"A Filha da Empregada Dormiu no Colo do Chefe da Máfia" Capítulo 1
Quando Sofia Carvalho entrou na salinha dos funcionários, encontrou a garrafa térmica aberta, um biscoito intacto e os lápis de cor espalhados sobre o tapete. O coelho de pelúcia também havia sumido. Ema não estava ali.
O relógio da cozinha marcava onze e quarenta e cinco. A casa recebia naquele dia homens que chegavam em carros blindados e conversavam baixo até quando discutiam.
Sofia tinha deixado a filha na salinha por uma hora, depois que a creche ligara avisando de uma interdição elétrica. Uma vizinha trabalhava; a outra estava doente.
A diária que perderia custava a compra do mês.
Ela chamou a menina no corredor, no jardim da cozinha e junto à fonte. Procurou atrás da lavanderia. As pernas lhe doíam de descer e subir escadas, mas em cada passagem vazia o medo chegava antes do ar.
Fazia três anos que aprendera o formato de uma notícia irreversível. Daniel saíra para uma obra de manhã e só voltara em uma certidão de óbito.
Ema tinha seis meses. Sofia não suportaria receber outra ligação com a palavra acidente.
Bianca, a gata branca da casa, parou no primeiro degrau da escadaria principal. Olhou para Sofia e tornou a subir. Ema gostava tanto da gata que às vezes a seguia até esquecer a própria fome.
— Bianca, onde ela está?
A resposta foi uma cauda branca desaparecendo no andar superior. Sofia correu atrás dela e freou diante do corredor proibido. Ao fundo, a porta de carvalho do escritório de Alessandro Duca estava entreaberta.
Dois seguranças armados vigiavam a entrada. Nenhum deles a impediu de avançar. Um ergueu a mão, hesitou e apontou para dentro, com uma expressão que Sofia não soube interpretar.
Ela ouviu uma risada pequena. O som vinha do escritório. Por um instante, ficou grata apenas por reconhecer a voz da filha.
Empurrou a porta. A sala guardava o cheiro de couro, livros antigos e café recém-passado.
Em frente à janela, Alessandro Duca ocupava uma poltrona tão larga que parecia construída para mantê-lo distante de qualquer visita. Seu paletó azul-escuro estava aberto; uma cicatriz cruzava a sobrancelha direita.
Ema dormia no colo dele. O vestido vermelho se espalhava sobre a calça do terno, o coelho encostado no queixo. A mão direita do homem amparava as costas da criança, e a esquerda segurava um documento que ele já não lia.
Sofia ficou sem conseguir atravessar os últimos passos.
— Desculpe, senhor. Eu vou levá-la.
Alessandro ergueu os olhos. Sofia nunca soubera se as histórias sobre ele eram todas verdadeiras. Bastavam as portas que se fechavam quando passava, os nomes pronunciados com cuidado e os funcionários que lhe agradeciam antes mesmo de receber uma ordem.
Ema se remexeu.
— Mamãe? Ele prometeu me mostrar os cavalos quando eu acordar.
— Você precisava ter ficado comigo lá embaixo, meu amor.
— A Bianca veio me buscar. — A menina acariciou a orelha gasta do coelho. — E ele tem um coração triste.
Um músculo se moveu no maxilar de Alessandro. Sofia sentiu o rosto queimar.
— Ela diz coisas assim quando está cansada.
— Percebi.
Ema estendeu a mão na direção da mãe, mas bocejou antes de terminar o gesto. Alessandro esperou que Sofia a pegasse, sem largá-la abruptamente. Aquela delicadeza contrariava tudo o que a casa lhe ensinara a supor.
— Por que trouxe uma criança hoje? — ele perguntou.
Sofia explicou o problema da creche. Disse que havia tentado três números e esperado uma resposta que não chegara. Parou antes de transformar a própria vida em desculpa.
— Eu precisava trabalhar.
— Havia outras alternativas.
— Para quem pode pagar por elas, talvez.
O guarda do corredor desviou o olhar. Sofia pensou no aluguel, no pagamento da farmácia e no contracheque que passara onze meses protegendo. Só então percebeu que respondera daquela maneira ao proprietário da casa.
— Vou buscar minhas coisas — disse.
— Eu não falei em dispensá-la.
Ema abriu um olho.
— A mamãe limpa muito bem. Não pode mandar ela embora.
Sofia a beijou na testa para esconder o susto. Alessandro examinou o coelho, com uma costura torta na barriga, e perguntou se a menina tinha almoçado.
Como ela disse que não, chamou Rosa e pediu comida para as duas na sala leste. Pediu também que sua prima Helena, enfermeira pediátrica, verificasse se Ema estava bem.
