"O Chefe da Máfia Observou Sua Empregada Por 8 Dias… No 9º Dia, Fez Algo Que Ninguém Esperava" Capítulo 1 — A Empregada Que Sua Mãe Não Rejeitou
Dante Montenegro não confiava em ninguém.
Aos trinta e oito anos, comandava um império que começava em escritórios envidraçados no Itaim Bibi e terminava em armazéns onde nenhum homem sensato fazia perguntas.
Naquela manhã, porém, o homem mais temido de São Paulo não observava rivais.
Observava a própria mãe.
A Central de Segurança ficava no subsolo da mansão dos Montenegro, no Jardim Europa. Não havia janelas. Apenas paredes escuras, uma mesa de madeira negra e dezenas de monitores.
Na tela número quatro aparecia a ala leste.
Suíte de Helena Montenegro.
Aos setenta e três anos, Helena já não era a mulher que Dante conhecera.
O Alzheimer avançara rápido.
Havia dias em que ela reconhecia o filho.
Em outros, olhava para Dante como se ele fosse um invasor.
Naquela manhã, duas enfermeiras tentavam fazê-la comer.
"Senhora Helena, só mais uma colher."
Helena bateu na bandeja.
O prato caiu no chão.
"Saia!"
"Precisamos que a senhora coma."
"Eu disse para sair!"
Uma tigela voou contra a parede.
Dante apertou a mandíbula.
A enfermeira recuou.
Helena apontou para a porta.
"Ladra!"
"Senhora Helena..."
"Ladra!"
A segunda enfermeira desistiu primeiro.
As duas saíram da suíte, fechando parcialmente a porta.
Dante permaneceu imóvel diante das telas.
Gastava uma fortuna com médicos, especialistas e cuidadores particulares.
Nada funcionava.
Helena parecia odiar todos eles.
Então uma mulher apareceu no corredor.
Ela empurrava um carrinho de limpeza.
Dante franziu a testa.
O uniforme era simples: vestido preto de mangas compridas, avental branco e sapatos baixos.
Os cabelos castanhos estavam presos em um coque discreto.
Ela parou diante da porta.
Uma das enfermeiras ergueu a mão.
"Não entre."
A mulher olhou para o quarto.
"Preciso limpar."
"Depois."
"Tem comida no chão."
"Ela está agressiva."
A mulher olhou novamente para dentro.
"Eu vi."
Dante aproximou o rosto do monitor.
Não reconhecia aquela funcionária.
Na mansão Montenegro, isso era incomum.
Ele sabia quem entrava.
Sabia quem saía.
Sabia quem devia dinheiro, quem tinha filhos e quem havia mentido no formulário de contratação.
Pegou o telefone.
"Bruno."
A resposta veio imediatamente.
"Sim, chefe."
"Quem é a empregada na ala leste?"
Houve alguns segundos de silêncio.
"Isabela Oliveira Martins. Entrou há três semanas."
"Por que nunca a vi?"
"Porque o senhor não costuma acompanhar a equipe de limpeza."
Dante não gostou da resposta.
"Agora acompanho."
Desligou.
Na tela, Isabela empurrou a porta.
Helena estava sentada no centro da cama.
O cabelo grisalho estava desarrumado.
O peito subia e descia depressa.
Isabela não se aproximou imediatamente.
Primeiro, recolheu a tigela quebrada.
Depois limpou o purê espalhado no chão.
Helena a observava.
"Você também veio me prender?"
Isabela ergueu os olhos.
"Não."
"Mentira."
"Eu vim limpar."
Helena apontou para a bandeja.
"Leve essa porcaria."
Isabela olhou para o prato.
Pegou uma colher.
Cheirou a comida.
Fez uma careta.
"Se eu fosse a senhora, também não comeria isso."
Dante endireitou o corpo.
Helena ficou em silêncio.
Do corredor, uma enfermeira arregalou os olhos.
"Isabela!"
Ela ignorou.
"Tem gosto de papelão só de olhar."
Helena piscou.
"Você provou?"
"Não sou tão corajosa."
Por um instante, Dante pensou ter visto algo impossível.
A boca de Helena quase formou um sorriso.
Isabela puxou uma cadeira de madeira.
Sentou-se a uma distância segura da cama.
"Mas tem um problema."
Helena continuou olhando para ela.
"Qual?"
"Se a senhora não comer, eles voltam."
Isabela apontou discretamente para o corredor.
Helena fez uma expressão de horror.
"Não quero."
"Nem eu."
Isabela pegou a colher.
"Então vamos fazer um acordo."
