"A Empregada de Pulso Quebrado do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — Seu Pai Não Era Um Ladrão
A pasta tinha o nome de João Martins na capa.
Dante a colocou sobre a mesa, mas Isabela não a abriu.
“De onde veio isso?”
“Do arquivo particular do meu pai.”
“E por que apareceu só agora?”
“Porque estava guardada numa sala que Marcelo administrava.”
Isabela puxou a cadeira. O pulso doía, mas a dor parecia pequena diante do que poderia existir dentro daquela pasta.
A primeira página trazia uma fotografia de João, seu número funcional e o cargo de auditor interno das operações de Santos.
Na segunda, havia uma acusação.
Desvio de oito milhões de reais.
Falsificação de manifestos de carga.
Traição à família Montenegro.
“Isso é mentira”, Isabela disse.
“Eu não disse que era verdade.”
“Está no arquivo da sua família.”
“Também está a assinatura de Marcelo como testemunha.”
Ela encontrou o nome no fim da página.
Marcelo Ferraz.
“Minha mãe disse que ele morreu num acidente voltando do trabalho.”
“O relatório diz que ele fugiu com o dinheiro e sofreu um acidente na Rodovia dos Imigrantes. O carro queimou.”
“Encontraram o corpo?”
Dante virou algumas páginas.
“O reconhecimento foi feito por objetos pessoais e por um exame incompleto.”
“Então nem isso vocês sabem.”
“Eu tinha vinte e um anos. Meu pai não me mostrou estes documentos.”
Isabela fechou a pasta.
“Mas ficou com o império dele.”
A acusação acertou Dante. Ele não tentou se defender.
“Fiquei. E agora vou descobrir o que mais herdei.”
Bruno entrou com um relatório. A pessoa que plantara a esmeralda usara um crachá clonado e conhecia o ponto cego das câmeras.
“Marcelo supervisionou a troca do sistema há dois anos”, disse Bruno.
“Mas isso não prova que foi ele.”
“Ainda”, Dante respondeu.
O telefone de Isabela vibrou.
Era sua mãe.
Ela atendeu imediatamente.
“Mãe?”
Só ouviu respiração.
Depois, a chamada caiu.
“Alguma coisa aconteceu.”
Dante já pegava as chaves.
“Bruno, avise a equipe da Vila Mariana.”
O segurança ligou e seu rosto mudou.
“Eles perderam contato há dez minutos.”
Isabela se levantou.
“Eu disse que homens armados chamariam atenção.”
“Eles estavam num carro sem identificação.”
“Então como perderam contato?”
Ninguém respondeu.
Dante dirigiu até a Vila Mariana com Isabela no banco de trás e Bruno ao lado. Dois carros os acompanharam.
O portão do prédio estava aberto. O porteiro jazia desacordado na guarita, respirando.
Uma vizinha do segundo andar abriu a porta quando ouviu Isabela gritar.
Dona Neide, que conhecia Helena havia anos, tremia tanto que mal conseguia segurar o celular.
“Dois homens subiram”, contou. “Um usava uniforme de entrega. O outro ficou no carro.”
“A senhora viu o rosto?”, Bruno perguntou.
“Não. Mas ouvi Helena dizer que não tinha guardado nada de João.”
Isabela segurou o corrimão.
“Minha mãe pronunciou o nome dele?”
“Pronunciou. E o homem respondeu que seu pai devia ter ficado morto.”
Dante pediu a Bruno que gravasse o depoimento e chamasse uma ambulância para o porteiro. A invasão já não podia ser tratada como simples intimidação.
No apartamento, Isabela encontrou a moldura de uma fotografia quebrada.
Era a única imagem em que aparecia criança no colo do pai. A parte com o rosto de João havia sido arrancada.
Quem levara Helena não procurava apenas o livro.
Procurava tudo que pudesse provar que João Martins existira.
Na cozinha revirada, Isabela encontrou duas xícaras sobre a mesa. A de Helena ainda tinha café. A outra continha a marca de um anel pesado no pires.
Dante reconheceu o desenho fotografado na porcelana: o brasão antigo dos Ferraz, usado apenas pelos homens da família.
“Marcelo esteve aqui?”, Isabela perguntou.
“Ou queria que pensássemos que esteve”, Dante respondeu. “A partir de agora, não acreditamos em nenhuma prova que apareça fácil demais.”