O senhor da casa conhecia todos aqueles nomes. Sofia, até aquela manhã, acreditava que ele mal soubesse o dela.
Um homem grisalho apareceu à porta. Era Vítorio, administrador da residência e conselheiro da família havia décadas.
— As cinco famílias aguardam sua presença.
— A reunião pode esperar quinze minutos.
Vítorio olhou para Ema antes de baixar os olhos. A surpresa em seu rosto passou depressa demais, mas Sofia a viu.
Alessandro perguntou o sobrenome da menina. Quando ouviu Carvalho, quis saber o nome do pai. Sofia respondeu que Daniel havia morrido numa obra de requalificação perto do rio Pinheiros, empregado por uma subcontratada chamada Estrutural Paulista.
O documento escorregou da mão de Alessandro para a mesa.
— Qual obra?
Ela contou. Daniel trabalhara na instalação elétrica do complexo Marconi. Lembrava-se de cada nome impresso na papelada de indenização, embora por anos tivesse tentado esquecê-los.
— A Estrutural Paulista nunca constou como contratada principal daquele empreendimento — disse Alessandro.
— Eu não disse que era a principal. Daniel trabalhava para ela.
Ele fez uma ligação curta para Luca, seu chefe de segurança, e pediu registros de contratação, inspeções e o relatório do acidente. Vítorio permaneceu imóvel, com a mão pousada no batente da porta.
Sofia apertou Ema contra si. Queria sair daquela casa e, ao mesmo tempo, exigia uma explicação para o homem que não a olhava mais como empregada.
— O que sabe sobre a morte dele?
— Ainda não o suficiente.
O telefone vibrou. Alessandro leu a primeira resposta e, por um momento, a expressão de controle desapareceu. Depois colocou o aparelho virado para baixo.
— Sofia, fique aqui com sua filha. Rosa conhece a sala leste. Não deixe ninguém levá-las a outro lugar sem me chamar.
— Isso é uma ordem?
— É uma precaução.
Ela já conhecia o custo de seguir homens poderosos sem saber a razão. Ergueu o queixo.
— Então me diga de quem estamos nos protegendo.
Alessandro olhou para a porta atrás dela, para o andar inferior onde os convidados o esperavam.
— Talvez de alguém sentado à minha mesa. O relatório do acidente de Daniel foi alterado, e um dos nomes ligados à obra entrou nesta casa há meia hora.
Sofia voltou à sala leste sem responder. Ema havia desenhado uma pessoa enorme ao lado de uma pequena, com uma gata no meio.
À esquerda, uma terceira figura segurava uma sacola vermelha. A mãe reconheceu o avental antes de ouvir a explicação.
— Esta é você. O homem grande é o dono dos cavalos — disse Ema. — Ele ficou parado para eu dormir.
Bianca entrara na salinha quando Rosa carregava uma bandeja. Ema a seguira para perguntar se a gata queria brincar com o coelho.
Encontrara um guarda diante da porta entreaberta e perguntara por que a gata podia entrar se ela não podia. O guarda chamara o chefe, sem ter uma resposta preparada.
Alessandro saíra da sala; a menina lhe dissera que procurava um lugar sem barulho para descansar.
Sofia ouviu até o fim. Ema não podia subir sem um adulto; essa regra continuava valendo.
A menina assentiu, pediu desculpas e quis saber se Bianca também teria de pedir. Sofia segurou o sorriso para manter a voz séria.
Helena explicou que a ausência da creche assustara Ema tanto quanto a mãe. A pequena reconhecia a casa pelos cheiros e pelos sons, mas não compreendia os espaços proibidos. Sofia percebeu que, ao escondê-la de todos, a deixara sem uma pessoa designada a quem pedir ajuda.
Rosa se ofereceu para ficar com a criança até o fim do turno. Sofia agradeceu, mas queria algo mais claro do que uma promessa feita numa tarde excepcional: saber quem receberia Ema, onde ela estaria e como sairia dali se a reunião ficasse perigosa. Helena anotou os contatos e se comprometeu a responder diretamente por ela.
No corredor, Sofia encontrou um dos dois guardas. Ele lhe contou que Alessandro havia ordenado que ninguém despertasse a menina quando ela adormeceu; pedira primeiro água, depois um cobertor leve. Falou isso sem admiração, apenas como testemunha de um detalhe que não parecia combinar com as histórias que os funcionários repetiam.
Sofia não deixou que um gesto bondoso resolvesse suas dúvidas. Um homem poderia segurar bem uma criança e ainda ter poder suficiente para submetê-la a um risco que ela não escolhera. Guardou o desenho de Ema dobrado em quatro e esperou o relatório chegar.
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