reconheceu o supervisor. Franco tinha levado lasanha ao velório, segurado Ema no colo e lhe dito que Daniel não sentira dor. A lembrança tornou a sala subitamente pequena.

— Franco trabalha onde agora?

— Na administradora das obras de Marconi — respondeu Luca.

Alessandro se levantou para atender outra chamada. Sofia ouviu apenas metade da conversa, palavras sobre um carro parado do lado de fora do portão norte.

Quando ele voltou, contou que vira sua mulher e o filho de oito meses morrerem na explosão de um carro, também três anos antes. Isabela e Mateus.

Ninguém fora condenado.

— Não estou dizendo que os casos têm a mesma origem — acrescentou. — Estou dizendo por que desconfio de relatórios que encerram uma investigação depressa demais.

Sofia pensou no homem sob o terno e na criança que Ema, sem conhecer sua história, encontrara naquele colo vazio. Mesmo assim, a perda dele não lhe dava o direito de decidir por ela.

— Vou buscar o telefone. E vou junto se mandar alguém ao apartamento.

— A menina fica com Helena e Rosa.

— Eu sei. Já falei com as duas.

Ela se abaixou diante de Ema antes de sair. Explicou que faria uma visita rápida à casa, deixou um número com Helena e disse à filha que podia continuar desenhando.

Ema pediu que trouxesse seu pijama de estrelas. Sofia prometeu.

O trajeto de carro até o bairro onde moravam pareceu durar mais do que a cidade inteira. Alessandro observou a janela; Sofia acompanhou pelo reflexo os faróis de um veículo de apoio. Ela não gostava de depender dele, mas precisava admitir que o risco havia deixado de caber em suas mãos sozinhas.

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Na porta do apartamento, Luca examinou a fechadura. Não havia arrombamento.

Sofia entrou, viu a tigela de cerâmica virada para fora e compreendeu antes dos outros. Desde que Ema começara a andar, guardava as flores pintadas da tigela voltadas para a parede, para que a borda lascada não chamasse sua atenção.

— Alguém mexeu aqui.

Os quartos pareciam arrumados por uma pessoa que conhecia fotografias da casa, mas não seus hábitos. A manta dobrada sobre o braço errado do sofá, uma caixa de lápis alinhada por cores que Ema jamais obedecia. No armário infantil, as caixas de Natal estavam empilhadas em ordem inversa.

Sofia abriu o boneco de neve. O fundo tinha sido quebrado, os cacos recolocados dentro do papel de seda. O celular de Daniel havia sumido.

Ela sentou no chão, cercada por bolas coloridas, e ficou olhando para o espaço vazio. Alessandro não tentou tocá-la. Luca pediu que fotografassem as caixas antes de sair.

Foi Sofia quem encontrou o envelope escondido dentro de uma meia de Natal minúscula. O nome dela aparecia na letra inclinada de Daniel. Havia marcas de cola na borda, como se ele o tivesse fechado com pressa.

Leu diante dos dois, em silêncio. Daniel dizia que as cargas da obra escondiam componentes proibidos e que Bellini conhecia os manifestos. Se algo lhe acontecesse, havia uma pessoa a quem talvez pudesse pedir ajuda: Alessandro Duca.

— Ele o conhecia?

— Nunca falamos — respondeu Alessandro. — Pode ter procurado meu nome porque as cargas cruzavam rotas das minhas empresas.

A palavra talvez pesou mais que qualquer certeza. Sofia segurou o papel junto ao peito, lembrando Daniel dizendo sempre que voltaria com segurança, mesmo quando saía apenas para comprar pão.

Luca recebeu mensagem da mansão. Marconi deixara a reunião oito minutos antes. Outra interceptação reproduzia uma frase curta: a viúva havia encontrado a carta.

Alessandro fechou as cortinas do apartamento. Sofia viu o movimento e compreendeu que quem entrara ali não procurava uma lembrança do marido. Procurava o que Daniel conseguira guardar depois de morto.

— Se a carta o assusta, o que havia no telefone? — perguntou.

Do lado de fora, um carro acelerou na chuva. Luca pediu que fossem embora imediatamente.

Sofia recolheu o pijama de estrelas, a carta e o desenho antigo que Daniel fizera para Ema. Ao passar pela porta, notou que a tigela voltara a ficar com as flores para a parede.

Alessandro a colocara assim, sem que ela pedisse.

Já no carro, Sofia perguntou a Luca se a invasão seria comunicada à polícia. Ele respondeu que documentara os sinais de entrada, mas a decisão sobre o boletim cabia a ela.

Alessandro entregou o telefone para que ligasse ali mesmo. Sofia anotou o protocolo num caderno que levava na bolsa para organizar despesas.

O policial perguntou se algum objeto de valor desaparecera. Ela respondeu: um telefone antigo, sem utilidade para venda.

Quando ouviu a própria frase, entendeu o absurdo. O aparelho valia pouco em dinheiro e talvez carregasse o trabalho que Daniel fizera antes de morrer.

Alessandro mostrou à equipe o envelope por fora, sem tocar no papel outra vez. Queria preservar o que pudesse ser analisado.

Sofia pediu uma fotografia legível para guardar numa conta pessoal, protegida por senha diferente da do marido. Luca informou que o original ficaria lacrado.

Ela exigiu acompanhar a identificação do lacre.

O carro parou diante de um semáforo. Do lado de fora, uma mãe atravessava com uma criança agarrada à barra do vestido. Sofia sentiu uma vontade física de estar com Ema, tão forte que precisou soltar o cinto um instante para respirar fundo.

— Ligue para Helena — disse Alessandro.

Ema apareceu na chamada de vídeo com adesivos roxos nas mãos. Informou que Rosa permitira repetir o feijão e que Bianca não obedecia quando a chamavam.

Sofia disse que voltaria logo. Só depois de desligar notou que suas mãos deixaram de tremer.

Ao chegar à mansão, encontrou a menina dormindo no sofá. Rosa perguntou se deveria guardar o pijama de estrelas.

Sofia o colocou na cadeira ao lado da filha e respondeu que ficaria ali apenas enquanto as autoridades verificavam o apartamento. O limite surpreendeu Alessandro, que havia começado a falar de quartos disponíveis.

Ele aceitou a condição.

Luca trouxe notícia de que Franco Bellini não atendera às chamadas e sua casa estava vazia. Sofia olhou para o bolso onde guardara a carta.

Cada pequeno ato daquele dia tinha uma testemunha. Talvez, dessa vez, também tivesse consequência.

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