"A Empregada de Pulso Quebrado do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — A Mão Que Não Parava de Tremer
A molheira de porcelana bateu contra a travessa de prata.
Foi um som pequeno.
Mesmo assim, Dante Vasconcelos Montenegro ergueu os olhos na mesma hora.
Isabela Oliveira Martins apertou os dentes e firmou a bandeja contra o quadril. A manga preta do uniforme escondia duas colheres de pau presas ao redor do pulso esquerdo com fita esportiva.
Era uma tala ridícula.
Também era tudo o que ela tinha.
Cada passo até a mesa comprida fazia a dor subir do pulso ao ombro. Sob o lustre de cristal, doze homens de terno discutiam contratos do porto de Santos, obras em Guarulhos e hotéis no litoral como se não houvesse nada ilegal por trás daqueles números.
Isabela sabia que havia.
Trabalhava havia onze meses na mansão dos Montenegro, no Jardim Europa.
Tempo suficiente para aprender que, naquela casa, uma empregada sobrevivia melhor quando não ouvia, não perguntava e não era lembrada.
Naquela noite, porém, seu próprio corpo se recusava a deixá-la invisível.
Ela parou ao lado de Marcelo Ferraz.
“Cordeiro, senhor Marcelo?”
Marcelo olhou primeiro para a travessa. Depois, para a mão que tremia sob a bandeja.
O sorriso dele apareceu devagar.
“Cuidado, Isabela. Seria uma pena estragar um jantar tão caro.”
“Eu não vou derrubar.”
“É melhor que não derrube.”
Ele se inclinou apenas o suficiente para que os outros não ouvissem.
“Boa menina.”
O estômago de Isabela se contraiu.
À cabeceira, Dante deixou de escutar o homem que falava sobre uma licitação. Seus olhos escuros passaram de Marcelo para Isabela.
Ela tentou servir a carne.
O pulso dobrou alguns centímetros.
A dor explodiu.
Seus dedos perderam a força, a bandeja tombou e uma taça de vinho escorregou. Isabela conseguiu prendê-la com o antebraço antes que caísse, mas a manga subiu.
A fita branca apareceu.
Logo abaixo dela, surgiu a ponta de uma colher de pau.
Marcelo viu.
Dante também.
Isabela puxou a manga para baixo, mas já era tarde.
“O que aconteceu com a sua mão?”, Marcelo perguntou, alto demais.
“Nada.”
A resposta saiu rápida.
Rápida demais.
Marcelo recostou-se na cadeira.
“Deve ter forçado o pulso carregando roupa. Essas moças não sabem mais trabalhar como antigamente.”
Alguns homens sorriram por educação.
Dante não.
“Isabela.”
O nome dela atravessou a sala.
As conversas morreram uma após a outra. Um homem largou o charuto. Outro afastou o copo da boca. Até a chuva contra as janelas pareceu mais alta.
Ninguém chamava uma empregada pelo nome durante as reuniões de Dante Montenegro.
Isabela virou-se devagar.
“Sim, senhor Montenegro?”
Ele pousou o copo sobre a mesa.
“Coloque a bandeja no aparador.”
“Eu consigo terminar.”
“Não foi isso que eu mandei.”
Dante não elevou a voz. Não precisava.
Isabela levou a bandeja até o aparador. Assim que o peso saiu de sua mão, ela protegeu o braço contra o corpo.
Marcelo acompanhou o movimento.
Dante acompanhou Marcelo.
“Mostre o pulso”, Dante ordenou.
Isabela empalideceu.
“Não é nada sério.”
“Então não terá problema em mostrar.”
Ela olhou para Marcelo por menos de um segundo.
Foi o suficiente.
Os olhos dele ficaram imóveis. O sorriso permaneceu, mas um músculo pulsou perto de sua mandíbula.
Isabela segurou a ponta da manga e a puxou.
As duas colheres de pau apareceram presas com fita branca. Por baixo, o pulso estava inchado, arroxeado e torto de um jeito que nenhuma queda simples deveria deixar.
Um dos homens soltou um palavrão.
Outro desviou o rosto.
Dante se levantou.
O silêncio mudou. Já não era curiosidade. Era medo.
Ele caminhou até Isabela e parou diante dela. Não tocou no ferimento.
Apenas observou as marcas escuras próximas aos dedos e a pele esmagada acima da fita.
“Quem fez isso?”
“Ninguém. Eu caí.”
“Onde?”
“No corredor de serviço.”
“Que horas?”
Isabela sentiu o olhar de Marcelo nas costas.
“Por volta das sete da manhã.”
Dante inclinou levemente a cabeça.
“Seu expediente começou às onze.”
Ela ergueu os olhos, surpresa.
Ele conhecia seu horário.
“Eu vim mais cedo.”
“Por quê?”
“Precisava das horas extras.”
Marcelo soltou uma risada curta.
“Dante, temos assuntos importantes para resolver. A moça caiu, improvisou uma tala e veio trabalhar. Não precisamos transformar isso em
uma investigação.”