Dante cruzou os braços.
Ele esperava que ela tentasse alimentar Helena à força.
Não tentou.
Isabela apenas segurou a colher entre as duas.
"Uma colher."
Helena não se mexeu.
"Depois eu digo que a senhora tentou."
Silêncio.
"Está mentindo para as enfermeiras?"
"Estou negociando."
Helena olhou para a colher.
Depois para Isabela.
Passaram-se quase dois minutos.
Dante não percebeu que estava prendendo a respiração.
Então Helena se inclinou.
Abriu a boca.
Aceitou a comida.
Dante ficou imóvel.
Isabela não comemorou.
Não sorriu para as enfermeiras.
Não agiu como se tivesse conseguido um milagre.
Apenas preparou outra colher.
"Essa foi horrível."
Helena mastigou devagar.
"Muito."
"A próxima provavelmente será pior."
Helena abriu a boca novamente.
Dante levantou-se.
Foi até outro monitor e ampliou a imagem.
Isabela tinha olheiras profundas.
Não usava joias.
O uniforme parecia ligeiramente grande demais para ela.
Nada naquela mulher combinava com a mansão.
Talvez por isso sua mãe tivesse aceitado sua presença.
Nos dois dias seguintes, a mesma coisa aconteceu.
Isabela terminava a limpeza da ala leste e entrava no quarto de Helena.
Às vezes encontrava a bandeja intacta.
Sentava-se.
Esperava.
Nunca dizia "aviãozinho".
Nunca falava com Helena como se ela fosse uma criança.
Falava sobre coisas comuns.
"Os ovos estão um absurdo."
"Quanto?"
"Quase vinte reais dependendo do mercado."
"Roubo."
"Finalmente concordamos em alguma coisa."
Em outra tarde, reclamou do trânsito na Avenida Paulista.
Helena respondeu que São Paulo sempre fora uma cidade feita para testar a paciência dos pecadores.
Isabela riu.
Dante ouviu tudo.
No terceiro dia, percebeu que sabia exatamente a hora em que ela entraria na suíte.
Duas e vinte.
Às duas e dezenove, já estava diante do monitor.
Naquele dia, Helena estava particularmente confusa.
"Cadê meu marido?"
Isabela parou.
Dante também.
Augusto Montenegro estava morto havia vinte e sete anos.
"Ele vai chegar?"
Isabela não inventou uma resposta.
Sentou-se ao lado da cama.
"Não sei."
"Você sabe."
"Não sei, dona Helena."
Helena começou a chorar.
Isabela colocou a escova sobre a mesa.
Não disse que Augusto estava morto.
Também não disse que ele chegaria.
Apenas ofereceu a mão.
Helena segurou.
Dante baixou os olhos.
Não gostava de assistir à mãe chorando.
Mas também não conseguia desligar a tela.
Minutos depois, Helena adormeceu.
Isabela soltou lentamente a mão dela.
Arrumou o cobertor.
Pegou a bandeja.
Antes de sair, ouviu a voz fraca.
"Você..."
Isabela virou-se.
Helena estava com os olhos quase fechados.
"Sim?"
"É uma boa menina."
Isabela ficou parada.
Depois sorriu de leve.
"Sou só uma empregada fazendo meu trabalho, dona Helena."
Dante sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Era pequena.
Incômoda.
Ele não gostou.
Pegou o telefone.
"Bruno."
"Chefe?"
"Quero tudo sobre Isabela Oliveira Martins."
"Tudo?"
Dante olhou para a tela.
Isabela empurrava o carrinho pelo corredor sem imaginar que estava sendo observada.
"Tudo."
Bruno ficou em silêncio.
"Algum problema?"
"Não."
"Então faça."
Dante desligou.
Na tela, Isabela desapareceu atrás da porta de serviço.
Ele permaneceu olhando para o corredor vazio.
Três semanas trabalhando naquela casa.
Nenhum pedido especial.
Nenhuma tentativa de falar com ele.
Nenhum objeto desaparecido.
Nada.
Dante Montenegro conhecia homens que haviam matado irmãos por cinquenta mil reais.
Conhecia políticos que vendiam a própria reputação por menos.
Conhecia policiais, empresários, juízes e criminosos.
Todos tinham um preço.
Por isso uma mulher sem preço era mais perigosa do que qualquer inimigo.
Dante voltou a olhar para a porta da suíte de Helena.
Depois falou sozinho:
"Quem é você, Isabela?"
E, pela primeira vez em muitos anos, Dante Montenegro percebeu que não sabia a resposta.
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