"A Empregada de Pulso Quebrado do Chefe da Máfia" Capítulo 7 — A Empregada Que Enganou Todos
Dante não perguntou onde o livro estava.
Primeiro, perguntou por que Isabela mentira.
“Porque eu não sabia se o senhor queria a verdade ou apenas controlar quem a encontrasse.”
“E agora sabe?”
“Ainda estou decidindo.”
Ela os levou de volta à mansão. Na sala de jantar, aproximou-se do carrinho de prata usado na noite em que quebrara o pulso.
Com a pequena chave, abriu um compartimento sob a prateleira inferior.
O livro preto estava lá.
“Quando Marcelo me derrubou, escondi o livro atrás de uma caixa de guardanapos”, explicou. “Voltei antes do jantar e o coloquei no carrinho. Sabia que ele revistaria meu armário, mas nunca tocaria no serviço preparado para sua mesa.”
Bruno sorriu pela primeira vez em dias.
“Você escondeu a prova no centro da reunião dele.”
“Empregadas são invisíveis. As coisas que carregamos também.”
Dante abriu o livro. As páginas reuniam datas, empresas de fachada, contêineres e valores desviados durante quase vinte anos.
Havia anotações recentes na letra de Marcelo.
O esquema nunca terminara.
Rafael e a delegada Camila fotografaram cada página. Os códigos indicavam que Marcelo desviava dinheiro do Grupo Montenegro e preparava operações em nome de Dante.
“Ele quer que você assuma a culpa”, Camila concluiu. “Se algo der errado, todos os documentos levam ao presidente do grupo.”
Entre as páginas, Isabela encontrou uma carta de João para Augusto.
João afirmava que Álvaro Ferraz comandava o esquema e que Marcelo apagava câmeras, alterava escalas e plantava documentos falsos.
Augusto respondera à mão:
JOÃO, TIRE HELENA E ISABELA DE SÃO PAULO. EU CUIDO DOS FERRAZ.
Dante releu a frase.
“Meu pai acreditou nele.”
“Mas não conseguiu protegê-lo”, Isabela disse.
“Não.”
Dante não tentou salvar a memória de Augusto. Para Isabela, aquela honestidade valeu mais que qualquer promessa.
O plano de troca foi preparado. Fariam uma cópia perfeita do livro e instalariam um rastreador na capa. Isabela entregaria o falso enquanto a polícia seguiria Marcelo até João.
Antes que partissem, uma notícia apareceu em todos os celulares.
Um vídeo mostrava Isabela sendo conduzida por Bruno ao escritório na noite do jantar. Outro trecho exibia os portões fechados.
A legenda dizia que Dante Montenegro mantinha uma funcionária ferida em cárcere privado após ela descobrir crimes do grupo.
Em minutos, repórteres cercaram a mansão.
Marcelo surgiu numa transmissão ao vivo, fingindo preocupação.
“Tentei ajudar Isabela, mas fui afastado. Espero que ela esteja segura para falar livremente.”
Isabela quase atirou o celular contra a parede.
“Ele quebrou meu pulso e agora posa de salvador.”
Rafael recomendou silêncio até a operação terminar. Dante concordou, mesmo sabendo que o conselho do grupo poderia afastá-lo.
“Se eu aparecer ao seu lado, dirão que fui obrigada”, Isabela disse.
“Então não apareça.”
“Isso deixa Marcelo contar a única versão.”
“Sua segurança vale mais que meu cargo.”
Ela o observou. O homem diante dela poderia ordenar que toda São Paulo procurasse alguém, mas escolhia perder poder em vez de usar sua voz.
Isabela colocou o livro verdadeiro nas mãos de Camila.
“Este fica com a polícia.”
Depois segurou a cópia.
“E eu vou à troca.”
Dante tentou recusar, mas ela o interrompeu.
“Meu pai passou dezoito anos sem escolha. Minha mãe viveu escondendo a verdade. Eu não vou continuar obedecendo por medo.”
Ele assentiu.
“Então vamos fazer do seu jeito.”
Na saída, Dante segurou a porta para ela. Isabela parou ao lado dele.
“Quando isto terminar, não quero dever minha vida ao senhor.”
“Não vai dever.”
