""Deixe minha irmã ficar": O Pedido Que Fez o Chefe da Máfia Abrir Sua Casa" Capítulo 7
Gabriel Sanz entrou na biblioteca com as mãos erguidas e pediu que Marcos o revistasse. Tinha sessenta e dois anos, um casaco gasto e um envelope amassado sob o braço.
Clara sentou ao lado de Dante.
— Você pode esperar fora — disse ele.
Ela levantou a mão com o anel.
— Se vou ser sua esposa, pare de decidir qual verdade consigo ouvir.
Gabriel olhou de um para o outro.
— Acabaram de ficar noivos?
— Fale da bomba — ordenou Dante.
O homem colocou o envelope na mesa.
— Meu irmão guardava registros para chantagear aliados. Vítor ajudou Carlo Moretti a encontrar o carro, pagar o mecânico e organizar a vigilância.
Dante não tocou o papel.
— O homem que plantou o explosivo morreu.
— Ele executou. Outro homem vendeu sua agenda.
Marcos avançou.
— Quem?
— Antônio Rizzo.
O nome esvaziou a sala. Rizzo chefiava a segurança antes de Marcos. Desaparecera seis meses depois da explosão, e todos supuseram que os Moretti o tinham eliminado.
Gabriel abriu o envelope. Havia transferências, fotografias de veículos e anotações de vigilância. Dante virou uma página e parou.
"Mudança de veículo. Esposa levará o sedã. Alvo ausente."
Ele leu outra vez.
— Eles sabiam que eu não estava no carro.
Gabriel assentiu.
— A ordem foi manter o plano.
A cadeira caiu quando Dante se levantou. Ele atravessou o hall e saiu para a neve sem pegar casaco.
Clara foi atrás.
— Dante.
— Entre.
— Não.
Ele se virou. O ar frio marcava cada respiração.
— Eles viram Sofia entrar.
Clara parou a um braço de distância.
— Viram.
— Passei dez anos acreditando que a troca de carro matou as duas.
— Se você estivesse dentro, três pessoas teriam morrido.
— Eu devia estar.
— Você está aqui.
Dante fechou os punhos.
— Esse foi o erro deles, Clara. Deixaram o homem que iria atrás.
Ela segurou seu rosto com as duas mãos.
— Volte para a biblioteca.
— Para quê?
— Para escolher quem vai sair desta casa hoje: o homem que enterra mais alguém ou o homem que prometeu voltar para jantar.
A safira do anel refletiu a luz da entrada. Dante cobriu uma das mãos dela com a sua.
Dentro da casa, Gabriel entregou a Marcos o endereço usado por Rizzo no interior do Paraná. Havia também comprovantes de pagamento de Vítor e gravações em que Carlo discutia o atentado.
— Posso colocar uma equipe na estrada em dez minutos — disse Marcos.
Dante olhou o número do delegado federal responsável pelo inquérito.
— Encaminhe tudo à Polícia Federal e ao Ministério Público. Avise onde Rizzo está.
Marcos ergueu as sobrancelhas.
— Tem certeza?
— Quero ouvir a voz dele quando souber que foi encontrado.
— Posso trazer vivo.
— Clara merece um marido que volte para casa.
Ela permaneceu na porta da biblioteca. Dante sustentou seu olhar e fez a ligação.
Rizzo foi preso antes do amanhecer numa casa alugada em Londrina. Os agentes encontraram documentos falsos, dinheiro e uma cópia do relatório de vigilância. Durante o primeiro depoimento, ele negou.
Ao ouvir as gravações, pediu advogado.
Dante recebeu autorização para assistir a parte do interrogatório por vídeo na sede da Polícia Federal. Rizzo parecia menor do que nas lembranças, com o cabelo grisalho e os ombros curvados.
— Quanto valeu a agenda? — perguntou o delegado.
Rizzo olhou para a câmera antes de responder.
— Eu devia dinheiro.
— Sabia que Helena levaria Sofia?
— Descobri depois.
O relatório provava o contrário. Rizzo anotara a troca de motorista vinte minutos antes da explosão e recebera um segundo pagamento naquela tarde.
Dante saiu da sala sem pedir para falar com ele. No corredor, encostou as mãos na parede e ficou até a respiração desacelerar. Marcos aguardou a alguns metros.
— Quer que eu diga alguma coisa? — perguntou.
— Quero que nunca venda minha agenda.
— Salário em dia ajuda.
Dante soltou um som que quase virou riso. A piada abriu espaço suficiente para que ambos atravessassem o corredor sem buscar vingança.
As provas atingiram o restante da estrutura Moretti. Vítor Sanz ganhou novas acusações por participação no atentado, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Gabriel entrou num programa de proteção após confirmar cada registro.
Dante prestou depoimento por quatro horas. Admitiu a retaliação ordenada contra Carlo anos antes e entregou informações sobre crimes que poderiam alcançá-lo. Seu advogado pediu uma pausa.
— Se continuar, abre uma investigação contra você.
— Abra.
— Não pode proteger Clara preso.
— Também não protejo ninguém sustentando a mesma estrutura que matou minha família.
Na saída, Dante pediu que o motorista parasse no cemitério. Marcos ficou no carro. Dante levou flores aos túmulos de Helena e Sofia, retirou folhas da lápide e contou em voz baixa que iria se casar.
— Ela não tenta ocupar lugar nenhum — disse. — E a menina odeia a caixa de música.
O vento moveu as árvores. Dante ficou ali até os dedos perderem calor, depois voltou ao veículo por vontade própria. Guardou uma pedra pequena do caminho no bolso e colocou-a mais tarde dentro da caixa de lembranças de Sofia.
Clara o esperava na cozinha. Dante mostrou a pedra e explicou de onde viera. Ela trouxe uma caixa de madeira, escreveu a data numa etiqueta e deixou que ele escolhesse o lugar.
— Eu disse a elas que vou casar.
Clara parou com a caneta no ar.
— E?
— Pela primeira vez, saí sem pedir desculpas por continuar vivo.
Ela fechou a caixa e o abraçou. Nenhum dos dois tentou preencher o silêncio.
Naquela noite, a pedra ficou ao lado da fotografia de Sofia, visível quando a porta aberta recebia a luz do corredor.
Ao voltar à propriedade, o sol começava a surgir. Clara estava sentada nos degraus internos com um cobertor sobre os ombros.
— Você esperou.
— Disse que voltaria.
Dante parou diante dela.
— Podem me investigar.
— Vai cooperar?
— Vou.
Clara abriu o cobertor. Dante sentou ao lado e permitiu que ela o cobrisse também.
Uma viatura da Polícia Federal atravessou o portão levando caixas de documentos apreendidos. Dante acompanhou as luzes até desaparecerem entre as árvores.
Quando se virou, Clara continuava ali.
— Ainda quer casar comigo? — perguntou ele.
Ela encostou a testa no ombro dele.
— Quero casar com o homem que voltou.