""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 9
No dia do casamento, Lucy acordou antes de todos e percorreu os corredores anunciando que ninguém podia ver Clara. Depois entrou três vezes no quarto da noiva para verificar o vestido.
Margarida prendeu os cachos da menina e amarrou uma fita azul no coelho, combinando com a linha da orelha. Marcos apareceu de terno preto e recebeu uma cesta de pétalas.
— Isso é sabotagem — disse ele.
— Você é alto — respondeu Lucy. — Alcança melhor.
O jardim tinha um arco de rosas brancas e quarenta cadeiras. Dante aguardava ao lado do celebrante, com as mãos cruzadas para esconder o tremor. Quando Clara apareceu, ele esqueceu de respirar.
Antes da cerimônia, Clara visitou o quarto de Sofia sozinha. Não tocou no suéter nem na caixa de música. Colocou uma flor branca diante da fotografia da menina e outra diante da imagem de Helena.
— Eu não conheci vocês — sussurrou. — Vou cuidar do que ele ainda tem sem pedir que esqueça o que teve.
Ao sair, encontrou Dante no corredor. Ele vira as flores, mas não perguntou o que Clara dissera.
— Elas fazem parte do dia — falou ela.
— Obrigado.
Ele ofereceu o braço para conduzi-la até Margarida, que aguardava para acompanhá-la ao jardim. Depois voltou sozinho ao arco, respeitando a entrada que Clara escolhera.
Ela usava vestido marfim simples, mangas leves e o anel da avó dele na mão direita. Lucy seguia à frente, espalhando pétalas com uma mão e segurando o coelho com a outra.
Clara chegou ao arco.
— Está bem?
— Não.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Resposta preocupante.
— Você está linda. Meu vocabulário acabou.
O celebrante iniciou a cerimônia. Margarida chorou antes da primeira leitura e passou a mão pelo rosto como se fosse alergia.
Nos votos, Clara segurou as mãos de Dante.
— Você abriu a porta quando nós não tínhamos lugar. Depois aprendeu a deixá-la aberta. Amo o homem que me ofereceu espaço para ficar de pé e que escuta quando eu digo que consigo andar sozinha.
Dante apertou os dedos dela.
— Minha vida ficou presa no dia em que perdi Helena e Sofia. Usei o resto dos anos como punição.
Lucy fungou na primeira fila.
— Você chegou ao portão pedindo que eu salvasse alguém que amava mais do que a si mesma. Aprendi com você que lembrar das pessoas que perdi cabe na mesma casa onde amo as pessoas que tenho.
Ele colocou a aliança na mão de Clara.
— Vou voltar para casa. Todos os dias que puder.
Eles se beijaram sob o sol. Lucy correu para abraçar os dois antes de o celebrante terminar a frase sobre os convidados.
O jantar ocupou apenas uma parte da grande mesa. Os lugares usados ficaram próximos, e as cadeiras restantes foram retiradas para outro salão. Marcos brindou dizendo que Clara vencera Dante em todas as negociações relevantes.
Margarida corrigiu: ainda faltava escolher a sobremesa da semana seguinte.
Durante a dança, Lucy ficou entre os dois por uma música inteira. Dante a ergueu quando os pés cansaram. Clara apoiou a cabeça no ombro dele, e os três giraram devagar sob as luzes do jardim.
Um fotógrafo tentou pedir que Lucy deixasse o coelho de lado. Dante respondeu antes que ela obedecesse.
— O coelho fica.
A fotografia final mostrou o brinquedo gasto, o vestido de Clara tocando a grama e a mão de Lucy sobre o ombro de Dante. Nenhuma imagem foi publicada sem aprovação da criança e da equipe do processo.
Depois que os convidados partiram, Clara encontrou Dante diante do quarto de Sofia. Três caixas estavam no corredor. A porta continuava aberta.
— É hora — disse ele.
— De mudar o quarto?
— De permitir que alguém use o espaço.
As estrelas ficaram no teto. A caixa de música permaneceu sobre a cômoda. Fotografias de Helena e Sofia foram colocadas numa prateleira, ao alcance dos olhos.
O suéter amarelo descansava numa caixa de memória ao lado das cartas e dos desenhos.
Lucy surgiu descalça, ainda usando o vestido.
— Posso dormir aqui?
Clara tossiu.
— Lucy, a gente conversa antes de pedir quartos.
Dante riu.
— Gosta de estrelas?
— Muito.
— E da música da bailarina?
Lucy girou a chave. A melodia começou, e ela fez uma careta.
— Meio chata.
Dante parou. Sofia dissera a mesma coisa quando ganhou a caixa. O riso veio junto com lágrimas, e ele precisou apoiar a mão na cômoda.
— O que foi? — perguntou Lucy.
— Minha filha tinha a mesma opinião.
Lucy observou a fotografia de Sofia.
— Eu pareço com ela?
Dante escolheu as palavras com cuidado.
— Em algumas coisas. Você franze o nariz do mesmo jeito quando não gosta de uma música. Também é diferente em centenas de outras.
— Posso gostar de coisas que ela não gostava?
— Deve.
Lucy girou a bailarina, ouviu dois compassos e fechou a tampa.
— Então continuo achando chata.
Dante riu. A semelhança deixou de exigir que uma menina ocupasse a história da outra.
Clara observou os dois escolherem juntos a primeira gaveta de Lucy. Sofia continuava presente; Lucy ganhava espaço com o próprio nome.
Lucy aproximou-se devagar.
— Ela ia ficar brava se eu usar o quarto?
Dante se ajoelhou.
— Acho que ela gostaria de alguém discutindo com a caixa de música.
— Posso deixar minhas coisas sem tirar as dela?
— Podemos escolher juntos.
Lucy encostou o coelho na bailarina e observou os dois brinquedos lado a lado.
— Senhor Dante?
— Sim?
— Um dia posso chamar você de pai?
Clara levou a mão ao peito. Dante ficou sem voz, e Lucy recuou.
— Não precisa.
— Precisa, sim.
Ele a puxou para os braços.
— Pode chamar quando quiser.
Lucy apertou o pescoço dele.
— Pai.
Dante fechou os olhos. Clara se ajoelhou e envolveu os dois. Acima deles, as estrelas de Sofia permaneciam intactas.
Mais tarde, já no quarto do casal, Dante abriu no celular uma mensagem da assistente social. O processo de destituição do poder familiar de Rafael recebera sentença favorável. Depois do trânsito em julgado, a adoção unilateral por padrasto poderia ser apresentada.
Clara leu por cima do ombro.
— Vai falar com Lucy primeiro.
— Antes de preencher qualquer linha.
— E se ela disser não?
Dante colocou o celular sobre a mesa.
— Continuo voltando para casa.