Dante virou o rosto para ele.
“Eu fiz uma pergunta a ela.”
Marcelo levantou as mãos.
“Claro. Só estou tentando evitar uma cena desnecessária.”
“A cena começou quando uma mulher entrou na minha sala de jantar com o pulso quebrado.”
Ninguém se mexeu.
Dante voltou a olhar para Isabela.
“Por que você não procurou atendimento?”
Ela respirou fundo.
“A UPA estava lotada. Disseram que eu teria de esperar. Se eu faltasse, perderia a diária e as horas extras.”
“Um osso quebrado vale menos que um dia de salário?”
A vergonha queimou o rosto dela.
“Para quem tem aluguel vencendo, às vezes vale.”
A resposta atingiu a mesa com mais força que a taça teria atingido o chão.
Marcelo endureceu o olhar.
Dante, porém, apenas perguntou:
“Você tem medo de perder este emprego?”
Os olhos de Isabela arderam.
“Tenho.”
Era a primeira verdade que conseguia dizer naquela sala.
“Você não vai perder.”
Marcelo empurrou a cadeira para trás.
“Dante, quem administra os funcionários sou eu.”
Dante olhou para ele.
“Administrava. Até esta noite.”
O rosto de Marcelo perdeu a cor por um instante.
Dante fez um gesto para Bruno Tavares, o chefe da segurança, que permanecia junto à porta.
“Ligue para a doutora Camila. Quero que ela venha agora.”
“Sim, senhor.”
Isabela deu um passo à frente.
“Não precisa. Eu termino o jantar e procuro atendimento depois.”
“Você não vai servir mais nada.”
“Eu preciso receber o turno inteiro.”
“Vai receber.”
“Eu não quero caridade.”
Alguns homens prenderam a respiração, esperando a reação de Dante.
Algo quase imperceptível mudou nos olhos dele.
“Nem eu. Por isso quero descobrir quem permitiu que uma funcionária minha trabalhasse assim.”
“Ninguém permitiu. Eu escondi.”
“Isso não responde por que você precisou esconder.”
Isabela apertou os lábios.
Dante se aproximou mais um passo.
“Olhe para mim.”
Ela obedeceu.
“Você caiu sozinha?”
Isabela ouviu outra vez a voz de Marcelo no corredor escuro daquela manhã.
Se abrir a boca, sua mãe será a próxima.
Ela também sentiu, como se estivesse acontecendo de novo, o couro do sapato pressionando seu pulso contra o degrau.
“Caí”, respondeu.
Dante sustentou seu olhar.
Ele não acreditou.
Marcelo percebeu isso e tentou recuperar o controle.
“Está resolvido. Podemos continuar?”
“Ainda não.”
Dante voltou para a cabeceira, mas não se sentou.
“Bruno, leve Isabela ao escritório. Ninguém fala com ela até a médica chegar.”
“Sim, senhor.”
Isabela sentiu o pânico crescer.
“Minha mãe está sozinha em casa. Preciso avisá-la.”
Marcelo mexeu no próprio anel.
Um gesto mínimo.
Mas Dante viu.
“Você poderá telefonar do escritório”, ele disse. “Bruno ficará na porta.”
Isabela acompanhou o segurança. Antes de cruzar a porta, ouviu Dante chamá-la novamente.
“Isabela.”
Ela parou.
“Sim?”
“Você disse que caiu às sete.”
“Disse.”
“No corredor de serviço.”
“Sim.”
Dante fez uma pausa.
“Interessante.”
Um arrepio percorreu as costas dela.
As portas se fecharam.
No corredor, Bruno caminhou ao seu lado sem fazer perguntas. Isabela manteve o braço contra o peito e tentou não pensar na mãe, na parede aberta naquela manhã ou na capa preta que havia escondido antes que Marcelo a alcançasse.
Dentro da sala de jantar, Dante permaneceu em silêncio.
Marcelo serviu-se de vinho.
“Ela está mentindo porque quer dinheiro”, afirmou. “Amanhã aparece com advogado, dizendo que se machucou trabalhando.”
Dante tirou o celular do bolso.
“Talvez.”
“Você conhece esse tipo de gente.”
Dante digitou uma mensagem.
“Conheço.”
Marcelo bebeu o vinho, finalmente relaxando.
Então seu telefone vibrou sobre a mesa.
Ele olhou para a tela e o sorriso desapareceu.
Todos os acessos internos da mansão haviam acabado de ser bloqueados.
Ninguém poderia entrar.
Ninguém poderia sair.
Dante enviou uma segunda mensagem diretamente para Bruno:
VERIFIQUE TODAS AS CÂMERAS ENTRE 6H30 E 7H30.
Depois acrescentou:
NÃO CONTE NADA AO MARCELO.
Guardou o aparelho e encarou o homem sentado à sua direita.
Pela primeira vez em muitos anos, Marcelo Ferraz não conseguiu sustentar o olhar do chefe.
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