“E meu emprego?”
“Será seu enquanto quiser. Mas espero que descubra que pode escolher algo melhor.”
Ela quase sorriu.
Antes de alcançar o carro, Bruno recebeu um alerta. O conselho do Grupo Montenegro convocara uma reunião de emergência.
Marcelo exigia a destituição de Dante naquela mesma noite.
E mais da metade dos homens da mesa já havia confirmado presença.
Camila pediu que Isabela abrisse o livro diante de testemunhas. Algumas páginas estavam coladas. A perícia separou-as e encontrou pagamentos a fiscais, diretores portuários e ao médico que assinara o laudo do suposto cadáver de João.
Marcelo não apagara apenas o passado. Construíra uma rede capaz de fabricar documentos oficiais.
Rafael explicou que o livro precisava ser ligado a contas, mensagens e testemunhas. A troca seria a oportunidade de fazê-lo confessar.
Isabela treinou com Bruno como entregar a cópia sem expor o rastreador.
Dante observava, irritado com cada cenário em que ela aparecia em perigo.
“Pare de olhar como se pudesse me trancar num quarto.”
“Eu poderia.”
“E destruiria tudo que disse sobre escolha.”
Dante respirou fundo.
“Então ficarei perto o suficiente para ajudar e longe o suficiente para você decidir.”
Isabela encontrou uma anotação de João: A PROVA NÃO ESTÁ APENAS NOS NÚMEROS. ESTÁ NA VOZ DE QUEM DEU A ORDEM.
Havia outra gravação. E Marcelo jamais deixaria João chegar vivo à
polícia se soubesse disso.
O conteúdo financeiro revelou ainda que Marcelo financiava a campanha de um diretor para assumir o grupo caso Dante fosse preso. O homem estava entre os doze convidados do jantar e votaria na reunião emergencial.
Dante quis confrontá-lo, mas Isabela impediu.
“Se souber que encontramos o nome, avisa Marcelo.”
“Está me ensinando a conduzir meu próprio conselho?”
“Alguém precisa.”
Bruno disfarçou um sorriso. Dante não se ofendeu. Pediu que ela mostrasse o que faria.
Isabela propôs entregar a cada diretor uma página diferente do livro. Se alguma informação vazasse, saberiam quem avisara Marcelo.
O plano funcionou. Em menos de uma hora, Marcelo telefonou para um contador exigindo que apagasse exatamente a conta revelada ao diretor suspeito.
Camila gravou a ligação.
“Você acabou de identificar o homem dele no conselho”, disse.
Isabela fechou o livro.
“Passei onze meses servindo café àqueles homens. Sei quem mexe na xícara quando mente.”
Dante percebeu quanto poder existia nas coisas que sua família decidira não enxergar.
Ele ofereceu a Isabela um lugar formal na investigação. Ela aceitou com uma condição: não receberia ordens fora das decisões de segurança combinadas com Camila.
“Combinado”, Dante respondeu.
“Não diga isso como se estivesse me concedendo um favor.”
“Estou tentando descobrir como se fala com alguém que não posso mandar.”
“Comece perguntando.”
Ele perguntou se ela queria continuar.
Isabela respondeu que sim.
Antes que o livro fosse lacrado, ela encontrou uma folha dobrada com uma lista de funcionários punidos após questionarem pagamentos. Alguns haviam sido demitidos; outros desapareceram das escalas sem receber
direitos.
Dante reconheceu dois nomes de homens que sempre ouvira serem ladrões.
“Marcelo fabricou mais de um João Martins”, Isabela disse.
Rafael começou a localizar as famílias. Cada testemunho ampliaria o processo e impediria que o caso fosse reduzido a uma disputa entre duas famílias poderosas.
Isabela pediu que os primeiros valores recuperados fossem usados para pagar aquelas pessoas.
“O dinheiro ainda está bloqueado”, Dante explicou.
“Então venda um relógio. Disseram que o seu paga seis anos de aluguel.”
Ele olhou para o próprio pulso, retirou o relógio e o entregou a Rafael.
“Providencie.”
Isabela percebeu que ele não perguntara quanto daquela fortuna realmente lhe pertencia. Era um começo pequeno, mas concreto.
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