""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 8
A assistente social chegou à propriedade numa manhã de chuva. Clara abriu a porta sem funcionários ao lado, como a equipe psicossocial orientara. Lucy estava na escola; Dante trabalhava no escritório da ala térrea.
A visita durou três horas. A profissional examinou o quarto, a rotina, a escola, os contratos de trabalho e o plano de cuidado caso Clara adoecesse. Perguntou por armas, antecedentes e a relação de Dante com grupos investigados.
Clara respondeu sem suavizar.
— Há segurança armada, registrada e armazenada fora das áreas da Lucy. Dante está colaborando em investigações. Eu cuido da rotina dela e tenho renda própria.
— Se o relacionamento terminar?
— Meu salário permanece, e tenho dinheiro reservado para outro endereço. O acordo pré-nupcial também garante que eu não dependa dele.
Dante ouviu parte da conversa do corredor. Não entrou até ser chamado.
— Qual é seu papel na criação de Lucy? — perguntou a assistente social.
— O que Clara e Lucy permitirem.
— O senhor pretende discipliná-la?
— Conversamos sobre regras juntos. Clara toma as decisões legais.
— Pretende adotar?
Dante olhou para Clara.
— Primeiro, precisamos garantir que Lucy fique com a irmã. Depois perguntaremos o que ela deseja.
A profissional anotou sem revelar reação.
A audiência final de guarda ocorreu duas semanas depois. Rafael apareceu por vídeo, usando uniforme do centro de detenção. Seu advogado retirou a acusação de negligência e tentou preservar visitas futuras.
O Ministério Público apresentou a gravação da extorsão, os dados escolares acessados indevidamente, as transferências de Sanz e os quatro anos sem pensão ou contato. A defensora de Clara entregou a avaliação domiciliar, a declaração de Evelyn e o relatório da escola.
A juíza voltou-se para Clara.
— Sua situação de moradia mudou desde a última audiência.
— Sim, Excelência.
— Está noiva do proprietário da residência.
— Estou.
— O noivado surgiu durante o processo de guarda?
— Surgiu apesar do processo.
A boca da juíza se moveu quase num sorriso.
— Explique.
Clara colocou as mãos sobre a mesa.
— Dante ofereceu abrigo quando eu não tinha endereço. Depois me deu espaço para trabalhar, recuperar renda e escolher ficar. Ele não assumiu minhas responsabilidades.
Continuo sendo responsável pela Lucy.
— E qual papel ele exerce?
— Virou parte da família antes de qualquer papel dizer isso.
Dante baixou os olhos.
A decisão confirmou a guarda permanente de Lucy para Clara. O exercício do poder familiar de Rafael ficou suspenso enquanto a ação de destituição corria com base em abandono, extorsão e uso da filha em atividade criminosa. Qualquer contato dependeria de avaliação técnica e ordem judicial.
Do lado de fora, Lucy esperava com Margarida, balançando as pernas numa cadeira. Clara se ajoelhou.
— Você vem para casa comigo.
— Até quando?
— Para sempre.
Lucy abraçou a irmã com tanta força que as duas quase caíram. Depois correu até Dante.
— E você?
Ele a levantou.
— Eu o quê?
— Vai para casa com a gente?
— Todos os dias.
Na semana seguinte, Lucy iniciou acompanhamento com uma psicóloga indicada pela equipe do fórum. Clara explicou que terapia não servia para descobrir respostas certas. A menina levou o coelho para a primeira sessão e deixou as duas adultas do lado de fora.
Dante apareceu no corredor vinte minutos depois, alegando que tinha uma reunião próxima. Clara olhou a distância até a Faria Lima no aplicativo e ergueu uma sobrancelha.
— Muito próxima — disse ele.
Quando Lucy saiu, contou apenas que desenhara três casas. Ninguém perguntou o que havia dentro. A psicóloga orientou todos a evitar interrogatórios sobre Rafael e deixar que a criança conduzisse as lembranças.
Em casa, Dante mudou os protocolos para que relatórios de segurança nunca fossem discutidos durante refeições. Lucy ganhou uma lista simples de adultos a quem podia telefonar, incluindo a defensora, a psicóloga, Clara, Margarida e Marcos. O nome de Dante apareceu por último porque ela mesma o acrescentou com lápis azul.
Os meses seguintes trouxeram consequências. Rizzo firmou colaboração e confirmou os nomes ligados ao atentado. Vítor Sanz recebeu denúncia por novos crimes.
A investigação sobre Dante avançou, mas sua entrega espontânea de documentos e a ausência de obstrução permitiram que respondesse em liberdade com restrições empresariais e fiscalização.
Ele afastou gestores ligados a operações clandestinas, vendeu ativos contaminados e colocou as transportadoras legais sob auditoria independente. Homens antigos reclamaram. Dois foram embora.
Marcos permaneceu.
— Você devia ter saído dez anos atrás — disse Dante.
— Alguém precisava impedir que comprasse outra mesa de vinte lugares.
Clara transferiu a administração doméstica para uma estrutura formal e passou a coordenar também contratos de fornecedores das empresas auditadas. Recusou cargo criado por afeto; apresentou currículo, participou de entrevista com o conselho e negociou salário sem Dante na sala.
O casamento foi marcado para a primavera. Clara escolheu uma cerimônia pequena no jardim. Dante apresentou uma lista de cento e oitenta convidados.
— Quantos você conhece de verdade? — perguntou ela.
— Talvez trinta.
— Convide trinta.
— Isso é uma negociação?
— Já acabou.
O acordo pré-nupcial ocupou duas reuniões. Clara manteve patrimônio, renda e autonomia profissional. Dante criou uma reserva para Lucy que só poderia ser administrada por conselho externo até a maioridade.
Clara recusou qualquer cláusula que vinculasse a guarda da irmã ao casamento.
— Você planeja o divórcio antes do bolo — comentou Marcos.
— Planejo uma mulher que fica porque quer — respondeu Dante.
Clara ouviu da porta e entrou com uma correção: o fundo de Lucy deveria preservar acesso à educação e saúde mesmo se Dante fosse investigado ou tivesse bens bloqueados. Os advogados ajustaram. O romance sobreviveu às planilhas.
Lucy acompanhava tudo com um caderno de desenhos. Planejava carregar flores e o coelho, embora Clara explicasse que o brinquedo não combinava com o vestido.
— Ele estava com a gente antes do Dante — respondeu a menina.
Dante apoiou a decisão.
Naquela noite, Clara encontrou uma caixa no corredor da ala leste. Dante dobrava o suéter amarelo de Sofia diante da porta aberta.
— Posso ajudar?
— Ainda não sei o que fica.
— Não precisa decidir hoje.
Ele colocou a roupa no fundo da caixa, cobriu com papel e deixou a tampa aberta.
— Quero preservar as estrelas.
— Então ficam.
Lucy apareceu de pijama, carregando o coelho.
— As estrelas podem ficar para sempre?
Dante olhou para o teto.
— Podem.
A menina entrou e deitou no chão, diretamente sob a constelação pintada. Clara ficou na soleira. Dante atravessou o quarto e sentou ao lado de Lucy.
A porta permaneceu aberta.