Isabela subiu as escadas antes que Dante pudesse segurá-la.
A porta do apartamento estava arrombada.
“Mãe!”
A sala havia sido destruída. Gavetas abertas, almofadas rasgadas, fotografias espalhadas pelo chão.
Helena não estava ali.
Na parede, alguém escrevera com tinta preta:
DEVOLVA O LIVRO.
Isabela ficou parada diante das palavras.
Dante entrou atrás dela.
“Você sabe onde ele está.”
Ela virou-se com os olhos cheios de lágrimas.
“Minha mãe desapareceu e é isso que o senhor pergunta?”
“Pergunto porque o livro é a razão.”
“A razão é a sua família. Se meu pai nunca tivesse trabalhado para os Montenegro, nada disso teria acontecido.”
“Você tem razão.”
A resposta desmontou a raiva dela por um instante.
Dante se aproximou.
“Mas, se quiser Helena viva, pare de me esconder a única coisa que pode nos levar até ela.”
Isabela olhou para Bruno e para os homens no corredor.
“Eu encontrei o livro dentro da parede. Marcelo apareceu antes que eu pudesse ler.”
“Foi ele quem quebrou seu pulso?”
Ela fechou os olhos.
“Ele me empurrou na escada. Quando tentei levantar, pisou na minha mão.”
Dante ficou absolutamente imóvel.
“E ameaçou minha mãe”, ela continuou. “Disse que, se eu contasse o que vi, ela seria a próxima.”
Bruno desviou o rosto. Dante não.
“Onde está o livro?”
“Eu o escondi antes que ele me alcançasse. Quando voltei mais tarde, tinha sumido. Pensei que Marcelo houvesse encontrado.”
“Se tivesse, não teria levado Helena.”
Isabela cobriu a boca para conter o choro.
Dante falou ao telefone com a delegada Camila Azevedo, exigindo buscas imediatas e preservação das câmeras do bairro.
A delegada chegou pouco depois e não se deixou intimidar pelos homens de Dante no corredor.
“Se transformar isto numa guerra particular, eu prendo você antes de procurar Helena”, avisou.
“Encontre-a primeiro e não haverá guerra.”
Camila recolheu a mensagem da parede, o telefone de Helena e as imagens do prédio. Um carro clonado aparecia saindo da rua oito minutos antes da chegada de Dante.
Isabela contou, pela primeira vez diante de uma autoridade, que Marcelo a empurrara e pisara em sua mão. Rafael permaneceu ao lado dela enquanto o depoimento era registrado.
“Por que não denunciou ontem?”, Camila perguntou.
“Porque ele disse que faria isso com minha mãe.”
“E fez”, a delegada respondeu. “Agora precisamos provar.”
Dante ouviu sem interromper. Cada palavra transformava a suspeita numa dívida pessoal.
Quando Camila perguntou se Isabela confiava na proteção dos Montenegro, ela olhou para ele.
“Ainda não.”
Dante aceitou a resposta sem desviar os olhos.
Marcelo ligou durante a conversa.
“Soube que houve um problema”, disse ele.
Dante ativou o viva-voz.
“Como soube?”
Houve uma pausa.
“Os funcionários comentam.”
“Nós não contamos aos funcionários.”
Marcelo desligou.
Bruno iniciou o rastreamento, mas o número usava redirecionamento.
Isabela ajoelhou-se diante da velha máquina de costura da mãe. Helena escondia dinheiro sob a gaveta de linhas desde que ela era criança.
O dinheiro continuava lá.
Sob as notas havia uma chave presa com fita adesiva.
Isabela a retirou.
Na etiqueta desbotada, lia-se:
ATIBAIA — CASA 3.
Dante observou a chave.
“Você conhece esse lugar?”
“Nunca ouvi minha mãe falar dele.”
Bruno encontrou no verso da etiqueta uma data escrita à mão.
Era o dia anterior ao suposto acidente de João Martins.
Isabela fechou os dedos ao redor da chave.
Seu pai havia deixado alguma coisa em Atibaia antes de desaparecer.
E Helena fora levada porque alguém acreditava que ela sabia o que era.
A Empregada Escondeu o Pulso Quebrado à Mesa do Chefe da Máfia… Ao Amanhecer, Todo o Império Dele Estava de Olho
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